CRÔNICAS

ENVELHEÇO PARA A VIDA. PARA A ALMA, JAMAIS!
Fonte: http://www.revistabula.com/6542-envelheco-para-a-vida-para-a-alma-jamais/
Enviado por: Valdir Quirino

AS MENINAS DA FERREIRA VIANA
Autor: Milton Britto

MULHER - UM EXEMPLO A SER SEGUIDO
Autor: José Amâncio Neto

EU SOU ASSIM
Fonte: http://carpinejar.blogspot.com.br/
Autor: Fabrício Carpinejar

MAÇANETAS E DOBRADIÇAS, PORTAIS E CAMINHOS
Autora: Jennifer Hoffman
Enviado por: Cristina Tibau

DA LIBERDADE SEM MEDO À LIBERDADE SEM EXCESSO
Autor: Milton Britto

TREINAR COM OS AMIGOS É BOM DEMAIS!
Autor: Amâncio Neto

PRAZERES DA "MELHOR IDADE"
Autor: Ruy Castro
Enviado por: Zeca Micaldas e Jussara Nolasco


CARÍSSIMOS E CARÍSSIMAS

Autor: Rui Guilherme V. Souza Filho

A FÓRMULA DO AMOR
Autor: Leo Jaime

A IMPORTÂNCIA DE UM ABRAÇO
Autor: Ary Franco
Enviado por: Yna Beta

PANELAS BRILHANDO
Autora: Marisa Bueloni
Enviado por: Dalva Pinto

PERDEU, “PLAYBOY”
Autor : Lika Dutra

O PT RESSUSCITOU A DIREITA NO BRASIL
Autor: Altamir Tojal

DALRI
Autor: Milton Britto

O QUASE
Autora: Cris Guerra
Enviado por: Maura Jacques

ARIANO, ILUMINANDO AS ESTRELAS!
Autor: Ruy Sarinho
Enviado por: Fernando Soares Campos

CHARUTO PARA BANGUELAS
Autor: Bruno Peron

UMA CARTA PARA O RIO DE JANEIRO
Autor: Milton Britto

VOCÊ ME "CONHECE"?
Autor:Mestre
Enviado por: Valdir Quirino

FERNANDAS, TÔNIA, LAILA, MAFALDA...
Autora: Anna Ramalho
Enviado por Matilde

SOLIDÃO ATAREFADA E AUTOCONHECIMENTO, EIS UM CAMINHO PARA A REDENÇÃO
Autor: Fernando Soares Campos

MÃE DESNECESSÁRIA
Fonte: Diversos Sites
Autora: Márcia Neder Bacha

QUANDO A TRISTEZA CHEGAR
Autora: Ana Claudia Saldanha Jácomo
Enviado por: Lika Dutra

RÁDIO DA VOVÓ
Autora: Ivonita Di Concílio

MANÉ GARRINHCA POEMAS E CRÔNICAS
Textos enviados por : Zeca Pizzolato

CRÔNICA DA CIDADE
Autora: Conceição Freitas
Enviado por: Luciana

EU QUERO UM SHREK
Autora: Christiane Bianchi

O PSIQUIATRA DE CARUARU: “HOMOFOBIA É VEADAGEM ENRUSTIDA”
Autor: Fernando Soares Campos

OS BRAVOS LEÕES DO AGRESTE
Autor: Walmir Ferreira dos Santos

A JANELA
Autores: Grupo Sonhadores - Paulo Antonio Widmer Jr, Odinar Fratin Jr e Zuleika Soares Novaes Júlio

A IMPORTÂNCIA DAS EMOÇÕES
Autora: Simone Sotto Mayor

UMA JORNADA DE ENCONTROS
Autor : Cacá Diegues


ENVELHEÇO PARA A VIDA. PARA A ALMA, JAMAIS!


Não sou tão velho assim ou sou? Isso importa? A resposta é absolutamente simples: claro que não! O que importa não é idade cronológica, mas, sim, a idade da alma, aquela conectada ao sentimento puro do coração.

