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AMELIA 100 ANOS

INFÂNCIA
Amelia Benvenho Cotelo, nasceu em 28 de abril de 1916, numa fazenda em Branconi, Sertãozinho perto de Ribeirão Preto.
Com sete anos, morando na roça, ajudava na limpeza dos pés de café e diariamente levava comida para o pai, irmãos e irmã, na fazenda Agua Vermelha
Sua irmã mais velha “Nenê” casou-se com um rapaz que a família não gostava, mas mesmo assim, casou e foi embora, morar longe, com a família do noivo .
Amélia ajudava a cuidar dos sobrinhos, filhos de Virginia, outra irmã que morava perto, casada com Pedro Bravo.
Observação: No primeiro dia da colheita, a irmã de Pedro Bravo fugiu com um espanhol; Amélia tinha por volta de 7 anos. Três dias depois de fugir, a moça voltou e foi à casa do irmão Pedro:
- Boa noite!
 o irmão respondeu: -
- Boa Merda! Pelo caminho que você veio pode voltar.
 Passaram 12 anos sem se ver.

Com 10 anos, Amélia  mudou-se, com a família,  para outra fazenda, “Feijão Queimado” Município de Colina, onde ficou mais ou menos até os 16 anos. O patrão dono da fazenda chamado Sorgi, era “homem muito bravo”!
Lá eles plantavam café, arroz, feijão e milho, também tinham uma cabrita, uma vaca, porcos e galinhas, tudo o que eles precisavam para o sustento da família.
- Amélia você não brincava?
Brincava disse ela! Brincava com a família de uns pretos, com boneca de pano ou feita de espiga de milho.
- Minha mãe sempre dizia: - Amélia,” vai acabar virando preta como essa família (preconceito de imigrante Europeu).

COSTUMES FAMILIARES.
A mãe de Amélia, chamada Antônia, sabia ler, escrever, (escrevia e lia as cartas dos vizinhos da Colônia), além de ensinar catecismo para as crianças da comunidade. Ela era muito religiosa, pois  havia feito seus estudos no colégio das irmãs, na Italia.
Já seu pai Luís, não sabia ler, eles se casaram na Itália, mas os filhos nasceram no Brasil. São eles  : Pedro, Antônio, Constante e Joaninho.
Só era  permitido que os homens fossem à escola.
As mulheres não aprendiam a ler, só sabiam coisas de casa para um dia tomar conta de suas próprias casas, cozinhando, costurando, fazendo crochê e rezando.  Amélia aprendeu a fazer crochê aos sete anos, olhando suas irmãs: (Nenê, Elisa e Virginia).
Elas iam, também, no terço, durante todo o mês de maio, mês de Maria. A novenas eram feitas em diferentes casas da Colônia e até na do patrão.

Aos domingos, a família comia porco e galinha.  Amélia experimentou bife, pela primeira vez, quando o filho do patrão matou um boi e fez bifes na casa da Amélia; ela achou uma delícia!
Também, aos domingos, os homens jogavam bocha, após o almoço.
Amélia levava, nessa época para a roça, a “Bigorna”, um pau onde iam penduradas a cesta com pratos, garfos, colheres e panelas com arroz e feijão para o almoço e merenda.
- Amélia, você não tinha medo? 
Não, só quando aparecia alguma cobra.

Amélia conta que um dia ficou atrapalhada ao juntar as partes de uma camisa que sua mãe tinha cortado o molde, não havia jeito de acertar!
- Sua mãe disse: experimenta colocar a camisa no direito e as mangas no “reverso”, coisa que ficou guardada para sempre, para não mais esquecer e, também, não mais errar.
De outra feita ela costurou uma calça, mas achava que não tinha acertado, sua mãe disse: bom, mas você precisa desmanchar tudo, (coisa muito trabalhosa) e fazer de novo! Era assim que ela aprendia: fazendo, errando, refazendo, acertando, não mais esquecendo. Um verdadeiro laboratório de costura.

- Amélia, sua mãe era brava?
Não, minha mãe era calma e paciente, meu pai era muito bom, mas era muito bravo.
Cada três meses o patrão pagava o serviço, então meu pai levava minha mãe para fazer compras para casa. Tipo: açúcar, sal, farinha, bacalhau, peça de tecidos para confeccionar calças, camisas, cuecas e vestidos. Depois das compras, meu pai sempre levava a mulher para casa e ia para o bar beber e voltava muito nervoso e alterado!
O pai, entre outras coisas, além de trabalhar na roça, fazia os móveis da casa - disse Amélia.
Num determinado dia, ele se despediu do emprego e, com o dinheiro do trabalho e um pouco que havia guardado, comprou umas terras pro lado de Santo Anastácio. Seu primeiro filho Pedro estava com o casamento marcado, por isso, ele mandou o segundo filho, Antônio (21 anos), ir na frente limpar o mato e fazer uma casa e plantar cinco sacas de sementes.

Naquele lugar moravam várias famílias italianas, uma delas abrigou Antônio num quarto, onde ele morava de pensão. Três meses depois, aconteceria uma desgraça, Antônio apareceu no quarto morto com dois tiros na boca. Suicídio? Assassinato? Acidente?....para Amélia essa morte não ficou esclarecida. Ela lembra que sua mãe só foi chegar ao local três dias depois. Ele já estava enterrado.

ADOLESCÊNCIA
Amélia tinha 15 anos, quando essa tragédia aconteceu. Ela diz: A vida é feita de tristezas, alegrias e esperanças….
Amélia lembra das noites na colônia: depois do trabalho e da janta, as famílias sentavam em frente às casas para “prosear”, tocar sanfona e cantar.
Algumas diversões aconteciam: baile, terço, quermesse, (uma vez por ano em 6 de agosto), também aos domingos, as amigas saiam para visitar outras amigas que moravam mais distante e também iam aos jogos de futebol, que ocorria todos domingos à tarde.
Amélia ia aos bailes com os irmãos que era o jeito do pai deixar.

Amélia e os namoros
- Alguns namoricos. Amélia, lembrou do irmão da Estela chamado Nando.
- E quando entrou Leonardo na sua vida?
- Leonardo costumava passar a cavalo no sábado ou no domingo.
- Como resistir, então, a um cavaleiro tão “guapo”, não é Amélia?
Conversávamos como amigos e dançávamos também nos bailecos, ele pediu um dia para eu ser sua namorada. Os irmãos não gostaram, ficaram assustados, enciumados, por ser ele um cavaleiro espanhol e, naturalmente, diziam os irmãos, casado na Espanha, pois era mais velho, morava com o pai e dois amigos, numa clareira na mata, coisa não muito recomendável.

Amélia, desde cedo, era uma menina corajosa, teimosa e determinada. Não se deixou impressionar, com a resistência dos irmãos, até porque, seu pai gostava do rapaz, que era trabalhador, e não tinha vícios, (coisa muito comum em outros rapazes da colônia).
Um ano e meio depois da morte do pai e do casamento do irmão Joaninho, em 21 de abril de 1934, foi feito o casamento de Amélia e Leonardo pelo irmão Pedro, com o consentimento do pai Luiz, antes de morrer.

CASAMENTO E FILHOS....
- Amélia e o beijo? Amélia disse: - Só depois do casamento....
O sogro José comprou um sítio no Ribeirão dos Índios, Município de Santo Anastácio, para os noivos, e fez uma casa de 4 cômodos, sala , cozinha e 2 quartos.
- E o banheiro? – Amélia disse, no mato! Ora.
- E a lua de mel? – Na própria casa, sem forro e o sogro no outro quarto.
(Amélia, não podia nem gritar! “Nossa”!)
Ela tinha coragem! Mostrava mais uma vez determinação

ROTINA DO PRIMEIRO ANO DE CASADA…
Fazer comida, tratar dos animais: porco, galinha e cachorro, levar almoço e café na roça, costurar e, o principal, crochê; como momento de laser e criatividade.

