ROMANCE

"PAIXÃO DE OUTONO"

Onivaldo Paiva

CAPÍTULO I - Rotinas

Todas as tardes, entre 17h40min e 17h50min, a dona Yolanda passava pela frente da padaria, quando ia à missa.

Todas as noites, às 19h30min, quando voltava da missa, a dona Yolanda entrava na padaria e comprava três pãezinhos e um litro de leite.

Ela sempre deixava bem claro que percebia e não aprovava as atitudes do padeiro Inácio, que tinha a mania de atender os clientes com um malcheiroso cigarro pendendo na boca e, às vezes, um copo de bebida mal oculto na parte debaixo do balcão. Porém, só nos finais de tarde, depois de pronta a última fornada, é que Inácio atendia os clientes no balcão; durante a maior parte do dia o atendimento era função de um rapazola, um sobrinho, filho bastardo de dona Zilda, a solteirona irmã do padeiro.

Às tardes, duas coisas eram infalíveis naquela rua: a cervejinha gelada do padeiro e a trajetória de dona Yolanda indo à missa, voltando e comprando seus três pães.

"Por que três pães?" - perguntava-se o padeiro. "Se ela mora sozinha!"

A amadurecida senhora criava um gato, preto dos pés aos bigodes, que nunca pulava os muros, vigiado que era pela boa mulher. Tinha também um papagaio, mas deste, quem dava notícias era o dono do botequim aonde ela buscava restos de verduras. Meio pão picado no pratinho de leite, toda noite, era o agrado do gato Mefistófeles. Dona Yolanda nem sabia quem era Mefistófeles, mas dera este nome ao gato porque seu finado marido vivia falando dum sujeito que era artinhoso como aquele gato. Dona Yolanda não se lembrava bem, pois prestava pouca atenção à prosa do marido, mas lhe dera este nome. Embora o chamasse apenas "Mefisto!" quando o gato subia na pia e ela ficava nervosa.

Meio pão picado no pratinho de leite, toda noite, era o agrado do gato Mefistófeles. Meio pão, embebido em mel, enquanto assistia à novela das oito, era o agradinho que dona Yolanda se presenteava. Outro pão, ela e o gato dividiriam, meio a meio, na manhã seguinte, com leite e mel. O terceiro toda noite ela deixava num tamborete, afastado dois palmos do portão, num canto, onde o moço lixeiro já se acostumara a pegar. Sempre recheado de sardinha ou uma salsicha, ou uma fatia de queijo. Ou recheado com um bom pedaço de carne de panela.

Na primeira sexta-feira daquele mês, Dia do Louvor a Nossa Senhora, dona Yolanda voltou bem mais tarde da igreja. Já era noite. Ao passar defronte à padaria, Inácio estava abaixando as portas do estabelecimento. Estava chorando.

Dona Yolanda parou ao lado do padeiro e quase passou a mão em seus cabelos, para confortá-lo. Os cabelos do padeiro, caindo de lado, rebeldes, lembraram à dona Yolanda o seu filho Milton, que morrera num acidente quando trabalhava como engenheiro hidráulico na construção duma hidrelétrica lá no Pará.

Do carro de Inácio, um Opala de cor branca amarelada, que deveria ter quase a metade da idade dela, ecoava música, não muito alta. Dona Yolanda reconheceu: era uma valsa! Tão antiga! Tão antiga! Não se lembrava bem do nome: "Branca"? Aquela que o Francisco Petrônio cantava nos bailes? Não! Como pudera se esquecer? Uma valsa tão linda! Saudades de Ouro Preto!

Porque ele chorava? Uma doença grave? Uma ofensa? Uma conta vencida? A solidão?

- Dona Yolanda!

- Seu Inácio!

Tão grande a surpresa dele quanto o embaraço dela. O padeiro tentou ocultar as lágrimas. Ela fez que não via. Ele desejou perguntar se ela queria pão, mas não o fez por medo de que sua voz se mostrasse soluçante. Ela queria oferecer um consolo, mas não soube como, balbuciou uma "Boa noite! Fique com Deus!" e se foi contristada.

No dia seguinte dona Yolanda comprou seus pães num armazém perto da igreja. E no segundo dia, um domingo (aos domingos ela ia à missa das dez da manhã), ao sair da missa, pensava em seu Inácio, mas, acanhada, dirigiu-se ao armazém aonde comprara os pães no dia anterior. Entrou, chegou-se ao balcão, titubeou e, em lugar de pedir pão, comprou açúcar! Depois mandou que lhe moessem duzentos e cinquenta gramas de café. Saiu da mercearia com o pacote cheiroso e andou pela rua zangando consigo mesma porque estava se comportando como uma tola: devia ter comprado aquelas coisas na padaria do seu Inácio! E se esquecera de comprar os pães!

Ao entrar na padaria de Inácio, este bebia. Ele embrulhou os três pães, sem que ela pedisse, mas cometeu um erro: antes de entregar os pães, bebeu um gole de cerveja. Dona Yolanda não percebeu que era por embaraço, então recitou um versículo que acabara de ouvir da boca do padre:

"Deus salva os arrependidos, mas não os relutantes".

Contudo, ela declarou isto sem soberba, o que impediu Inácio de se mostrar grosseiro. Ele sorriu zombeteiro, e elevou copo como em homenagem à cliente e bebeu duma vez todo o conteúdo, em seguida estendeu a mão para acolher as costumeiras moedas, sabendo que não haveria troco, pois dona Yolanda sempre aparecia com as moedinhas contadas. Porém, naquela manhã, para surpresa do padeiro, haveria troco, uma vez que ela desinteirara o dinheiro ao comprar açúcar e pó de café na mercearia. Um tanto desconcertado, ele abriu a gaveta do caixa, tateando em busca do troco.