Estabelecida à conexão, posso, a partir de agora, acessar memórias que fazem dos pequenos momentos, momentos extraordinários. Da infância alegre, eternizada por sonhos de menino: futebol, bagunça, amores escolares. Claro, isso para nós. Para elas: bonecas, papéis de carta, príncipes.

Estabeleci, talvez, a maior conexão comigo. Entendi que assim como os sonhos — aqueles da canção do Lô Borges —, que jamais envelhecem; a alma infantil fica intacta dentro de nós. Vai nos acompanhar até a eternidade. Nada mais leve, nada mais puro, do que acumular momentos; entender que somente acumulamos aquilo que amamos. A Infância, neste sentido, é um prato cheio.

Vamos subindo, saímos da fase mágica para chegarmos à adolescência. Posso dizer, sem medo, que essa fase também é única. Talvez nem tanto para os pais, coitados! Aqui trocamos a magia do abstrato, vivido na infância, por sentimentos reais, concretos. Buscamos respostas simples para perguntas nem tão simples. Quem somos? Para onde vamos? Como será o sexo? Confesso que a última dúvida é extremamente fascinante. Entretanto, fascinante é entender que nossas escolhas, aqui, vão nos dizer o que queremos e o que buscamos do mundo. Fato: infância, somada à adolescência, resultado: ensaio para a vida adulta.

Pois bem, chegamos… Chegamos ao momento crucial (fase adulta). Chegamos para seguir dois caminhos, apenas dois. São eles: o nosso caminho — baseado em tudo aquilo que sentimos e vivemos — ou o outro caminho — baseado e vivido — pela experiência que os outros vão querer nos impor? Só um detalhe: se o rio, mesmo nos piores cenários, encontra o mar; acredito, também, que possamos encontrar a nossa preciosa trilha — fica a dica.

Mundo chato, mundo sem opinião, não vou sentenciar. Todavia, digo, infelizmente, que: atualmente cultuamos e contemplamos a aparência. Cultuamos o ter ao ser; o egoísmo ao amor. Enfim, nunca estivemos tão conectados (mídias sociais), porém, nunca estivemos tão desconectados em relação ao que realmente importa. Pena não compreendermos que a dádiva maior nos dada é a vida disfarçada de alma. Algo interno e simples. Contudo, só a enxerga quem está conectado em praticar sentimentos simples, sentimentos solidários, sem aparências.

Leve a vida, sim, a sério. Só não se esqueça de apreciar a alma pura da infância que está oculta em você. Sem medo de errar, tenho comigo que: a contemplação da alma infantil amansa o universo e faz um milagre dentro de nós. Percorra o seu caminho com simplicidade, humildade e, claro, tenha ambição para conquistar suas metas. Disse ambição, por favor, jamais confundi-la com ganância e poder (erro comum daqueles que passaram a pintar a vida com uma só cor).

Outro “simbólico” detalhe: valorize-se, sim, valorize-se. Digo isso, pois, enxergar a si próprio é o desafio mais complexo do ser humano, uma vez que não estamos acostumados a nos valorizar. Quando passarmos a entender isso, teremos uma possibilidade de decifrarmos uma das palavras de maior valor para os seres humanos: felicidade.

Onde há fé, há esperança. Onde há fé e esperança, há amor. E onde há fé, esperança e amor, haverá sempre a pureza infantil morando dentro de nós. Pureza que faz de nós seres livres, seres de luz, seres de sonhos, seres eternos…


Fonte: http://www.revistabula.com/6542-envelheco-para-a-vida-para-a-alma-jamais/
Enviado por: Valdir Quirino

AS MENINAS DA FERREIRA VIANA

Eram três irmãs. A mais velha, Julia, tinha 25 anos, branca, calada, chegava e saía sem muita conversa, cumprimentando o Porteiro do prédio, de vez em quando. Era a mais vista. Dava a impressão que trabalhava em algum lugar e buscava uma formação universitária, que justificava a sua introspectividade. Preocupava-se consigo e com as duas irmãs, Lívia e Letícia, morenas claras, que aparentavam 17 e 19 anos, respectivamente. Nenhuma tinha atrativo de mulher desejada. Franzinas, iam e vinham sem notoriedade.