NASCIMENTO DOS FILHOS.....
Com um ano e dez dias de casados, nasceu o primeiro filho, no dia 1 de maio de 1935.
Amélia teve o filho com parto normal, com uma parteira em casa.
A emoção foi tão grande que até chorou. O neném era lindo, delgado e tranquilo. Leonardo ficou dois dias em casa ajudando a embalar o neném, que recebeu o nome de Deolindo. Quando ele ficou maiorzinho, já ia para a roça com Amélia que, por ser muito criativa, fez uma rede de lençol e colocava o neném junto ao pé de café.

Dois anos depois, já tinha uma menina linda de olhos azuis, que se chamava Dorcilia, e que viveu pouco tempo nessa vida, pois morreu com apenas 1 ano de idade.
Nessa época, a família passava por necessidades econômicas e até o enterro da criança foi seu irmão Pedro que providenciou.
Pedro sempre foi um irmão cuidadoso com toda a família como também sua esposa, Delia.

Um ano depois, nasceu o terceiro filho, mais um homem, José, nome dado em homenagem ao avô paterno, pois era comum, na Espanha, o primeiro filho homem ter o nome do avô e com isso Amélia e Leonardo repararam, não ter colocado em seu primeiro filho o nome José.
Amélia, porém, não se conformava em não ter uma filha, e resolveu tentar mais uma vez, com todo o risco que outra gravidez tão próxima acarretaria. Nasceu o terceiro filho mais um homem, que foi dado o nome de Lino, bebê gordinho e bonitinho.

MUDANCAS NA FAMILIA.....
Nesse período houve um desentendimento familiar de Leonardo com seu irmão Constante, que acabou levando Leonardo a ser preso por dois dias. “Coisas de famílias”; aconteceu! Como diz Amélia....
Cinco anos depois, chegou a filha tão esperada, o parto da menina foi muito difícil, o pai teve que buscar um médico correndo, pois a parteira, não conseguia retirar o “seguro” (nome dado à placenta). Aparecida recebeu esse nome em homenagem a Nossa Senhora de Aparecida, santa querida de Amélia. Aparecida, menina gordinha, boazinha e também mimada por todos  os homens da família, o pai e os 3 irmãos.

Nessa época, Amélia já havia mudado para Londrina, no Paraná, cidade de terra roxa, boa para plantar café; moraram na Vila Gazone, onde a menina nasceu. Anos depois, mudaram para a rua Bahia, rua mais próxima do centro de Londrina. E, então,  a família foi prosperando em sua casa própria. Compraram também um sítio no “Couro do Boi”, ainda por ser desmatado, para fazer futuramente o primeiro cafezal; ficaram 2 anos. 

Amélia, sempre de bom senso e grande intuição, disse para Leonardo: sou burra, mas não quero que meus filhos fiquem sem estudar. Leonardo, então, resolveu vender o sitio, já todo preparado, e se fixou definitivamente na cidade. Ao se fixar em Londrina, Leonardo resolveu organizar seus papéis e visitar sua família na Espanha sozinho. Nesse período a comunicação era muito precária e os transportes internacionais também, pois fazia, apenas 4 anos, que a segunda guerra mundial havia terminado e Leonardo permaneceu 6 meses na Espanha.

VIAGEM DE LEONARDO À ESPANHA.
Amélia, o que Leonardo disse a você sobre a viagem?
– Ele deixou lenha para mais de um ano (lógico o fogão era a lenha) e me disse que ficaria por volta de um mês. Isto - diz Amélia-  foi motivo para toda a família dizer que "desta vez ele vai deixá-la."
Os filhos de Amélia tinham respectivamente, Deola 14 anos, Jose 11 anos, Lino 9 anos e Cida 4 anos. Ele mandava cartas que chegavam com muito atraso. E as minhas, porém, nem chegavam, porque o transporte e a comunicação eram precários.

- Quem escrevia suas cartas?
– Uma espanhola que morava perto da gente, e eu botava no correio a cada 20 dias, ele ficava muito nervoso por não receber as cartas, mas eu estava calma, porque tinha meu dinheiro, meus filhos que iam para escola.
O Deola perto do Natal começou a trabalhar na joalheria dos alemães Sr. Ricardo Esibeth, como menino de entrega. Eu saía com dona Adelaide que tinha 12 filhos, nós íamos à missa e depois à praça onde as crianças brincavam.
- Amélia, em nenhum momento você teve dúvida da volta de Leonardo? – Não, eu tinha um vizinho o Sr. Silvio, muito bom, casado com Lourdes que volta e meia passava por minha casa e perguntava se eu precisava de alguma coisa e porque ele tinha dinheiro e que poderia me dar se eu precisasse.
Eu dizia que não precisava, pois eu ia ao banco e retirava o dinheiro com um papel que Leonardo me deixou, quantia necessária por uma ou duas semanas.
Eu comprava: arroz, feijão, banha, manteiga, macarrão, sal, temperos em geral, cadernos e livros para os meninos e também fazenda para fazer roupas para as crianças.
- E não esquecendo a linha para o crochê, não é Amélia? – Claro.
 Passei o Natal bem, com muitos doces que a patroa do Deola mandou para nós.

- E os brinquedos?
– Isso não tinha!
Passaram vários dias, conta Amélia, vesti as crianças e fui com elas na casa de Carolin, vizinho que morava no outro quarteirão com a mulher Antônia. Eu estava lá, quando Ida, minha vizinha de frente, bateu palmas e disse: Amélia, volta para casa, que tem uma surpresa pra você. Voltei com as crianças... O Leonardo estava com a mala em pé no portão. Ele havia tomado um susto, por achar que eu tinha o abandonado e ido morar no Ribeirão dos Índios com meus parentes.
- Eu disse! Não fui eu quem o abandonou e sim você que me abandonou. Eu não saí da minha casa, mesmo quando meu cunhado Furin veio pegar o rádio a mando de Elisa, irmã de Amélia e me chamou para morar com eles.

- A chegada de Leonardo foi melhor que primeira noite de lua de mel?
 – Não, muitos meninos em casa! Saudades e emoção eram muito grandes! Apesar de achar que na Espanha ele teve outras mulheres. Você acha que o homem fica muito tempo sem mulher? (Responde Amélia)

Ao voltar da Espanha, com um pouco de dinheiro da venda de terras de lá, ele comprou um carro de praça e um outro sítio perto de Bela Vista, onde plantou café. Neste sítio morava uma família japonesa, muito boa (fomos padrinhos do casamento deles). Esta família tomava conta do café e plantava de tudo, pomar e horta….
Leonardo ia, uma vez por outra ao sitio e trazia, no carro, tudo que se plantava lá.

FILHOS CRESCIDOS.

Deolindo Cotelo (primeiro filho)
Deolindo estudou o primário na escola rural e terminou na escola Estadual Marcelino Champegnate.
Depois de trabalhar, aos 14 anos na casa de joias, trabalhou numa mecânica de carros.
Abriu com os irmãos Pancho e Ninho (paraguaios) uma loja de manutenção de máquinas de escrever. Casou em 12/12/1959 com Judith Varasquin, tinha, então ,23 anos.
Começou a trabalhar no Banco do Brasil em 1961, no departamento de operação e manutenção da rede telex. Teve 3 filhos: Gladiston Rogerio (engenheiro civil) casado com Monica (advogada); Joyce Margareth (fisioterapeuta) casada com José (advogado), e Edilson Fernando (agrônomo) casado com Marcia (professora de Inglês).
Deolindo e Judith têm 5 netos homens: Gabriel, João Victor, Thiago, Guilherme e Arthur e 2 netas: Leticia e Amanda. Deolindo e Judith já comemoraram Bodas de Ouro em 12/12/2009.