Dona Yolanda, querendo mostrar-se desinteressada e paciente, olhou em volta, admitindo que começava a mudar seu conceito a respeito do padeiro: a padaria sempre limpa, nenhuma mosca pousando sobre as quitandas, e o cigarro até que não era tão fedido assim. Olhou-o com menor aversão, os cabelos desalinhados, que lembravam dolorosamente seu filho falecido, aquele jeito pausado de andar, mostrando autoconfiança, a maneira irônica, mas atenciosa, de falar. Até que não era um mau sujeito, admitiu.

Seu Inácio, meio de costas, selecionava moedas, para devolver-lhe o troco. Dona Yolanda sentiu uma caridosa ternura por aquele homem que, parecendo tão forte, parecia-lhe tão indefeso, e veio-lhe uma coragem nunca sentida, e soube que iria perguntar por que naquela noite ele chorava.

- Seu Inácio, naquela noite o senhor...

Ele se voltou tão rapidamente que a assustou. Ela sentiu as pernas trêmulas, o coração na boca, arrependeu-se e corou como uma adolescente pega em falta. Quase que lhe vieram lágrimas diante do olhar severo dele e, intimamente se justificava: somente por causa de seus sentimentos cristãos que queria saber por que naquela noite ele chorava.

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Capítulo II

Três pãezinhos, um litro de leite, meio quilo de açúcar e duzentos e cinquenta gramas de café. Depositou os pacotes sobre a mesa da cozinha, o gato Mefistófeles veio roçar suas pernas, desatenta retribuiu a carícia e chorou. O que Inácio iria pensar dela?

O persistente esfregar do gato a irritou. Aborrecida, deu uma chinelada em Mefistófeles, depois arrependida, acariciou-o tanto que o gato se agastou e fugiu pro quintal. Sentiu-se sozinha. Sentiu-se muito sozinha. Chorando ligou o rádio, FM, 103.5, só música boa: tocava "Fica comigo esta noite". Então seu choro transbordou. Sentia-se muito sozinha.

Havia um embaraço entre eles depois que dona Yolanda o pegara chorando. Havia muito mais curiosidade nela, agora, sobre aquele padeiro. Curiosidade e contrariedade, pois a irritava vê-lo beber durante o serviço. A irritaria quem quer que fosse que bebesse a qualquer hora. Os bebedores a irritavam.

Seu falecido marido bebia. Hoje admitia que até que não era tanto: uma cachacinha antes do almoço de domingo, umas cervejas nas sextas-feiras com uns amigos aposentados como ele, ex-bancários que ainda poderiam trabalhar, arrumar serviço, ter utilidade, pois haviam se aposentado com pouco mais de cinquenta anos. Mas não, preferiam ficar à toa, aborrecendo a gente dentro de casa o dia inteiro!

"Vai morrer de cirrose se não parar com este vício!", dizia ela ao marido. Ainda bem que ele não fumava! E ele não morreu de cirrose: aos cinquenta e oito anos sofreu um infarto agudo, nem deu tempo de levar pro hospital. Deixou-a viúva, com cinquenta e um anos, uma aposentadoria razoável, casa própria, os três filhos casados, e graças a Deus o falecido pudera assistir aos casamentos e formaturas dos três. E também, graças a Deus, o finado não passara pelo desgosto de ter que enterrar o filho, engenheiro recém formado, que tivera o corpo moído por uma escavadeira lá nos confins do Pará.

Havia no jeito do padeiro um jeito do seu filho Milton. Ou seria do falecido? Cabelos caindo na testa, o olhar sardônico, os modos desleixados...

Dona Yolanda deu de olhar no guarda-roupa os vestidos esquecidos, gavetas que quase não abria desde o falecimento do marido. Recuperou um sapato perdido, de salto, modelo que fizera furor na época em que a vaidade era ainda sua companheira constante. Ajeitou um vestido antigo, recosturou, alargando um pouco mais nas ancas, e naquela hora percebeu que seu corpo conservava o mesmo peso dos trinta anos, embora as rugas, ah, as rugas! Essas não havia como esconder!

Examinando-se, de salto e com aquele vestido, não se dava nem quarenta e cinco anos. Quase cinquenta talvez. Depois, olhando-se mais atentamente, penalizada, concluía que aparentava ter mais de sessenta. "Ridículo! Ridículo!" - gritava para ela mesma. - "Uma sessentona querer usar um vestido assim que nem cobre os joelhos! E de batom ainda por cima!".

Tirou tudo e pôs as roupas costumeiras. E ficou assim, com cara de sessentona e corpo de quarentona, mas sabendo que tinha apenas 57 anos. Foi à missa, passou pela padaria, foi atendida por Zilda, a irmã do padeiro e, com ar enfezado, comprou os três pães de sempre. Irritada, perguntou-se por que o padeiro não aparecera. E decretou: certamente ficara em casa, bêbado.

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Paixão de Outono - Capítulo III - Amores Tardios

Nem se lembraria do sonho se não houvesse acordado. Era numa planície, uma vara de porcos descia em carreira desabalada, ela teve medo de ser atropelada. Veio Milton, o filho, e a salvou. Ou era o padeiro? Que sonho confuso! Lembrava-se dos porcos ameaçadores, do filho aparecendo e a tirando de lá, mas quem a deixara a salvo, no alto, numa praia com coqueiros, que ao mesmo tempo era seu quarto, era o seu Inácio, o dono da padaria! E o pior era que, no sonho, estava somente de calcinha.