Passaram-se dois anos, quando Julia, ao descer do prédio, ainda na portaria, aonde se encontrava Roberto, pôde o mesmo, notar que aquela mulher que passava despercebida, deixava os seus olhos brilhando ao deparar com tamanha beleza. Corpo escultural, compenetrada, exibia charme e elegância, como se tivesse operado um verdadeiro milagre na transformação humana. Questionaram alguns amigos, moradores do prédio, aquela cena e ficaram durante algum tempo sem resposta. Descobriu-se pouco tempo depois que Julia estava para concluir o curso de Direito na Cândido Mendes e se encontrava às voltas para traduzir alguns trechos do livro “L’ESPRIT DES LOIX” de Montesquieu, sabendo através de uma amiga que Roberto estava para concluir o Curso de Francês na Maison de France. Foi a oportunidade para o encontro dos dois, que infelizmente ficou constituído numa amizade platônica, tendo em vista que Roberto mantinha convivência marital com Ivone, no mesmo Edifício e no mesmo andar. Algum tempo depois as suas irmãs se avolumavam em suas formas físicas, com contornos aviolados, desfilando pela sossegada Rua que conduzia até a praia do Flamengo, em biquínis estonteantes. Era o desejo em dose tripla a infernizar a libido de um homem que pretendia ser fiel, situação que Roberto não pôde suportar e partiu para a primeira conquista, conseguindo numa tarde de verão uma conversa agradável com Julia, terminando no leito de um apartamento cedido por um amigo, o que se repetiu por dezenas de vezes. Apaixonaram-se. Roberto, no entanto, era um homem volúvel, já não se contentava com Ivone e Julia ao mesmo tempo e era tentado pelas belezas novas que surgiam em Lívia e Letícia. Dias e noites atormentavam Roberto, com o desejo incontido de ter em seus braços suas cunhadas.

Um dia, Julia, ao participar de uma audiência no Fórum, conheceu um colega, solteiro e simpático, nascendo ali uma nova amizade, desencadeando o rompimento do romance com Roberto, que teve a oportunidade de se relacionar com Lívia que lhe propiciou noites por Copacabana. Sextas-feiras frequentavam a Boate ZUM ZUM, para assistirem as apresentações de Vinícius, Baden, Quarteto em Cy, Oscar Castro Neves e algumas vezes Tom Jobim. Aos sábados, em sua tournée, passava pela Boate Cangaceiro para ouvir Helena de Lima, principalmente pelo amor que tinha pelas músicas “Verdade da Vida” e “Estão voltando as Flores”, e, após a entrega do Bouquet por Pedro das Flores, à sua amada, ia o casal ouvir Milton Brito no Bar Michel e finalmente no Le Rond Point, para a sopa de cebola, com o encerramento da noitada no apartamento de encontros na Barata Ribeiro. Lívia que se fez bela e cobiçada despertou interesse por outros rapazes mais jovens e mais sedentos de paixão, adiando a cada dia os encontros que mantinha com Roberto, até tomarem rumos diferentes. Roberto ainda tentou Letícia, mas esta lhe negou a possibilidade de um romance, até pela experiência que vivenciou com suas irmãs. Roberto, separado de Ivone, não encontrou mais abrigo aconchegante, terminando por residir em um apartamento de sala e quarto na Praia do Flamengo, ouvindo a sua música de fossa: “Quantas noites não durmo/ a rolar-me na cama/ a dizer tantas coisas/ que a gente não diz, afinal, quando ama/ O calor das cobertas não me aquece direito/ não há nada no mundo/ que possa afastar esse frio do meu peito./ Volta, vem viver outra vez ao meu lado...”. (Composição de Lupicínio Rodrigues).

Ficou-se sabendo que o responsável pela grande transformação física das três irmãs, foi nada menos que o “Postafen”.