José Cotelo (segundo filho)
José estudou o primeiro grau inicialmente na escola rural e depois no Colégio Estadual Marcelino Champagnate.
Trabalhou inicialmente no IAPB e depois entrou no “NOSSOBANCO” como escriturário em diferentes cidades do Paraná. Foi transferido para Brasilia em 1959, dois anos antes da inauguração da capital. O Banco do Estado do Paraná incorporou o Nossobanco, onde José exerceu a função de gerente por 33 anos. Nesse período ele continuou trabalhando em várias cidades do Estado, e se aposentou como gerente do BANESTADO em Londrina.
Casou em 11/1/1964 com Yrai Scalon (professora de geografia).
Tiveram 2 filhos: José Roberto (engenheiro de computação pelo IME) casado com Ellis Regina (psicologia em curso) e Jeanina (Nutricionista).
José e Yrai têm 2 netos: Lucas e Leonardo e uma neta Gabriela.
Em 11/1/2014 celebraram suas Bodas de Ouro com uma viagem à Europa.

Lino Cotelo (TERCEIRO FILHO)
Fez primeiro grau no colégio de Aplicação, segundo grau no Colégio Londrinense. Durante o segundo grau, trabalhou numa loja de sapatos e com 20 anos trabalhou no Nossobanco. Com 21 foi para o Rio de Janeiro fazer vestibular. Passou muito bem nos vestibulares da PUC-RIO e na Escola Nacional de Engenharia. Formou-se na Escola Nacional de Engenharia, como engenheiro civil em 1966 sendo esta, a última turma da Universidade do Brasil.
Em 1967 foi fazer, na Europa, estágio em diferentes países sobre pré-moldados em concreto.
Ao voltar para o Brasil, foi trabalhar na Erevan Engenharia s/a (primeiro e único emprego). Atualmente é diretor da empresa.
Casou em 4/11/1967 com Wanda Maria Cardoso, professora, tiveram dois filhos: Fernando (advogado e economista) casado com Helga (professora universitária) e Marcia (engenheira civil).
Lino e Wanda tem 3 netos: Pedro, Leonardo e Heitor.

Aparecida Cotelo (A PRIMEIRA FILHA)
Fez primeiro grau no Colégio Mãe de Deus, e concluiu no Colégio Londrinense. Fez segundo grau na escola normal no Instituto de Educação. Professora, casou-se aos 22 anos em 8/7/1967 com Luís Aparecido Bocati (advogado). Tiveram 3 filhos: Marco Aurélio (administrador de empresa), Fabiano (Administrador e analista de sistema) e André Luís (programador da Web). Ficou 18 anos casada e enviuvou em 29/10/1985. Foi morar em São Paulo onde trabalhou na Erevan Engenharia. Após ficar viúva, casou novamente com Moise Beçak (engenheiro civil e empresário).
Aparecida tem um neto Pedro e uma neta Catarina.

ALEGRIA E TRISTEZA
Amélia e Leonardo, em 21 de abril de 1985, fizeram Bodas de Ouro com uma grande festa, estando presente filhos, familiares e amigos.
Em 1994, Leonardo vem a falecer para grande tristeza de toda a família....

Parabéns Amelia!
Amélia, sua vida neste 100 anos retratou sua coragem, suas lutas, sua solidariedade com todos que estiveram a sua volta.
Menina, Jovem, Mulher, Mãe Corajosa e sempre focada na sua família buscando o equilíbrio a harmonia e a paz.

Autora: Wanda Cotelo
Enviado por: Zeca Noronha


VIVER A VIDA - DEPOIMENTO DE VIRGINIA

 

Fonte: Youtube
Enviado por: Marly Santanelli


SOU CIDADÃO DA CIDADE MAIS LINDA DO MUNDO!

Vim ao mundo em uma rua de nome pomposo lá pelos anos de 1942, no Bairro Glória na mui valorosa cidade de Porto Alegre, capital do meu Rio Grande do Sul.

Morava em uma rua muito pequena e cheia de vida, pois, diferente de hoje, meninos e meninas e pais descansados conviviam numa alegria e despreocupação quanto à segurança. A Rua Ponche Verde era uma parte linda na minha bela cidade. Estudei em um Colégio público perto de Casa, o Grupo escolar Venezuela que foi o princípio do meu primário até a preparação para o meu ginásio.

Lembro que na Rua Gomes Carneiro transitava o meio de transporte que me dá tanta saudade e que até hoje não sei por que foi extinto: o bonde, que, numa baldeação na rua Niterói, ia para o bairro Glória e para  bairro Teresópolis.

Lembro que andava nas ruas como um atleta e fazia, sem medo, longas caminhadas na segurança que infelizmente hoje já não mais existe. Eu amava demais a minha cidade e desfrutava minhas longas viagens no meu estimado meio de transporte. Tudo era o bonde. Ia ao centro passear na Rua da Praia e nos cinemas, tinha o Cine Vitória, o Guarany e mais tarde o Cine Cacique, sem contar o Capitólio, que ia sempre.

Também andava nos microônibus, uma espécie de lotação de hoje. Como eu sou torcedor do Internacional tive a graça de ver a construção do meu estádio que me custou uns tijolinhos como uma contribuição. E que quando pronto me deu muitas glórias e que hoje faz boas reformas pra sediar seleções famosas na próxima Copa do Mundo aqui no Brasil.

Tem também um clube rival chamado de Grêmio Futebol Porto Alegrense que equilibra toda Porto Alegre em torcidas. A cor vermelha é do Inter e a azul é do Grêmio.

A bela cidade que hoje festeja a sua semana de existência tem suas casas de espetáculos, teatros boates e pontos turísticos invejáveis, como o seu Parque da Redenção ou, na orla do Rio Guaíba, a bela Usina do Gasômetro e um por do sol que não existe mais lindo em todo o planeta.

Nasci em Porto Alegre e com certeza vou morrer aqui e não tenho nenhum arrependimento de ser assim. Temos grandes lembranças de grandes poetas e tantos escritores famosos que engrandeceram e engrandecem ainda hoje as ruas e avenidas da minha amada cidade.

E como cidadão de Porto Alegre rendo a minha mais bela homenagem na semana e no dia de seu aniversário.

Já ia esquecendo de mencionar: eu nasci na Rua Champs Elysées.

Autor: Paulo Kwamme.


I ENCONTRO DE SEMINARISTAS SERÁFICOS
Em Quixadá, 14 a 16 de janeiro de 2011
Mosteiro da Serra do Estevão

Macapá, 17 de fevereiro de 2011.

Meus irmãos, não sei por onde começar, para falar sobre Quixadá.
Vários outros colegas, em forma de crônica, já descreveram com muita clareza e tom romântico, os instantes de felicidade vividos na Serra do Estevão.

SOBRE O ENCONTRO DE QUIXADÁ

Pessoalmente, confesso que o I ENSESE se consubstanciou na realização de um sonho que, há muito, vinha perseguindo. Já pensou: “encontrar amigos e colegas de infância e de adolescência”, distanciados no tempo e no espaço..., há mais de 50 anos.

Dos 48 contatados, 33 se inscreveram e se fizeram presentes no Encontro de Quixadá, alguns com suas esposas e filhos.

Dos 126 nomes de batina, inicialmente agendados, foram identificados nomes civis e respectivos endereços de 51 colegas, sendo residentes em Fortaleza, em cidades do interior do Ceará, como Jaguaribe, Ubajara, Frecheirinha e Quixeramobim; no Estado do Piaui, nas cidades de Teresina e Parnaíba; no Distrito Federal, nas cidades de Brasília, Ceilândia e Taguatinga; no Estado de São Paulo, na cidade de Itatira; no Amazonas, Diocese de Alto Solimões, no Estado do Paraná, nas cidades de Cascavel e Foz do Iguaçu; no Estado do Rio de Janeiro, na cidade do mesmo nome, e na Cidade de Roma(It). 

Ah!.. Foi demais para o velho coração, que, a cada instante, quando abraçava um e outro, transbordava de júbilo, não só pelo contato físico, pessoal, do reencontro com cada um que havia garimpado, ao longo de um ano, através de telefonemas e
correspondências, mas, sobretudo, por estar conseguindo celebrar com toda a turma e com o apoio de cada um, a concretização do evento de Quixadá, o I ENSESE.