Passou diante da padaria com passos firmes. De salto alto e com aquele vestido. Treinara bastante. Houvera hora em que se sentira ridícula, muitas vezes tirara os sapatos, jogara-os longe, mas os calçara outra vez. Tirara e pusera o vestido mil vezes, até que se sentira bem.

Vestida assim fora à igreja. Mas não entrara, não assistira à missa, com vergonha de ser vista por suas amigas.

Havia muitos anos que não faltava à missa. Havia muitos anos que não sentia aquilo que sentia. O que sentia? Não sabia. Subiu num ônibus, parou no shopping, viu vitrines, entrou em lojas. Havia quanto tempo não fazia isto! Comprou roupas e sapatos.

No outro dia se recriminou por estar gastando em futilidades. E o que fez? Gastou o dia inteiro procurando um técnico que lhe consertasse o velho toca-discos. Tarefa difícil, quase ninguém mais sabia mexer com essas antiguidades. Ela desejava ouvir antigos discos, long-plays riscados, vozes antigas, ritmos antigos, tudo para relembrar seus tempos de moça.

Tempos de moça! Ah, como fora bonita!

Tempos de moça! Daquelas gavetas há tanto tempo fechadas, foram saindo fotos antigas, foram saindo recordações, canções, bailes, os tempos de estudantes, os namoricos...

Tempos de moça! Ah, como fora bonita! Agora, olhando-se no espelho, custava encontrar um ângulo que a agradasse. Deixou o espelho, cruel, e foi procurar o cartão do técnico que prometera vir consertar seu velho toca-discos. Porém, mais que se ocupar com a recuperação de velhos aparelhos, o que mais ocupava seus pensamentos era Inácio, o padeiro. Até aonde iria sua compaixão por tê-lo visto chorando?

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Capítulo IV

Haveria festa na igreja. Festa beneficente para arrecadar fundos para terminar a construção da Capela de São José Operário, no bairro das Laranjeiras, lugar aonde ela fora duas vezes, como voluntária, e não gostaria de voltar lá, um lugar de gente encardida, barulhenta e de olhar entre irônico e pedinte, que a incomodava. Gente perigosa!

A festa da igreja matriz: barraquinhas, quentão, bingo, leilões, tiro ao alvo. Yolanda sempre ia, mais para ajudar do que para se divertir. Ajudava no quiosque dos pastéis ou na casinha do coelho.

Ainda bem que não lhe sobrara fritar pastéis, coubera-lhe servir e o fazia com dedicação, apesar das dores nas pernas. Mas se distraia ouvindo as músicas que vinham da gigantesca barraca aonde casais dançavam. E se distraia não pensando há quanto tempo vivia sozinha, não pensando no cansaço, não pensando em nada a não ser o quanto era bom estar ali tendo gente por companhia e convicta de que servia a Deus. Mas estava cansada, muito cansada. Cansada das amigas, muitas de mais idade que ela, que trabalhavam sorridentes e tagarelas. Olhava-as como estranhas: como poderiam parecer, ou fingir ser, tão felizes? Quase todas viúvas ou sozinhas! Foi arrancada deste devaneio por uma voz irônica que pedia:

"Dois pastel e uma cerveja!"

Voltou-se, já ruborizada. Era Inácio. Mas como? Nunca o vira em festas da igreja. Tentando sorrir, serviu os pastéis, a cerveja, e ao entregar-lhe o pratinho, com mãos trêmulas, deixou um pastel cair. Ele riu bonachão, bebeu da cerveja, nem tocou nos pastéis, e ela ali, plantada, as pernas tremendo, surda aos pedidos de uma menina que sacudia as fichas e pedia algo que dona Yolanda nem sabia o que era. Outra mulher atendeu a menina. Mesmo atordoada, Yolanda notou no olhar da outra um quê de maldosa curiosidade. Um menino mirradinho e escurinho puxou a camisa de Inácio e pediu: "doutor me dá..." Ele entregou os pastéis pro menino, sem deixar de olhá-la, sorrindo sempre. E ele, de imprevisto, a chamou para dançar, como se isto fosse a coisa mais natural do mundo.

"Há quanto tempo não danço!" - confessou Yolanda, as pernas geleia pura.

"Vem!" - incentivou ele, estendendo-lhe a mão, com aquele sorriso que transformava gelo em brasa.

"Mas como? Não estou arrumada!", ela respondeu, sem pensar, mas sabendo que iria dançar com ele. Nem o calor do tacho de fritar pastéis a deixaria assim tão acalorada. "Nem os fogos do Inferno!", poderia ter pensado se é que conseguia pensar. Tentou uma desculpa:

"Estou de avental e..."

"Tira o avental e vem dançar".

Da barraquinha de pastéis até o salão de danças foi menos que um pulo. Nem viu e já estava dançando com ele. Boba, não sabia o que falar. Inácio, jeitoso, ia e vinha, levando-a. Dançava e a fazia dançar. E ela ia pensando: "Ele é mais novo que eu, e é claro, deve ser casado e está aqui traindo a mulher!" Sabia tão pouco a respeito dele, a idade, qual religião, se era mesmo casado, se tinha filhos. Abobalhada e nervosa acabou sendo muito indiscreta, perguntando demais e ouvindo de menos.