Autor: Milton Britto


MULHER - UM EXEMPLO A SER SEGUIDO

QUEM costuma participar das corridas de Rua em Salvador certamente conhece ou já ouviu falar em d. GENILDE PELETEIRO. Ela é “figurinha carimbada” e como se costuma dizer por aqui: “está em todas”!

D. Geny, como é mais conhecida, não é somente uma corredora disciplinada. Prestes a completar 65 anos, ela é frequentadora assídua do pódio em sua categoria, geralmente ocupando o ponto mais alto.

Sempre acompanhada de sua filha REBECA PELETEIRO, as duas formam uma dupla inseparável distribuindo simpatia e dando exemplo para os mais jovens.

Até o ano de 2009 ela nunca tinha participado de uma prova, apesar de treinar regularmente no bairro onde mora. Incentivada pela filha, ambas passaram a participar de corridas oficiais e nunca mais pararam.

Assim, começaram com os 5 km, depois 10 km e em 2011 fizeram a primeira Meia Maratona e todo ano corre pelo menos uma. A meta delas é fazer uma maratona.

Genilde começou caminhando e aos poucos evoluiu para a corrida. Diz que foi o meio que encontrou para combater o estresse e para superar a perda do marido. Tinha problemas na coluna e estava bem acima do peso. Perdeu 20 k, as dores sumiram, sua saúde e seu humor melhoraram muito. Hoje corre em média 30 km semanais, que aumentam quando treina para uma prova maior.

Acorda todos os dias às 4h da manhã e sai para treinar às 04h30min. Mesmo nos dias que está chovendo não deixa de fazê-lo. Não bebe, não fuma, dorme cedo. Evita doces, sal e refrigerante. Assim, não precisa ficar indo a médicos. Só para acompanhamentos anuais. Esta é a sua receita de viver bem.

“Minha mãe é uma guerreira! cuidar de casa, filhos, neto e ainda ter tempo para competir e treinar, só mesmo ela.
Ela é um exemplo de que as mulheres podem ser: mães, profissionais e atletas sem abdicar de nenhum dos papéis. (que os homens me perdoem),mas para ser multi, só nascendo mulher mesmo...rsrsr”. Este é o depoimento de sua outra filha – ROBERTA.

Segunda ela e sua filha Rebeca “o importante é a busca pelo movimento, seja correndo, nadando, caminhando, pedalando, dançando, pulando corda, enfim, cada um precisa buscar o que mais se identifica e se mexer. Não vale é ficar sedentária!”

Por tudo isso, d. Genilde é um exemplo a ser seguido!

Fonte: joseamancioneto.blogspot.com.br
Autor: José Amâncio Neto - Corredor da 3ª IDADE.


EU SOU ASSIM

Há a mania de justificar atitudes dizendo que "eu sou assim, tem que me aceitar do jeito que sou".

É uma desculpa furada para não se esforçar no relacionamento. Desculpa de vadio, de preguiçoso. É repassar a culpa para a genética ou para o mapa astral.

Não é porque é sincero que deve ser grosseiro.

Não é porque é desligado que deve ser indiferente.

Não é porque tem muito trabalho que deve ser agressivo.

Não é porque é econômico que deve ser avarento.

Não é porque é livre que deve ser inconsequente.

Não é porque é vaidoso que deve ser egoísta.

Cada um tem uma personalidade, mas nem por isso ela pode sair por ai machucando. O sofrimento do outro, a mágoa do outro, é a nossa medida. É o limite do nosso temperamento.

Fonte: http://carpinejar.blogspot.com.br/
Autor: Fabrício Carpinejar


MAÇANETAS E DOBRADIÇAS, PORTAIS E CAMINHOS

Bem-vindos à “semana de todas as semanas”, aos dias que estivemos à espera, desde 1º de Janeiro de 2015, e bem antes disto. Estão animados? Eu estou, ainda que não tenha certeza do que irá acontecer. Estamos todos sentados à beira de nossas cadeiras e com muita energia de expectativa fluindo. É um grande momento de nos concentrarmos na intenção e usarmos os elevados níveis de energia como outra fonte de capacitação.