Verdadeiramente, não encontro palavras no dicionário das emoções para descrever os sentimentos que invadiram minh’alma ao rever ex-colegas de batina, com os quais privei durante seis anos em convívio diuturno, quer na capela, no salão de estudo, no dormitório, no refeitório, durante os recreios, jogos etc. É certo que alguns, devido às marcas do tempo, apresentam mudanças fisionômicas, mas, suas almas são as mesmas, com as similitudes e traços de antigamente, próprios de indivíduos moldados nos princípios e valores morais e éticos de uma vida religiosa monastérico-franciscana, professada pelo Patriarca de Assis, pela simplicidade, humildade e espírito fraterno.

Tenho como certo que reencontrar pessoas queridas é um dos maiores prazeres da vida.  Vinícius de Moraes já definia a vida, no célebre “Samba da Bênção”, como a arte do encontro, embora houvesse (e há) tantos desencontros na vida.

Em Quixadá, confesso, reencontrei pessoas que não as via há muito tempo, mas que jamais as tirei do meu coração, notadamente os colegas de classe escolar, pessoas maravilhosas que um dia cruzaram o meu caminho e o marcaram.

Encontrar pessoas assim, às vezes, é mais legal que encontrar aqueles que estão sempre do nosso lado.

Conversamos, rimos, brincamos e atualizamos os papos.  Lembramos tempos que há muito se foram, as brincadeiras, as traquinices inocentes, os fatos e ocorrências inesquecíveis da vida comunitária – e de quase tudo que foi dito por cada um que usava da palavra, nas plenárias, eu já nem me lembrava mais.  Bons tempos que se foram…e não voltam mais.  Foi e será bom estar com estes colegas novamente.  Tomara que não leve tanto tempo até nós nos revermos.

SOBRE A ORDEM

O sentimento de gratidão à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, pela formação recebida, sem nenhum ônus para as famílias, e por tudo aquilo usufruído durante o período de seminário, em Messejana, foi uma constante em cada manifestação de todo o encontrista.

Particularmente, as benesses recebidas da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos foram uma bênção na minha vida e de tantos outros que por lá passaram, beneficiários dos ensinamentos que foram ministrados, embora à moda antiga e nos moldes rígidos de uma formação ítalo-capuchinha, mas que renderam e ainda rendem a todos dividendos, reconhecidos como alicerce do que somos hoje.

No passado, beneficiários todos de uma formação franciscano-capuchinha, hoje cidadãos honrados contribuindo com a sociedade nas diversas áreas e esferas da iniciativa privada e do setor público (Executivo, Legislativo e Judiciário), como Médicos, Engenheiros, Psicólogos, Funcionários Públicos, Professores, Professores Universitários aposentados, Advogados, Procuradores Aposentados, Assistentes Jurídicos aposentados, Empresários e Comerciantes, Promotor de Justiça aposentado, Juízes, Juízes aposentados, Desembargadores e profissionais de outras áreas do setor público e privado. Entretanto, todos, sem discriminação de suas posições na sociedade, jubilosos em acorde uníssono e ao mesmo tempo harmônico, celebravam humilde e fraternalmente a ‘’alegria do encontro’’, de crianças do passado com adultos do presente.

Admitido no início de 1955 e egresso em outubro de 1960, ficaram pelo meio 06 anos de salutar formação moral, ética, cultural, disciplinar e sólida formação escolar.
Tive a sorte de estar no lugar certo, na época certa. Fui muito feliz em Messejana e não me lembro de um dia menos bom. Aos meus superiores, professores e mestres, registro aqui o meu muito obrigado e a confissão de minha eterna gratidão por tudo recebido.

SOBRE OS COLEGAS

Sobre a amizade e os amigos escrevem-se as mais variadas coisas: textos em prosa ou em verso, frases soltas e anônimas, citações de quem se imortalizou, slide shows, eu sei lá....

Porém, descrever a alegria do reencontro, de revivência da fraternidade, entre amigos de infância e de adolescência, para mim, é quase impossível. Por que será tão difícil?...
A descrição dos momentos de alegria e convivência fraterna oportunizados em Quixadá, do reencontro de amigos de infância e de adolescência, distanciados por mais de dez lustros, sem nenhum contato ou até mesmo notícia de paradeiro, para mim, se constitui tarefa irrealizável, pela riqueza dos momentos..., pelo volume das emoções... Não é possível passar para o papel as ansiedades que antecederam esse reencontro, a alegria que se tem quando ele acontece e, principalmente, como explicar o regresso ao passado que se faz - qual passageiros de uma máquina do tempo - tornando-nos, outra vez, meninos...

Pois bem. É o que posso asseverar sobre Quixadá. No espaço de 48 horas, tive a alegria e a felicidade de encontrar amigos perdidos no tempo e no espaço, e reviver momentos felizes de nosso período de formação.           

É verdade! Reencontrei amigos de infância com os quais já não estava nem falava, eis que vai para mais de 50 anos. E essa alegria e a agitação de ter falado com eles, é indescritível! É um doce regresso ao passado, no qual a memória nos torna a trazer sentimentos, cores e timbres, que julgávamos perdidos para sempre. Justo, então - entendo agora - o contentamento de nossos colegas, especialmente do ex-superior e mestre, Frei Mariano, hoje, Prof. Luiz Pires, figura ímpar, amante do passado e entusiasta pelo novo, sempre celebrando a alegria do reencontro com seus filhos de tempos atrás, como entendeu cognominá-los. Descontrolava-se emocionalmente sempre ao rever um e outro encontrista, quebrando a disciplina e a atenção de todos que participavam das plenárias... Parabéns a esse octogenário, prenhe de muita saúde e efusiva alegria de viver o contemporâneo.

Quixadá foi como se conseguir voltar a ter, de novo, a mesma jovialidade que no passado. Recordarmos velhas aventuras, que se tornaram recentes outra vez, no historiar e descrever de cada um, transportando-se, com seus relatos, à vida monástica, revivendo quadros e imagens dos tempos de clausura, pessoas e os instantes de uma dimensão temporal, que já vão longe..., não dando para esquecer aquela agitação inebriante e descontrolada de todos, que caracterizava a chegada de qualquer colega, ao adentrar o ambiente das reuniões.

Foi voltar – repito - a ser menino outra vez e sentir a mesma pureza de antanho, que julgávamos adormecida. Foi a simples identificação de cada um de nós, a síntese retratada do que foi a nossa vida pregressa, segregada, bem como os percalços, depois, que ultrapassamos no século, aqui fora, quando, jejunos das “coisas do mundo”, amargamos, inicialmente, o novel modus vivendi, experimentado, enfrentado e vencido por cada um,  após ter “pegado o saco”... Somos, realmente, vitoriosos.

Porém, ultrapassadas todas essas dificuldades e óbices, hoje, contabilizamos vitórias, sobretudo o crescimento individual e humanístico como cidadãos de bem, que somos, no lembrar de Frei Leão, quando citou, em sua belíssima descritiva crônica, palavras de D. Manoel da Silva Gomes, Arcebispo de Fortaleza, cujo arresto colaciono:

“... por ocasião da inauguração do Seminário de Messejana, respondendo a uma indagação do jornalista Parsifal Barroso:
- Vossa Excelência espera que deste Seminário saiam muitos padres?
- Não. Mas tenho absoluta certeza de que daqui sairão muitos cidadãos de bem e que ajudarão a construir uma sociedade de homens mais honestos e mais dignos”.

AOS QUE JÁ SE FORAM

A eterna saudade de todos aqueles colegas que já não se encontram mais entre nós, explicitando os nomes de alguns, que foram possíveis anotar, como Frei Daniel, Frei Otávio, Frei Vital, Frei Cornélio, Frei Libério, Frei Luciano, Frei Juliano, Frei Rainério, Frei Pedro Batista e Frei Celso. Também, dos diretores e professores de saudosa memória, Frei Paulino, Frei Hermes, Frei Dom Timóteo, Frei Martinho, Frei Higino, Frei Cesar, Frei Casimiro, Frei Abel, Frei Silvério, Frei Eugênio, Frei Lamberto, Frei Hortêncio, Frei Belchior, Frei Pacífico, Frei Conrado, Frei Jesualdo, Frei Guido, e outros que a memória me trai.