De tudo que ele lhe respondia guardou muito pouco, só guardou uma resposta que lhe doeu: Ele tinha cinquenta anos. "Apenas cinquenta anos! Ele é mais novo que eu!", constatou, pesarosa. Entretanto, mais fortes que seus pensamentos eram os requebros que ele a obrigava a fazer, aos quais ela se submetia em harmoniosa entrega. Pouco a pouco, sem se dar conta, mas envolvida, ela se transformava e, animada e sorridente, comandada por ele, não fizera feio mesmo nos ritmos modernos: até outros casais paravam de dançar para apreciá-los. As amigas não sabiam que ela dançava tão bem! Nem ela! Certo que, entre suas conhecidas ouve quem comentasse, escandalizada, que Yolanda estava exagerando.

E quando vieram os boleros! Yolanda nem se reconhecia, ou sim, se reconhecia: era a Yolanda dos vinte anos! Sentir outra vez o corpo de um homem colado ao dela a perturbou, mas não se esquivou. E dançaram, colados, calados, apenas olhos nos olhos. E que linguagem melhor do que esta? Teve medo de que seus olhos confessassem tudo que ia sentindo. Mas, o que ia sentindo? Não sabia.

Meio tonta, quase ficou enlouquecida quando tocaram um tango! Tonta até que estava mesmo: bebera meio copo de quentão e provara um tiquinho de uma batida de pêssego que uma ex-aluna lhe trouxera. E quando desencavaram "Estúpido Cupido" rodopiaram com Cely Campello com o ânimo de adolescentes! E depois, quando tocaram "La Paloma" e "Jura-me", deitou o rosto no ombro dele. Nem se reconhecia. Nem pensava nisto: tinha vinte anos!

Sempre chega a hora de recolher: recolher as mesas, recolher as cadeiras, recolher os sonhos e limpar a sujeira, e a orquestra vai embora. Há a hora da chegada, há o instante da partida. Se se dança, à meia-luz, momento em que tudo é possível, revive-se os sonhos que andavam enterrados, quando se acendem todas as luzes e as rugas e tristezas ressurgem o sonho acaba. Hora de ir embora, ir com as velhas amigas. Desacompanhadas. Só os velhos anjos as velavam.

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Paixão de Outono - Capítulo V - O culpado era o padeiro

Nos dois dias seguintes Yolanda não podia admitia sentir o que estava sentindo. O gato Mefistófeles penou, e penaram também o velho papagaio e o lixeiro: ficaram dois dias sem pão. O culpado era o padeiro. Yolanda sentia vergonha por ter parecido uma mulher leviana durante as danças lá na quermesse, dançando daquele jeito, rebolando como se fosse uma mocinha apaixonada. E evitava passar diante da padaria, mudando o percurso para ir à missa.

O culpado era o padeiro. Certamente Inácio levava a sua vidinha de sempre: vendendo pão e bebendo cerveja. E ouvindo música brega e chorando. Isto que Yolanda pensava, e rezava por ele, o pecador.  Mas, a contragosto, se colocava nesta lista de pecadores.

Dois dias sem comprar pão, dois dias sem ir à missa, dois dias sem passar à frente da padaria. Naquela rua a rotina fora rompida: Já dona Yolanda não passava todas as tardes, pela frente da padaria, nem ia à missa. O culpado era o padeiro.

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Paixão de Outono - Capítulo VI - Orações e Jejuns

Não, Yolanda não fora visitar a filha que morava em São Paulo, nem fora prantear o filho Milton em seu túmulo nas serras paraenses. Ela pensava. Ela se trancara em casa, para alegria e aborrecimento do gato Mefistófeles que ora era acariciado, ora estapeado e expulso do colo choroso.

Ela não sabia que estava amando. Ou sabia? Sim, sabia, mas não admitia. Suas companheiras de missa, muitas viúvas, santas e convictas, viviam virtuosamente sozinhas. Por que ela não poderia viver assim, dedicada aos serviços do Senhor, se perguntava. E lembrou-se que, de todas, apenas dona Maria, 78 anos, se juntara com outro viúvo, dez anos mais velho que ela. Viveram juntos, e bem, quatro anos até que ele morreu aos 92, deixando-a viúva pela segunda vez. E dona Yolanda garrava a rezar, apegava-se às suas novenas, ao terço, às medalhinhas, implorando que afastassem dela aquele cálice amargo-doce.

Aí Yolanda se lembrava, pela enésima vez, que suas amigas, viúvas ou divorciadas, estavam quase todas acima dos 60, muitas beirando os 70 e já não pensavam em amor, em paixões, iam se ressecando. Talvez alguma desejasse um companheiro, mas para quê? Ora, comparada com muitas delas, sentia-se jovem, sentia que seu coração enfeitava-se com aquele sentimento. Mas não adiantava, não tinha mais coragem de sair de casa. Então um pensamento veio, num repente, e se perguntou: E se algumas de suas amigas, aquelas com mais de 70 anos, sentissem também desejos? Não o de ter saúde melhor, de ser amparada ou visitada por filhos, mas o desejo de ter um homem que a cobiçasse como mulher, como fêmea! Um homem que a fizesse se sentir A Mulher! A Desejada! Oh, bem provável que sentissem!
           
Cinco dias a pão e água só santo que aguenta. Até um gato preto, que é um bicho excomungado, e um papagaio, que é um bicho muito alcoviteiro quando aprende a falar, sentem fome, pois, embora tenham partes com o capeta, também são filhos de Deus. E, do mesmo modo, a mulher mais santa, e imbuída de boa vontade e de muita fé, também sofre fome, alem de sofrer, algumas dessas santas, muita fome de amor. E era desta fome que dona Yolanda sofria. Abriu as janelas e entrou o sol, e luz, e calor. E, por mais que ela não quisesse, nas preces dela, entrou robustecido o desejo que tentara em vão sufocar. Janelas abertas entrara calor demais, sentiu-se abafada, sentiu que Inácio entrara também e a abraçara forte, como na noite do baile. Então, cheia de coragem, vestiu uma roupa simples e foi comprar três pães.