Dia 7 de março foi a última quadratura Urano/Plutão na série que experienciamos desde Junho de 2012. Que passeio foi, mas isto não termina hoje. Os planetas permanecem em aspecto durante o mês de Abril e, então, afetam novamente em Fevereiro de 2016. Mas sabemos agora que nada “termina”. Nós apenas conseguimos ver as coisas a partir de uma perspectiva diferente. As portas estão se abrindo em sua vida? Há um desejo para a transformação que os está tirando de sua zona de conforto?

Temos um eclipse da lua nova, o Equinócio, Saturno virou retrógrado, Netuno está, finalmente, fora de sua sombra retrógrada, e temos um grande e amplo trígono nos signos do fogo. Uau, há muitas coisas acontecendo!

Novos inícios abundam e novos portais estão se abrindo, mas temos que estar dispostos a permitir que estas portas se abram e proporcionarmos a energia para que elas se abram. Este é o tema da mensagem desta semana. Maçanetas e Dobradiças, Portais e Caminhos.

Se vocês me seguem no Facebook, sabem que o projeto de pintura do meu escritório se transformou em uma grande inspeção de maçanetas e dobradiças em toda a minha casa. Uma vez que o escritório foi pintado, percebi como as maçanetas e as dobradiças estavam gastas. Desde que elas têm 40 anos, já era o momento para uma mudança. E as dobradiças precisavam de uma atualização, pois elas estavam velhas e precisavam combinar com as maçanetas. Maçanetas são usadas para abrir portas e as dobradiças permitem que as portas se abram: Que grande metáfora para este tempo! Mas como eu descobri, substituir maçanetas é rápido e leva 5 minutos. Substituir dobradiças não é tão fácil.

Animada com a substituição das minhas maçanetas e dobradiças, encaminhei-me para a loja de ferragens para comprar uma dúzia de maçanetas e 18 conjuntos de dobradiças. Comecei com as maçanetas e estava tão entusiasmada que o tempo passou muito rápido. Em menos de uma hora eu consegui substituir todas as maçanetas. Então, comecei com as dobradiças e as coisas começaram a ficar muito lentas. Cada porta tem três dobradiças, cada dobradiça tem seis parafusos que têm que ser removidos, a nova dobradiça colocada na porta com seis parafusos, e, então, ligada ao batente da porta, com outros seis parafusos. As portas saíram com facilidade, mas, houve um problema quando tentei colocá-las novamente.

As portas não podem se nivelar ao chão, pois assim, não se abrem. Eu tive que descobrir como escorar a porta o suficiente para que eu pudesse alinhar as dobradiças com os buracos. Então, eu fui para a minha oficina e construí uma pequena escora para segurar a porta.Isto funcionou bem, mas no momento em que eu terminei uma porta eu estava cansada e precisei colocar esse projeto de lado para trabalhar em outras coisas. E eu estava perdendo um pouco de energia, pensando em quanto tempo seria preciso para terminar o resto do projeto. Em vez de ir tão rapidamente quanto as maçanetas, as portas exigiram mais esforço. A primeira porta expandiu minha consciência quanto ao que implicaria a substituição das dobradiças.Então o telefone tocou - isto iria levar mais tempo e ser mais difícil do que eu pensava.

Temos a sétima e última quadratura Urano / Plutão, o que fecha um ciclo que começou em junho de 2012, mas ele realmente começou em meados dos anos 60, com a conjunção Urano / Plutão. A 7ª quadratura é nossa última etapa na jornada da ascensão e da evolução, a abertura de um alinhamento com a nossa conexão com a Fonte. Isto corresponde ao chacra coronário, o último dos sete chacras, que são os centros de energia do nosso corpo. Este é um momento de contemplação e reflexão, para o perdão e religação, para o realinhamento com o nosso centro divino e o reconhecimento de nossa divindade. Será que estamos à altura da tarefa ou isto será mais difícil do que pensávamos?