AGRADECIMENTO E PREITO DE RECONHECIMENTO.

Agradeço, finalmente, a todos pela capacidade de tolerância que manifestaram, durante o evento, com a coordenação deste irmão,que, em alguns momentos foi intransigente com a mantença da disciplina, porque necessária, bem como, registro o reconhecimento pela compreensão e engajamento das senhoras esposas, no cumprimento dos horários e ações comunitárias, com sacrifício, às vezes, do descanso vespertino, para atender à agenda definida.         

Vai, também, meu muito obrigado a todos, pela colaboração, determinação, apoio e disponibilidade para os trabalhos de garimpar e informar nomes civis dos colegas, com destaque ao esforço dos integrantes da Comissão Organizadora do I ENSESE, que não mediram esforços para que os objetivos, delineados desde outubro do ano passado, fossem alcançados plenamente. Agradeço, também, a colaboração material de um dos colegas, na confecção dos chaveiros, além da dedicação de minha esposa, filhos e familiares, no trabalho de equipe preparatório e durante o evento, tudo para que acontecesse a contento.

Espero, em outra oportunidade, poder abraçar a todos.
Glória a Deus por tudo que conseguimos e por tê-los como irmãos MARAVILHOSOS.

Autor: Gilberto Oliveira


MESTRE QUIRINO

Querida amiga Lou,

Minha história é muito pitoresca, hilariante e gostosa pra mim. Imagine só: fui aluno gratuito, órfão, no Colégio Militar. Recebia livros, cadernos, livros, uniformes, calçados, etc., da casa do estudante pobre.

Papai foi sargento enfermeiro da Marinha do Brasil e faleceu a bordo do Cruzador Bahia, último navio brasileiro a ir a pique no final da guerra. Na época tinha 4 anos e uma irmã de 1 ano, isto em 1945, se não me falha a memória. Minha mãe, Maria, nos deixou em abril do ano passado. Ainda sinto um vazio dentro do peito... Saudades, mas não tristeza.

Minha irmã é formada em língua francesa e português. Sempre foi prendada intelectualmente, conquistando muitos prêmios nas escolas onde estudou.

Eu sempre inspirei cuidados de mamãe porque, entre estudar e soltar pipa, eu preferia... a pipa!!! Assim, aos trancos e barrancos, terminei o primário e fui direto para o Colégio Militar.

Não poderia dar outra coisa... bomba logo no primeiro ano. Se repetisse de novo seria jubilado. Que vergonha perante a família, parentes e amigos.

Foi aí que pedi: - "mãe necessito de um explicador de matemática e não mais de um professor". O resultado foi tão fantástico que hoje guardo um diploma de bacharel e licenciatura plena em física e matemática, e mestre em didática de ensino universitário, graças àquele pedido.

Terminado o Colégio Militar, tentei a Escola Naval, mas o exame de vista me impediu de seguir a carreira de marinheiro. A conselho da mãe, fui para o E.B., onde me formei em 65. Como aspirante fui conhecer a terra de meu pai: Paraíba. Em 67, voltei ao Rio, quando me casei com Sônia Luiza.

Minha gestalt militar foi em 89, quando ingressei no magistério militar, na cadeira de ...tchan.. tchan....tchan......tchaaannn................psicologia!!!

Lecionei por 22 anos na...... A.M.A.N.!!! Quem diria!!! Durante o período, fui presidente por 11 anos do Instituto dos Docentes Militares, muito conhecido como mestre Quirino, por toda academia, desde o mais simples funcionário até ao general comandante.
Lou, depois conto mais...
Bjs,
Mestre Quirino


Rita de Cássia Amaral - in memoriam

Em 24 de janeiro de 2011, faleceu Rita Amaral, antropóloga, pesquisadora e orientadora do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo, doutora em Antropologia Social pela USP e pós-doutorada em Etnologia Afro-Brasileira pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Estudou festas, estilos de vida, religiões de influência africana e fez parte da equipe de pesquisa de Reginaldo Prandi, que estudou pela primeira vez o candomblé de São Paulo.

A obra antropológica de Rita abarcou ainda a organização do grupo de estudos Urbanitas, focado na antropologia urbana. Integrou a Coordenação do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo [www.n-a-u.org], do qual foi membro desde 1988, e onde foi Editora-chefa da revista PontoUrbe - Revista do Núcleo de Antropologia Urbana da USP [www.pontourbe.net]. Foi, também, organizadora e editora independente da revista de Antropologia Urbana "Os Urbanitas" [www.osurbanitas.org], do website Os Urbanitas [www.aguaforte.com/antropologia] e do blog de mesmo nome [www.osurbanitas.blogspot.com].

Portadora de osteogênese imperfeita, foi pioneira no movimento de conscientização sobre a doença no Brasil, traduzindo textos, auxiliando na formação de médicos e lutando pela melhoria da qualidade de vida dos portadores de deficiência física. Nesse sentido, fundou, há 11 anos a Associação Brasileira de Osteogênese Imperfeita – ABOI, na qual exercia mandato de presidente.

Rita era uma pessoa doce; sagaz; acolhedora; ligada em todo tipo de arte; e dona de uma força de vontade ímpar. Seus amigos e demais portadores sabiam que podiam contar com ela para ser apoiados e orientados. A criança que tinha ânsia de saber, a jovem que tocava violão e a grande mestre em antropologia conviviam numa única pessoa, formando uma grande personalidade.

Rita de Cássia de Mello Peixoto Amaral nasceu em 18 de fevereiro de 1958, em São Paulo e faleceu em São Paulo, em 24 de janeiro de 2011, de complicações respiratórias.

Fonte: Adriana Dias

Rita de Cássia Amaral fez parte da primeira equipe de pesquisadores do NAU, nos idos de 1988, quando saíamos em grupo pelas áreas centrais da cidade, reconhecendo pedaços, percorrendo manchas, identificando circuitos. Apesar de suas dificuldades de locomoção – deslocava-se em cadeira de rodas – era entusiasta da pesquisa de campo, como mostra sua dissertação de mestrado, sobre terreiros de candomblé em São Paulo.

Sua tese de doutorado, porém, sobre o tema das festas no Brasil, já foi feita com base em dados coletados na Internet. Rita, aliás, estava continuamente online, disponível, atenta. O computador, além de fonte de informação, era também uma fonte de renda, sua via de contato com uma ampla rede de amigos e pesquisadores e objeto de pesquisa, pois interessava-lhe a discussão sobre o estatuto da etnografia na Net. Na fase mais avançada de sua doença – osteogenesis imperfecta – era praticamente seu meio de comunicação e trabalho. Cabe mencionar que foi iniciativa sua a criação da “Associação Brasileira de Osteogenesis Imperfecta” (ABOI), em 1999, dedicada a ajudar os portadores dessa doença.

O site do Núcleo de Antropologia Urbana, em seu formato inicial, foi criado por ela em 2003, quando o NAU completara 15 anos, e ficou sob sua supervisão até 2009. Da mesma forma a revista eletrônica Ponto.Urbe (ISSN 1981-3341), da qual foi a responsável até a edição de número 4. Seus sites Urbanitas e Do Afro ao Brasileiro - Religião e Cultura Nacional são conhecidos de todos quantos trabalham na área da Antropologia Urbana e Antropologia das Religiões Afro-Brasileiras. Rita de Cássia foi minha aluna na graduação em Ciências Sociais na USP, orientanda no mestrado e doutorado no PPGAS, além de assídua colaboradora no NAU. E amiga. Sua participação e generosidade não serão esquecidas.