Alegraram-se o gato e o papagaio e alegrou-se Inácio quando a viu entrar na padaria. Mas Inácio tinha seus altos e baixos, se, noites antes, na barraquinha, fora tão cativante, mesmo ao beber cerveja, agora, quando Yolanda entrava, corajosa, ao saudá-la, com um cumprimento, ele ergueu uma latinha de cerveja, feliz por vê-la, e ela o odiou! Aquele beberrão não tinha conserto.
           
Novas horas de reclusão, mais horas de orações e jejuns. Depois promessas de ir às missas, envolver-se com as amigas e de quantas iniciativas beneméritas elas a fizessem participar. Mas vinham as lágrimas nos momentos mais despropositados. As colegas de igreja não entendiam por que Yolanda chorava. Ah, algumas desconfiavam, sim!

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Paixão de Outono - Capítulo VII - Qual hora é hora certa para amar?

Oito e meia da manhã não é hora de amar. É hora de trabalhar, de cumprir compromissos, de estudar, de regar plantas. E é hora em que os preguiçosos, ou os amantes que amaram demais a noite toda, ainda não se levantaram.

Qual hora é hora certa para amar?

A campainha tocou um pouco antes das oito e meia.  Dona Yolanda foi atender, ai, devia ser a dona Amélia, com seus tricôs, sempre vinha pedir opinião. Yolanda opinava, dona Amélia contradizia. Yolanda se prometia não mais dar seu parecer, mas sucumbia. Ficava com raiva, mas gostava da velhinha.

Não era nada sobre bordados: era Inácio. Yolanda tremeu. Muda. Um minuto de silêncio. A voz dele reapareceu pelo interfone:

“Yolanda, eu vim trazer uns....”

Tudo que ele disse entrou por um ouvido e saiu pelo outro. Não poderia abrir o portão daquele jeito: desarrumada, de camisola ainda, os cabelos desalinhados, e estava de óculos, pois lia um livro religioso. Foi formal:

“Seu Inácio, agora não posso atendê-lo...”

E não entendeu nada do que ele disse. Percebeu que ele se fora. Meia hora depois, quando as pernas pararam de tremer, foi lá fora: sobre o tamborete, que ficava ao lado do portão, havia um saquinho de papel com pães de queijo ainda quentes.

Chorou. Chorou comendo pães de queijo. Por que não o atendera? Por que não estava arrumada e linda às oito e meia da manhã? Bruxa! Isto que ela era! Acabaram os pães de queijo, que comera compulsivamente. As lágrimas não acabaram. Por que era tão paradona, se perguntava. Desse um jeito no cabelo, tirasse os óculos, e abrisse o portão!

Não, não era paradona, era mulher decidida, decidiu um dia depois. E nem tudo era um desastre: havia uma justificativa para voltar a encontrar Inácio: pedir desculpa por não tê-lo recebido, e com isto superaria a vergonha por ter sido tão leviana durante as danças lá na quermesse. Desculpar-se era a chance de reencontrar Inácio.

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Paixão de Outono – Capítulo VIII – A serenata.

Não necessitou pedir desculpa. Naquela noite ganhou uma serenata! Acordou ao som dum violão, alguém cantava:

“Assim se passaram dez anos, / sem eu ver seu rosto, / sem olhar teus olhos, / sem beijar teus lábios, assim... / Foi tão grande a pena / que sentiu minha alma, / ao recordar que tu / fostes meu primeiro amor... Recordo que junto a uma fonte / nos encontramos / e alegre foi aquela tarde para nós dois”.

Quase chorou ao ouvir e relembrar... E logo, ao acreditar que tocavam para ela, temeu que os vizinhos se incomodassem. Mas a voz era tão bonita! Então, em surdina, mandou os vizinhos à merda, se eles por acaso se aborrecessem. E ouviu boleros, tangos e valsas. Músicas do “seu tempo”.

A voz dele era tão bonita! Inácio cantava “Patrícia”. Não era bem a música que a arrebatava, mas qualquer uma, na voz dele a seduziria.
Envaideceu-se pensando que suas amigas rezadeiras não ganhavam serenata. Verdade que não pensou assim, “rezadeiras”, mas pensou parecido.

No tempo dela, quando era moça, era costume abrir a janela, dando sinal ao seresteiro de que era bem vindo. Levantou-se, penteou-se, colocou um peignoir sobre a camisola, mas pensou que não era adequado abrir a janela nem acender a luz. Madrugada, uma senhora de respeito, o que os outros iriam pensar?

A voz bonita cantou “Dio come ti amo” e depois “Al di lá”. Janela fechada, luz apagada. Então houve um burburinho, curiosa entreabriu a janela. Os seresteiros punham os instrumentos de lado e Inácio abria a porta do Opala, inclinava-se sobre o banco e mexia no toca-fitas. Yolanda percebeu que ele fazia uns gestos nervosos com a mão, como a ordenar aos amigos “Calem-se!” e logo ele encontrou o que parecia procurar e saiu do carro, pegando uma latinha de cerveja que estava sobre o teto do Opala; em seguida acendeu um cigarro, coisa que Yolanda odiou, mas perdoou depressa, quando, um tanto alto demais, o Opalão amarelado irradiou, na voz de Pablo Milanés:

 “Esto no puede ser no mas que una cancion
Quisiera fuera una declaracion de amor
Cuando te vi sabia que era cierto
Este temor de hallarme descubierto