Eu notei ao longo dos anos em que estive trabalhando com os clientes que há, muitas vezes, uma última etapa a superar e esta é a disposição deles de deixar de lado qualquer raiva ou ressentimento que eles tenham em relação à Deus, ou ao Universo, ou à Fonte. Eu me senti assim muitas vezes, especialmente em alguns pontos muito sombrios da minha vida, quando eu pensei que Deus deveria me salvar e eu não recebi qualquer ajuda. Nossa raiva de Deus é um grande bloqueio em nossa vontade de aceitarmos e nos alinharmos com a nossa divindade. Por que deveríamos dar satisfação a Deus, quando Ele não estava lá para nós? Isso pode nos dar alguma satisfação a curto prazo, mas a longo prazo, voltamos sempre ao divino, a nossa fonte, ao nosso centro, para um realinhamento, uma religação, e um renascimento.

Os portais para a divindade estão abertos, temos novas maçanetas que representam nossos novos níveis de compreensão e de consciência, e ainda há um último passo a darmos antes de permitirmos que as portas se escancarem. Podemos deixar de lado nossos próprios bloqueios, substituindo as antigas e desgastadas dobradiças por novas? Temos feito tudo o que era fácil, agora a última parte é que é um pouco mais complicada.

Será que vamos seguir ou desistirmos? Será que deixamos de lado qualquer raiva ou ressentimento, em relação a alguém ou alguma coisa, e apenas seguimos em frente? Como se sentem, quando vocês vêem todas as complexidades envolvidas em uma grande transformação de vida diante de vocês? Quais foram os seus padrões no passado? O que vocês querem fazer de forma diferente hoje? Qual é a sua definição de alegria e quanto vocês a querem?

Nós seguramos as chaves do reino em nossa mão agora. Tudo o que temos a fazer é abrirmos as portas e deixá-las se escancararem com as nossas novas dobradiças do perdão e da aceitação. Os caminhos dos potenciais existem para cada um de nós quando estamos dispostos a liberar as ligações que temos com algo que não serve a nossa intenção para a alegria e virarmos para outra direção. Isto pode ser mais difícil do que pensávamos, mas não significa que seja difícil. Pode ser preciso apenas um pouco mais de tempo, de pensamento, energia e esforço. O resultado tem que ser o nosso foco e as recompensas, quaisquer que pretendamos que sejam, fazem parte de nossos novos caminhos que criamos através de nossa intenção.

Fonte: http://enlighteninglife.com
Autora: Jennifer Hoffman
Tradução: Regina Drumond
Enviado por: Cristina Tibau


DA LIBERDADE SEM MEDO À LIBERDADE SEM EXCESSO

No ano de 1967, em plena ditadura militar, com os novos rumos da música e da cultura em nosso país, com uma influência catequética, absurda, prevendo o processo de aculturação que se deu, comecei a me distanciar da clave de sol, dos bemóis e sustenidos, indo em direção à formação de uma intelectualidade que não se alcança, mas que é tentada. A esta altura, eu já havia lido os maiores escritores e filósofos, da Grécia, Roma, Itália, França, Alemanha, União Soviética, Portugal e Espanha, sem contar os brasileiros. Lecionava na Paróquia da Glória, no Largo do Machado, no Rio de Janeiro, tinha ojeriza por americano e inglês, pela forma imperialista de conduzir o mundo, subjugando os mais fracos e despreparados. Buscava uma metodologia de ensino para os meus alunos, vez que, eram os mesmos, a maioria, filhos de pais separados, cada um com um problema vivencial maior que o outro. Era uma missão nova que eu experimentava. Neste exato momento de minha vida, encontrei um livro que foi determinante para minha formação como mestre e como aluno que somos a vida toda, sempre aprendendo e nunca sabendo.