Autor: José Guilherme Cantor Magnani


VIDA DE ESCRITOR

Muitos pensam que a vida de escritor é ter a famosa criatividade e colocar no papel todo aquele resultado de sua inspiração. A criatividade é o principal fator para quem exerce essa arte, contudo isso é apenas o início da jornada de quem escreve.

Alguns têm “vida” mais fácil, chegando até a se profissionalizar, contudo aqui no terceiro mundo, a profissionalização é deveras difícil, temos que ter a nossa primeira profissão, para garantir o “feijão”; e depois investir na nossa paixão, que alimenta o ego e nos faz crescer como pessoa, difundindo mensagens positivas por todo esse mundo de meu Deus.

Nessa grande empreitada, a maioria tira dinheiro do próprio bolso, pois os patrocinadores preferem mais “investir” em uma “festinha de pagode” que dá muito mais gente e retorno, a investir na cultura e no novo escritor.

Nas idas e vindas de uma editoração, o susto do valor da publicação será diluído pelo sonho do primeiro livro, os devaneios começam a transitar na cabeça do escritor, prêmios, troféus… já pensou na repercussão de todo aquele conteúdo que outrora estava clamando para sair da gaveta?

Chega a hora da publicação e todos que o rodeiam pedem por uma noite de autógrafos, para isso além de dinheiro no bolso, ele tem que investir mais uma vez no coquetel da galera, o escritor deve ter coração de aço, porque com toda aquela expectativa do lançamento pode resumir-se em alguns conhecidos que resolveram dar uma “forcinha” ao estreante na arte de escrever.

Muitos autores fazem a festa, gastam todo aquele valor e no final entrega seu “sonho” literário de “mão” beijada para ver se ganha alguns leitores, envia até pelo correio a sua obra, tem pessoas que recebem o exemplar e “esquecem” até de agradecer, encostando o dito cujo na estante empoeirada junto ao dicionário.
Outros mais decididos saem à procura do seu leitor, cliente comprador ou qualquer nome que possa ser usado para conhecer a sua obra.
Alguns ainda soltam pérolas como: “- ele gosta de escrever” ; “-escrever é bom para se desenvolver”; “ -vou comprar para te dar uma “força”; ou até: “-um dia desses eu farei o meu…”.

Têm outros que compram o livro sem pestanejar, contudo para pagar o autor que vai ter que suar a pestana, ficando ali na marcação, até que um dia o “enrolado” resolve pagar, na melhor das hipóteses; outros fogem como o diabo da cruz, é só o escritor apontar que ele vai saindo, com aquele sorriso amarelo.

Nesse imbróglio todo tem o “incentivador” que quer saber logo a livraria que vai estar à venda, clamando pela segunda edição ou até mais um novo livro pensando que a “fábrica de idéias” funciona dessa forma.

Por isso caro autor tome muito cuidado na hora de tirar o seu livro da gaveta para investir na cultura de um país predominantemente aculturado, pois cada passo tem que ser meticulosamente calculado porque na verdade o seu louvável sonho poderá se tornar um triste pesadelo.

Autor: Marcelo de Oliveira Souza


A HISTÓRIA DE ADEÍLSON

Ex-morador de rua ganha bolsa de estudos para cursar Pedagogia

Das ruas às salas de aulas. E, depois, para o mundo. Esse é o caminho que Adeílson Dias, de 29 anos, está trilhando. O rapaz que chegou a morar nas ruas ganhou bolsa de estudos para cursar Pedagogia. E, quando acabar a graduação, embarcará para a Argentina, onde fará intercâmbio de seis meses.

Irmão de dez pessoas, sua infância foi na Favela do Barbante, em Inhoaíba, na Zona Oeste. Aos 11 anos, Adeílson decidiu pegar uma caixa de engraxate e foi para a Central do Brasil trabalhar. Além de conseguir seu sustento no local, o jovem morou lá por cerca de um ano.

— Eu e os outros meninos pagávamos propina a policiais ferroviários para eles nos proteger dos outros garotos de rua, que não moravam na Central — recorda.

Dono de uma curiosidade enorme, Adeílson decidiu sair da Central para conhecer o Centro do Rio. Mas a decisão lhe trouxe problemas. Quando andava na Carioca, meninos de rua roubaram sua caixa de engraxate e o espancaram.

Páginas amarelas

Acompanhado de amigos, o garoto passou a andar pela Cinelândia, Praça Mauá e Candelária. Único do grupo que sabia ler, Adeílson estava sempre com exemplar das páginas amarelas embaixo do braço:

— Meus amigos pediam para eu ler aquilo. Mas eram só nomes. Contava e eles não acreditavam. Então, eu lia os nomes e inventava histórias para os outros meninos.

Quando tinha 14 anos, um homem entrou em contato com a associação de moradores da comunidade onde sua mãe morava e Adeílson voltou para casa. Terminou os estudos e passou a consumir arte compulsivamente.

Aos 18 anos, sua vida teve outra reviravolta. Na porta de um teatro, pedindo ingressos, conheceu o ator e diretor Sérgio Britto. Além de ganhar a entrada para a peça, Adeílson foi presenteado com bolsa na Casa de Artes de Laranjeiras. Quando ele se tornou ator oficialmente, foi dar aulas. Atualmente, é professor de teatro no Centro Cultural Cartola, na Mangueira, onda leciona só para mulheres, e da ONG Fábrica de Atores e Material Artísticos (Fama), em Nova Iguaçu, onde dá aulas gratuitas.

Após prestar vestibular por cinco vezes e não passar, Adeílson conseguiu bolsa de estudos integral para estudar Pedagogia. As aulas começam este mês. Quando terminar a graduação daqui há quatro anos, ele embarcará para a Argentina e fará o intercâmbio.

Receita para vencer miséria

De acordo com Adeílson, ele conseguiu a bolsa através do Projeto Grão, de Thelma Fraga.

— Só através da educação, nós podemos sair da miséria intelectual e financeira que vivemos. Não tem outro caminho — afirma.

No centro cultural, a descoberta da sua paixão

A vida de Adeílson Dias começou a mudar assim que ele se interessou por arte. E isso aconteceu de forma curiosa. Um dia, quando ainda perambulava pelas ruas da cidade, ele entrou, por acaso, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), próximo à Candelária, para beber água. Lá, o jovem se deslumbrou com o mundo que viu ali dentro. E encontrou a sua maior paixão: a arte.

Quando voltou para casa de sua mãe, em Inhoaíba, Adeílson passou a ler todos os livros que estavam disponíveis na casa. Aos poucos, ia nascendo o ator.

Sérgio Britto: ’Ele tem um instinto fora do comum’

O diretor Sérgio Britto afirma que Adeílson é um artista com várias habilidades e terá futuro brilhante. Mas é preciso ter paciência para que o talento seja encaminhado à área específica:

— Ele tem um instinto fora do comum. Fala de teatro de uma maneira apaixonada. Eu não errei ao dar a bolsa a ele. Adeílson é uma pessoa de teatro. Ele atua, pinta, dança, dirige e também escreve. Tem múltiplas qualidades. Eu acho que ele pode ir longe. Não sei em qual carreira, mas ele precisa ter calma para encontrar o caminho a ser trilhado.

Fonte: Jornal Extra
Autor:
Athos Moura
Enviado por: Meireluci de Azevedo


UM POUCO DE JONATHAN MONTEIRO

Amiga Lou,
Como já disse, sou Engenheiro Civil e, tenho a música como "hobby" mais importante. Em segundo plano, tenho a leitura como segundo "hobby". Sou casado em segundas núpcias, com 6 filhas sendo: 3 do primeiro casamento e 3 do segundo (estas, 18, 15 e 12 anos).

Até o momento tive a oportunidade de conhecer 34 países distribuídos pelas duas Américas; Europa;  Ásia; África e Antilhas. Gosto de fazer amigos e mantê-los. Sobre idiomas, fora o Português, domino bem o Espanhol e o Inglês e, leio e entendo um pouco o Francês.