Oh! Ela reconheceu, emocionada, a música que levava o seu nome, Yolanda, e a delicadeza da homenagem que o padeiro lhe prestava. E acendeu a luz. E ia abrir a janela. Então pensou (Oh, vaidade!) que não estava bem arrumada. Correu ao banheiro, se penteou de novo, passou batom e ruge, e até se perfumou! E voltou à janela entrefechada. Perdera trechos da canção:
Tu me desnudas con siete razones
Me abres el pecho siempre que me colmas
De amores
De amores
Eternamente de amores

Enfim abriu a janela e se mostrou. Não importava que vizinhos a vissem, que o padeiro estivesse bebendo, nem que soltasse baforadas daquele cigarro com certeza fedido. A canção ia ao final:

Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda
Yolanda
Eternamente Yolanda

Os seresteiros tocaram mais duas músicas e se foram.

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Paixão de Outono – Capítulo IX –É bom se apaixonar.

Não há medidor de felicidade; houvesse, naquele dia, Yolanda o estouraria. Yolanda cantarolou o dia inteiro. Abriu todas as janelas e portas da casa. Entraram luz e vida, companheiras de sua nova alegria. Cantarolava:
“Se acaso me quiseres / Sou dessas mulheres que só dizem sim...”

Lavou roupas, passou roupas, limpou a casa. Cantarolando... O dia inteiro foi assim. Até o papagaio falou! E Mefisto parecia um bufão, de alegre que estava: pulava diante dela, a cauda ondulando. Houve interrupções: um pedidor de esmola. Foi generosa, deu-lhe comida e dinheiro. Um vendedor de vassouras: comprou duas, estava precisando. Mas não saiu de casa, sua rotina estava mudada: não foi à missa. À noite, não assistiu televisão, nem novela, nem aos noticiários: ouviu os antigos LPs, os seus preferidos, no velho toca discos que mandara consertar.

Até se deu ao luxo de preparar um “Cuba Libre”. Como não tinha rum em casa deu-se a outro luxo: solicitou que um moto-táxi trouxesse um “Carta D’Ouro”. Oh, havia tanto tempo não se dava luxos. Nem quando casada! Ah, - pensou - quando casada, era mesmo que não se dava luxos!

Selecionou um limão. Buscou na cristaleira um copo de cristal, sentou-se, ouvindo seus discos, e esperou. Chegou o moto-boy trazendo o rum. Deu-lhe generosa gorjeta. Despejou uma dose de rum no copo, e seis gotas de limão, completou com a coca gelada e uma fatia de limão na beirada do copo. Ah, estava feliz.

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Capítulo X – “Você não é dessas velhas assanhadas. Vive sua vida quietinha”

Ouvia Perez Prado quando o telefone tocou. Seria ele? Oh, loucura, Inácio nem sabia seu número de telefone. Mesmo assim atendeu ansiosa. Era a filha; conversaram, Yolanda mais querendo desligar que prolongar a conversa quando a filha perguntou se ela vira no noticiário da tevê o caso duma mulher que arrumara um amante com a metade da idade dela e que este, o namorado, com artimanhas, se apropriara de toda sua poupança. E a filha finalizara:

“Ainda bem, mamãe, que você não é dessas... Não é dessas velhas assanhadas. Vive sua vida quietinha, minha santa”.

Yolanda desligou o telefone, desligou seu contentamento, desligou o toca-discos, jogou fora o resto do Cuba-Libre. Desligou as luzes da casa e se preparou para dormir. Mas não foi para cama. Foi para o quintal, lamentar-se com o papagaio e o gato Mefistófeles.

“Droga! Droga!” A filha estava no segundo casamento, poderia culpá-la?

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Capítulo XI – Por que fui me apaixonar?

“Porque fui me apaixonar nesta idade?”, perguntava-se a lastimosa viúva. E se dizia: “Eu vivia tão bem, vivendo minha rotina, controlando esta coisa complicada que é a vida, sempre dando um jeito de não sofrer demais, e agora, fora do tempo, perco o juízo?”
            E se dizia: “Sou velha demais pra ele!”
            E se dizia: “Ele é mais novo que eu!”.
            E se dizia: “Ele quer é se aproveitar de mim!”
            E se dizia: “Fica quieta no seu canto, velha!”
Então jurou esquecer o padeiro.

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Capítulo XII – Deus não permite

Antes não era feliz, mas não sofria como agora. Antes tinha mais certezas do que dúvidas. Agora não sabia mais nada! E garrou a rezar. Deus lhe mostraria o caminho. E orava. Rezava, rezava, rezava pra todos os santos, mas todos os santos tinham a cara do Inácio!

Vinham raios de esperança: que mal havia em namorar? Afinal era viúva. Mas Inácio era casado! Ou era separado da mulher? Não tinha certeza. Lá no fundo ela já adivinhava, só podia ser casado. Mas fazia questão de ignorar. Agoniava-se, Deus não permite!
Deus não permite o quê?

Deus não permite o quê? Ela nunca ousaria se perguntar e quantas vezes se perguntou! Deus não permite o quê? Ser feliz? Não posso ser feliz? Gritava seu coração para a boca silenciosa. Porém Yolanda pressentia que a questão não era esta, não era com Deus a questão: e sim que era uma velha e gorda! E pior: “Ele é mais novo que eu!” E casado ainda por cima.

Começou a novena de Santa Efigênia, que devia ser feita ajoelhada sobre grãos de milho, ou cascalho, para vencer as tentações. No terceiro dia, por mais que debulhasse o terço, cochilando, via-se ajoelhada sobre o másculo peito do padeiro. E pior: só de calcinha!