Família atual


Bodas da primogênica e irmãs


Muro de Berlim do lado ocidental


Na Praça Vermelha em Moscou

Autor: Jonathan Monteiro


UM POUCO DE MINHA HISTÓRIA
Suely Satow

Nasci aos 6 meses, de parto difícil, sem assistência médica, sem recurso nenhum, em casa, num sítio de uma família japonesa. Deu anóxia (falta de oxigenação no cérebro) pelo parto ser muito demorado, sofrido e também pela prematuridade e, segundo uma neurologista, alguns neurônios que estavam em formação no corpo caloso morreram e eu fiquei com a paralisia cerebral do tipo atetóide (este tipo de paralisia cerebral apresenta muitos movimentos involuntários) com dupla hemiplegia. Isto aconteceu em 08/01/53.

Depois de 4 meses eu ainda não tinha os movimentos de uma criança normal e aí meus pais começaram a me levar a massagistas, médicos, etc. e minha mãe movimentava meus braços e pernas, sempre com cuidado, sempre vendo meus limites. Intuição materna.

Aos três anos minha família e eu mudamos para São Paulo para, segundo meu pai, ficar mais fácil a procura de médicos e tratamentos para a deficiência que eu apresentava.

Quando mudamos para a casa nova, não havia nenhum vizinho próximo. Só alguns meses mais tarde uma família de japoneses mudou-se para perto de minha casa e com ela, meu 1º amiguinho.

Como não havia crianças por perto, só eu, ele brincava comigo. Para ficar mais fácil a minha locomoção, pois andei sem me apoiar em algo por volta de seis anos, ele pediu para o pai ou o avô dele fazer um carrinho de rolimã com meia caixa de tomates, só para me levar até a casa dele, quando não podia ficar muito na minha casa e a rua onde morávamos era cheia de pedras e não era asfaltada.
Conclusão, eu caia no meio do caminho e ele me colocava novamente no carrinho e íamos em frente. Quando a turma começou a crescer em número, porque vários outros se mudaram para a rua onde moro, ele ficou sendo o chefe da turma e inventava regras especiais para que eu pudesse brincar com eles e não ficar segregada. Por exemplo, quando brincávamos de mocinho e bandido, ele me colocava como sendo a cozinheira da caravana, mas nem por isso eu deixava de levar um "tiro" de mamona, um soco etc., quando brincávamos de mãe da rua, todos tinham de atravessar a rua com um só pé, só eu podia usar os dois pés. E assim ia.

Tive uma infância muito feliz, graças a ele. Minha mãe ficava com o coração na boca, no início, mas depois se acostumou. E virou perita em fazer curativos, porque eu caia muito e ai... curativos. Ela fazia curativos em todos os meninos da turma, pois ficavam com medo das broncas das mães deles e mostravam os machucados para a minha fazer os curativos neles. Pode?!?!?! Agora, os filhos dele são meus sobrinhos postiços, assim como os filhos do irmão dele. Alguns dos moradores da rua são amigos há 3 gerações (os nossos pais, os filhos deles e os netos).

Mas nem por isso os preconceitos acabaram. Quando eu concluí o doutorado meus pais fizeram um almoço para mim e eu convidei o irmão desse meu amiguinho (mal ele sabe o quanto me ajudou!) e aquele apareceu em casa antes do evento para ter a certeza de que eu não havia errado no curso.

Ele fez várias perguntas sobre o curso e eu respondendo a todas! Ele chegou a dizer que não sabia que no Brasil já havia doutorado em Engenharia, pois ele é engenheiro naval, formado pela Politécnica da USP e eu dizendo que já existia, tanto é que um outro amigo em comum estava fazendo e por isso vinha de Sta. Catarina até a USP. Ele tanto falou, que, depois de cerca de 1 hora, perguntei se ele queria ver a ata da defesa de tese e ele disse que sim. Assim que mostrei a ata com 5 nomes de doutores que foram membros da banca e 5 10, ele saiu de minha casa super sem jeito e cabisbaixo.

Talvez, a mãe dele comentava que eu tinha conseguido entrar na Universidade, mas não tinha conseguido sair de lá até aquela época, pois ela me encontrava vez por outra em frente à PUC. Isto aconteceu em 1994.

Antes, quando todos estavam na idade de entrar para a Universidade e estavam prestando vestibular, eu prestei para entrar em filosofia na PUC-SP e entrei em 1972. Era a minha 1ª e única opção. Ai, em conversa com as mães dos vizinhos, uma delas chorando desesperada, disse “Porque meu filho não entrou na faculdade, se até ela conseguiu?”

Eu me lembro que todos os primos, amigos e conhecidos da minha idade, quando souberam do fato de eu ter entrado na PUC-SP, estudaram muito ou fizeram matrículas em estabelecimentos considerados fracos para a época.

Após muita procura, disseram para ir à AACD. E aí comecei a minha vida escolar no jardim da infância, na A.A.C.D., com 5 anos e meio sem entender uma única palavra da língua portuguesa em regime de semi-internato, pois na minha casa só se falava a língua japonesa.

Fiquei lá até os 7 anos e ½, quando Dr. Bonfim (fundador da instituição), juntamente com a diretora pedagógica disseram para a minha mãe que eu não necessitaria ficar lá e o melhor seria me colocar numa escola comum, pois a deficiência que apresentava não era (e não é) muito limitadora e se eu ficasse lá, a tendência era a piora do quadro, porque eu só teria crianças mais comprometidas que eu como modelos. A verdade é que eles não entendiam nada da paralisia cerebral.

Lá, eu me sentia fora de lugar, porque eu não tinha que usar cadeira de rodas, aparelhos, muletas e outras órteses para poder andar e não era sequelada de poliomielite, que era do que a AACD cuidava naquela época. E, também, não tinha cicatrizes enormes pelas pernas e braços, não tinha nenhuma atrofia, e outras coisas assim.

Depois disto, meus pais matricularam-me num colégio perto de casa e lá fui eu. Há um pequeno detalhe: a escola era particular e era religioso – da congregação Salesiana. Por quê? Na cabeça de minha mãe, era para me poupar das crianças de escola pública, por que eram mais agressivas e não haveria quem me protegesse das chacotas dos coleguinhas, como em colégio religioso. Viva a super proteção! Há um detalhe: minha mãe não sabia que as escolas públicas não aceitavam deficientes.

E lá fui eu, estudava e procurava fazer tudo como as outras crianças; parecia como as outras, mas não era bem assim e eu também sentia isto. Outra vez, sentia que estava fora de lugar.

É interessante, pois, dentro da sala de aula, eu era vista como uma super aluna - aplicada, estudiosa, inteligente, super esforçada, e, pior, colocavam-me como a exemplo a ser seguido! Como isso pesava! E eu não me considerava nada disto, e, ao mesmo tempo, tendia a acreditar e a carregar este peso. Na verdade, esta identidade atribuída foi produto de uma dificuldade que eu tinha em escrever, falar, e de coordenação motora, devido à paralisia cerebral.

Na hora do lanche eu ficava num grupinho de "marginais" — uma era gorda demais para a idade, outra era pobre e simplória para a categoria do colégio, ainda havia uma que era filha de pais desquitados e outra, negra.

Sempre foi assim, do primário até o último ano do colegial. Indo um pouco mais além, até a universidade. É interessante que Dom Paulo Evaristo Arns, que acabara de ser nomeado arcebispo de SP disse para a minha madrinha de crisma, que se deu quando eu estava no 8º ano do 1º grau: “ essa menina vai longe!”. Na formatura do 1º grau, ele foi o paraninfo de minha turma e fez questão de entregar o diploma para mim.

Terminado o primeiro grau, tive que mudar de escola, porque não havia o colegial lá. Para me matricular em outra escola, precisava do atestado médico. Fui até o posto de saúde do bairro onde moro em São Paulo para fazer o dito cujo, mas, chegando lá, o médico escreveu em meu atestado que eu era retardada mental.

Ele nem me examinou direito, viu que eu não articulava bem as palavras (minha fala era bem pior do que agora), era lenta para pegar coisas, enfim, era esquisita, então ele colocou no papel que eu tinha retardamento mental.
Alguns meses antes fiz um teste vocacional na escola e a minha escala no Quociente de Inteligência – Q.I.– resultou como sendo deficiente intelectual.

Na hora minha mãe ficou muitíssimo furiosa, pegou o exame médico e rasgou-o na frente do médico, dizendo que uma pessoa retardada mental não consegue chegar ao colegial. Mesmo assim, ele não voltou atrás. Depois deste incidente, fomos para a escola que eu iria frequentar para perguntar se era válido um atestado de saúde dado por um médico particular. As freiras que dirigiam a escola aceitaram. E fomos para o médico que já me conhecia, pois fazia os atestados médicos de toda a escola para a prática de educação física. Minha mãe expôs o acontecido, depois de pedir o atestado. Este ficou indignado, chegando a chamar o outro de ignorante e quem era retardado era o outro e não eu.

Continuando a minha trajetória, frequentei o colegial todo, sem problemas aparentes. Sem problemas aparentes, porque, no final de 1º ano, a psicóloga da escola chamou a minha mãe e eu para ter uma conversa séria. Pensei: "É hoje! Fui reprovada!" Mas não era esse o assunto a ser tratado.

O assunto era a minha atitude de não falar em classe. A psicóloga me chamou de egoísta porque não queria compartilhar a minha experiência de vida com as colegas.
E eu pensando "Por que? Não há nada demais na minha vida. Ela é desinteressante." E não era bem assim. Com o passar do tempo é que fui entender a bronca que levei.
Eu entrava muda e saia calada da sala de aula porque eu não achava que aquilo que ia colocar era importante, muito pelo contrário. Muito mais tarde, fui ver que o medo de ser descoberta na minha deficiência intelectual, que eu não tinha, pesava muito.

Ao mesmo tempo, lutei para provar, inclusive para mim, de que eu era capaz intelectualmente.

Após o Colegial, prestei o vestibular e entrei para a PUC. em Filosofia.

Frequentei o curso normalmente, durante 1 ano. No 2º ano, eu fui fazer um tratamento de reabilitação pelo método Doman. Fiz esse tratamento durante 6 meses, junto com o 1º semestre do 2º ano.

Tive de parar, porque a "cura" não aconteceu. Aconteceram a instalação de uma dor de cabeça fortíssima que não passava com nada, espasmos fortíssimos pelo corpo inteiro, pegando até a glote, crises de labirintite fortíssimas, o que me levou ao trancamento da matrícula na Universidade. A labirintite ainda continua atrapalhando a minha vida, mas vou levando.

Após procurar muito, encontrei um neurologista que, depois de 3 consultas, disse para eu tirar o cavalinho da chuva, se estava com esperanças de "cura".

Eu fiquei muito agradecida a ele por isso. Depois, na consulta posterior a isso, ele disse que mais de 70% dos problemas físicos que eu apresentava eram de origem psicológica, e me mandou para um psiquiatra.

Chegando ao consultório do psiquiatra, ele solicitou vários exames psicológicos. Após 1 mês, com os resultados em mãos, ele disse que eu tive muita sorte, porque se demorasse mais um pouquinho, eu não estaria lá, mas em outro lugar. Esta crise aconteceu porque eu não sabia quem eu era. Se fosse conveniente para todos, eu era considerada “normal” porque andava, e se fosse inconveniente, me consideravam deficiente física e até com incapacidade intelectual. Depois que comecei a frequentar  o psiquiatra, ganhei a identidade de louca.
Um ano mais tarde, após o início da psicoterapia, retornei à universidade, com muito incentivo por parte dos 2 médicos e de minha mãe, onde concluí o curso de Filosofia, iniciei o de Comunicação Social para esperar a permissão do psicoterapeuta, dos psicólogos amigos para começar a pesquisa dos preconceitos que recaiam sobre os deficientes físicos.

Quando terminei o curso de Comunicação Social, deram o ok e parti para fazer o mestrado em Psicologia Social pela mesma Universidade.

Nesse meio tempo, consegui me ver na condição de deficiente, com a ajuda de muita psicoterapia, e me tornei militante pela nossa causa.

Depois de passar pela defesa de dissertação, onde pesquisei a identidade de um militante político revolucionário deficiente físico, uma professora de pós em psicologia social olhou para mim e disse que não sabia lidar conosco, como um apelo.

Eu fiquei muito abismada com isso, porque pensei que o grau de ignorância ainda é muito grande em torno destas questões, depois deste incidente, fui assistir a um congresso sobre a paralisia cerebral e um psiquiatra renomado em questões sobre a pc. simplesmente colou a psicologia dos deficientes intelectuais para os pc.  e entrei para fazer o doutorado, também pela PUC-SP.

Hoje, sou Doutora em Psicologia Social e minha tese foi referente à Identidade dos Paralisados Cerebrais Socialmente Ativos. Esta pesquisa acabou sendo editada em livro pela Cabral Editora Universitária com o nome “Paralisado cerebral: construção da identidade na exclusão.”

Depois, fiz um curso oferecido por professores da Universidade de Salamanca e financiado pelo governo brasileiro e espanhol, para estudar a inclusão de pessoas com deficiência na sociedade, em 1998 em Brasília e em 1999 em Salamanca ,Espanha, (com a duração de 1 mês em cada módulo) mas quando cheguei lá, eles não sabiam lidar com um pc. Era para entregar uma pesquisa em 2.000, mas não dei conta, pois não encontrava a parte teórica para esta, então, fiquei com o título de especialista em inclusão e não com o de mestre.

Agora sei, com certeza, de que eu estava à procura de minha identidade como ser humano desde a escolha de meu curso de graduação em Filosofia. E, vejo que, apesar dos sofrimentos causados pelos preconceitos e consequente discriminação, sou uma pessoa com muita sorte, pois na minha militância e na pesquisa sobre os p.c., encontrei pouquíssimos indivíduos com esta deficiência que chegaram a concluir um curso Universitário com muito esforço, pois havia limitações nos próprios corpos e também as barreiras arquitetônicas e os preconceitos. Outros, não chegaram a finalizar sequer o primeiro grau, pois as barreiras atitudinais e físicas ainda são enormes.

Ainda, há os que simplesmente foram deixados de lado, ou escondidos, pelas condições não "normais" de seu físico. Chego a colocar, em minhas palestras, que eles são trancados no armário.

Para finalizar, quero lembrar que os p.c. são pessoas com necessidades diferenciadas, porque apresentam diferenças e graus de dificuldades físicas. Se estas necessidades forem atendidas, não haverá mais o desperdício de potencialidades como vem ocorrendo atualmente. E, assim como todos os incluídos pela exclusão social, somos seres humanos, não sendo super ou subumanos, assim como apregoam os preconceitos, que geram segregação, desamor, ódio, guerra, porque faz do outro uma coisa e não uma pessoa com diferenças, mas também igual em sua humanidade aos olhos do preconceituoso.

Precisamos nos rever constantemente para nos conhecermos melhor e assim, podermos ser mais e mais corajosos e justos e ver o outro sem rótulos ou hipocrisias inconscientes. Digo inconscientes, porque os preconceitos e consequências são repassadas de gerações a gerações através da educação familiar e social, vindo a ser escamoteada pelas atitudes politicamente corretas, o que nos leva a visão de que ter preconceitos é feio e assim, vamos escondendo que temos, até acreditarmos que não temos, mas eles estão latentes dentro de nós.

PS: não utilizei a denominação Pessoa com Deficiência, estabelecida pela Convenção da ONU, promulgada em 2006 e ratificada e anexada na Constituição brasileira em 2008, pois nós ainda não somos consideradas pessoas pela sociedade.

Autora: Suely Satow

|Webdesigner: Netty Macedo
Revisão: Anna Eliza Führich

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