E rezava, e rezava pra que Santa Efigênia expulsasse seus demônios.

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Paixão de Outono – Capítulo XIII – Esperança e Dúvida.

O quê será que Inácio pensava? O quê será que Inácio sentia? Apenas simpatia por uma cliente educada, distinta, constante e quiçá charmosa? Ou era um sedutor que não perdia oportunidade de cantar suas clientes? Nada no comportamento dele mostrava isto, era atencioso e nunca o vira faltando ao respeito com as demais freguesas. Oh, mas chegar ao extremo de imaginar que era amada por ele? Não, oh, que tola!

Mas ganhara uma serenata! Então duvidou de novo, a serenata não era para ela, e não era Inácio quem cantara “Dio come ti amo” daquele jeito tão... tão estraçalhador!

Era! Era Inácio que fizera a serenata e cantara para ela! – disse-lhe seu coração, com toda força. E este mesmo coração a confortava: “Ele é sincero!” Então Yolanda decidiu: ia namorar. A novena de Santa Efigênia fizera o milagre.

Há decisões que são repentinas. Há decisões que são por etapas. E há, na maior parte das vezes, decisões que nos fazem balançar entre o sim e o não: é quando ficamos com o “Mas...”, ou com o “E se...”

Porém, no mais das vezes, as coisas andam sem depender de nossa vontade, de nossas ações, de nossos planos. As coisas andam; as boas, as más, as coisas acontecem.

Numa tarde, Inácio ficou horas conversando com ela graças ao gato Mefistófeles. O gato escapara pra rua, um carro passava e atropelara o gato. Quem o socorreu foi o padeiro. Quem o levou pra casa de Yolanda foi o padeiro. Mefistófeles estava mal, Yolanda chorou, foi consolada. Agradecida, abraçou o consolador, era Inácio. E ficaram horas e horas conversando.

Só que as “horas e horas conversando” se medidas no relógio não foram mais que uns magros vinte minutos. Porém, tempo suficiente pra que Yolanda chorasse, entre a languidez e o desespero, e fosse bem abraçada. E marcaram um encontro.

E o gato?

O gato sobreviveu. E depois daquele dia bastava ver Inácio para ir, todo amistoso, se esfregar nas pernas do padeiro.
Esfregar-se no padeiro era bem o que ela queria.

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Paixão de Outono – Capítulo XIV – Devo ou não devo? Posso ou não posso?

Devo ou não devo? Posso ou não posso? Qual manda mais? A falta de coragem de se lançar no abismo, obedecendo aos sentimentos e não à razão ou acatar a voz do desejo, entregando-se à voragem da paixão?

E o medo de que a paixão de Inácio não se sustentasse, fosse passageira, e depois ele notasse que não era “gostosa”, apenas andava bem arrumadinha?
Mas, e se desse certo? “Ah, eu vou encontrá-lo!”, decidiu e marcou horário no salão de beleza.

Ai, que tolice! Na cabeça de Yolanda, onde a cabeleireira chique fizera um penteado esquisito, mas a cabeleireira afirmara, e umas clientes confirmaram, “Ficou bem demais em você!”, tumultuavam todas as dúvidas e todas as esperanças!
Contudo, havia que enfrentar o destino. E foi ao encontro dele. Ou melhor, aceitou sair com ele. Foram a uma churrascaria. Não era o ambiente apropriado para começar um romance, mas dois “Cuba-libre” tornaram tudo muito encantador e as luzes se fizeram penumbra, e as mãos dos dois se encontraram.
Mas não foram apenas as mãos dos dois que se encontraram: os olhos também. E Yolanda caiu, enfeitiçada. E Inácio? Inácio teria caído?

Se ela tivesse feito esta pergunta ao garçom teria recebido como resposta, “Sim, aquele homem estava caído de amores pela bela e distinta senhora”.

Olhos nos olhos. Tão doces e risonhos os dele. Como? Como podia ser uns olhos como os dele, tão doces, tão doces, ser de um padeiro de mãos grossas? Yolanda queria resistir e queria se entregar. Aquele homem encantador era tudo que pedia aos céus. Mas... Num canto qualquer daquilo que ela julgava como um homem deveria ser aparecia a figura dum padeiro beberrão, dono dum carro velho, talvez casado, e... E o que pensariam os outros?

O que pensariam os outros?

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Paixão de Outono – Capítulo XIV - O que pensariam os outros?

O que pensariam os outros?

Não. Não era isto que a impedia de aceitar a corte do padeiro. Não era o preconceito, era o medo: Inácio a amaria? Ele era mais novo que ela e...

Inácio a amaria?

Yolanda se perguntava e se respondia que não. Cheia de dúvidas jurou não encontrá-lo mais.

E cumpriu a promessa, até que, um dia depois, ele a procurou. E combinaram outro encontro.

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Paixão de Outono – Capítulo XV - Nem mulher fácil nem mulher difícil

Encontro às três da tarde. Ás três da tarde aonde iriam? Não a uma igreja, não a um restaurante. Entrou trêmula e temerosa no Opala de cor branca amarelada. Inácio colocou música, não eram aquelas sertanejas bregas, eram orquestradas. Yolanda nada comentou, mas ficou grata por ele ter se dado ao cuidado de selecionar musicas que a agradavam.
O Opala era macio, a conversa dele também, quando viu estavam na rodovia, no roteiro dos motéis.

Inácio manobrou o carro entrando numa alameda cercada de jardins e flores. Confiante ele ia entrando. Envergonhada e sentindo-se culpada ela disse não: era do tempo em que havia longos namoros, não rápidas transas.
...
Inácio, paciente, levou-a de volta para casa. Ao retornarem Yolanda não sabia se estava mais aborrecida pelo atrevimento dele, por tê-la levado a tal lugar, ou por não ter tido coragem de entrar no motel. Ela se dizia: “Nunca mais quero vê-lo! E quando chegar em casa vou falar pra ele nunca mais me procurar!”

Ao descer do Opala, Yolanda nem viu quando lhe deu um agradecido beijo de despedida, pois Inácio não demonstrara nenhuma zanga com sua recusa.
E combinaram um encontro pra amanhã às tantas horas.

Amanhã veio. Ela não foi. Então ele apareceu com a desculpa de perguntar se o gato estava bem. E foi Mefistófeles que os colocou no bom caminho. O gato convalescente, de perna engessada foi, sem o saber, o intermediário e a ponte por onde passaram as culpas e desejos dela. Inácio não reclamou. Somente, no meio da conversa, a respeito da situação de Mefistófeles, afirmou que entendia os medos de Yolanda.
Amanhã irei, prometeu ela.

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Paixão de Outono – Capítulo XVI - Preparando-se para o encontro.

Debaixo do chuveiro, fã que era de Chico e Gal, ensaboava-se, cantarolando Folhetim:

“... sou dessas mulheres que só dizem sim
por uma coisa à toa, uma noitada boa
um cinema, um botequim...

E cantando ia-se vendo com Inácio, dançando, sedutora:
“... e eu te farei as vontades
direi meias-verdades
sempre à meia-luz...”

Ensaboava os seios, vaidosa por vê-los erguidos e firmes como aos vinte anos, e contente rebolava debaixo do chuveiro, quando ao ensaboar o ventre e as coxas errou o verso e cantou: “não sou dessas mulheres que só dizem sim” Toda a alegria se foi pelo ralo, se sentiu uma despudorada, já não se viu tão bonita e se perguntou:

“Será que estou barriguda?”

Examinou-se, avaliou-se. Gostou, não gostou. “O que ele vai achar? Será que ele vai gostar?” E ficou debaixo do chuveiro naquele ping-pong: “estou feia, estou bonita... estou feia, estou bonita...”.

Enfim, decidiu: Estou bonita. E depois só gastou mais meia hora pra escolher a roupa. E os pensamentos que pensava, enquanto se vestia, nem pra ela mesma se contava. Quarenta minutos depois, vestida, olhando-se ao espelho, dando-se um sorriso cúmplice, confiante se prometeu:

“Vou enlouquecer o padeiro!”

E aprontada, aguardou, sentindo-se venturosa por, enfim, haver encontrado um homem que merecia ser amado. E sentia-se como se tivesse trinta anos! De repente, veio-lhe um receio:

“E se eu estiver "seca"?”

Ouvira que a mulher - após a menopausa - ia ficando com a vagina mais seca e menos lubrificada. Ela pensou: "Talvez eu devesse..."

Mas não, não, que tolice! Não iria transar com ele. Ela não era uma mulher fácil como essas que andam por aí... E foi ao encontro dele cantarolando: “... sou dessas mulheres que só dizem sim”

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Paixão de Outono – Capítulo XVII: O encontro - Dio come ti amo!

“Assim se passaram dez anos / sem eu ver teu rosto / sem olhar teus olhos assim / foi tão grande a pena / que eu senti em minha alma / ao recordar que tu foste / meu primeiro amor...”

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Paixão de Outono – Capítulo XVIII: A Entrega

Ele não sugeriu nem disse que fossem para um motel, e se o fizesse, ela já tinha a resposta pronta: “Motel? Jamais!”.

Foram para um motel.

Expectativa! Esperançosa em não decepcionar, mas Inácio é gentil, um virtuose. E bimbalham os sinos. Com aquele homem aprendeu que não seria preciso lubrificante, nem acessórios, nem treinos. Quando viu (no que lhe pareceu até demorado) ele estava dentro dela. Quando viu (no que até lhe pareceu acelerado) ela estertorava em gozos. Quando viu (no que até lhe pareceu natural) ela o chamava: “Meu amor!”

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Paixão de Outono – Capítulo XIX - Encontros Furtivos

Foram semanas e semanas assim, vivendo no céu e nas camas dos motéis. E depois em sua cama, às vistas cúmplices de Mefisto. De repente o papagaio deu de imitar os gritos dela:

Ai, meu amor, está me matando! Ai, meu bem, Ai, meu bem, que bom!”

Não mais missas, não mais amigas, só cama, só cama, só Inácio a saciava.

Sim, ele era casado. “A mulher isto, a mulher aquilo...”
E Yolanda entendia, aceitava. Inácio sofria, ela o entendia. Sim, sim, ela acreditava, ele ia se separar, só não o fizera por causa dos filhos, mas agora que a conhecera ia se separar.

Segundo ato – A virada La vida es lo que es”.

Os inesperados da vida. Os inesperados da vida são muitas vezes previsíveis. A filha, em férias, veio passar uns dias com Yolanda. E nunca aqueles dias demoraram tanto a passar, ao contrário de antes, quando sempre reclamava que a filha ficava pouco com ela. E como a filha não ia embora, ela e Inácio voltaram a se encontrar nos motéis.
            Naquela tarde, no motel, Inácio sofreu um enfarto fulminante.
            (E sobraram o gato Mefisto, o papagaio, e lembranças que saboreava com dolorido orgulho.)

Autor: Onivaldo Paiva

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