• O livro – LIBERDADE SEM MÊDO, de autoria do escritor escocês, Alexandre
Neill, que conta a história de SUMMERHILL, uma escola implantada na Inglaterra, fundada por ele, que se transformou na maior experimentação do mundo na outorga de lúcido amor e aprovação à criança. Obra especialmente recomendada a educadores, pais e psicólogos. Ali, ele ensina como que a sua liberdade, que pode ser quase plena, esbarra na liberdade de outrem.

Ou seja – você pode entrar na biblioteca, escolher qualquer livro para ler, menos o que eu estou lendo, não podendo também perturbar a minha leitura. Você tem o direito de construir a sua própria formação, mas não pode intervir diretamente na formação alheia, tem que respeitá-la.

Deduzimos que a liberdade é importante para a formação do indivíduo, mas o excesso é pernicioso e por vezes causa estragos irreparáveis.

É o que está ocorrendo em nossa sociedade, no presente momento, quando deparamos com o apoio irrestrito, em decisão plena, da nossa mais alta Corte de Justiça do País, permitindo e autorizando “A Caminhada da  Maconha” e das demais drogas, por viciados e traficantes, numa afronta ao nosso ordenamento jurídico. É a Apologia ao Crime. A quem interessa esta caminhada? ...; Como explicar, que em nome da liberdade de expressão e de manifestação, pode-se ir às ruas para pregar a sublevação dos costumes, dos princípios morais e do direito? Como entender que uma Ministra, possa dizer que fomos cerceados durante 25 anos em nosso direito de expressão e que por consequência justifica a permissividade e a libertinagem em lugar da liberdade.

Noel Rosa exorta em sua musicalidade, os princípios do Positivismo de Auguste Comte, preponderante para formação da República:

O amor vem por princípio, a ordem por base O progresso é que deve vir por fim Desprezastes esta lei de Augusto Comte E fostes ser feliz longe de mim.

“Teus filhos não são teus filhos. São filhos e filhas da Vida, anelando por si própria. Vem através de ti, mas não de ti, e embora estejam contigo, a ti não pertencem. Podes dar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos, pois que eles têm seus pensamentos próprios. Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas. Pois que suas almas residem na casa do amanhã, que não podes visitar sequer em sonhos. Podes esforçar-te para te parecer com eles, mas não procures fazê-los semelhantes a ti, pois a vida não recua, e não se retarda no ontem, tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas, são disparados...”

“Que a tua inclinação, na mão do arqueiro, seja para a alegria”.
(KAHLIL GIBRAN).

É PRECISO DIFERENCIAR LIBERDADE DE LICENCIOSIDADE.
JUSTIÇA. - Pobre justiça cega.
POVO. - Infeliz o povo sem princípios morais, sem família, sem respeito humano, sem rumo e sem caráter, que abriga detratores demagogos, travestidos de arauto do povo.
É realmente triste caminhar em estradas tão divergentes.

Autor: Milton Britto
Feira, 13 de julho de 2011.


TREINAR COM OS AMIGOS É BOM DEMAIS!

Como praticante de corrida de rua, 2014 foi um ano completamente diferente para mim. Por razões diversas, preferi  priorizar os treinos com amigos, em detrimento de provas oficiais. Assim sendo, participei apenas de oito corridas, sendo que duas delas foram em outras cidades, mais precisamente em Fortaleza e Feira de Santana.

A principal razão para essa escolha foi que cheguei à conclusão que meu principal objetivo com a prática de corrida é preservar minha saúde, aliado à satisfação de encontrar com amigos para “jogar conversar fora”.

Não que tenha deixado de gostar de provas oficiais, de competir e fazer jus a  medalhas. Ocorre que, essas provas geralmente são realizadas em condições adversas, no calor abrasante de nossa cidade, cujas largadas acontecem via de regra muito tarde, quando o sol já está castigando.

Ademais, os percursos são sempre os mesmos que já fiz dezenas de vezes, de modo que me faltou motivação.

Já os treinos com amigos são diferentes. Primeiro a gente pode escolher as companhias, os horários e os locais; segundo, não há nenhum compromisso com tempo e distância, de modo que a prática de corrida se torna mais prazerosa.

Dessa forma, não houve sequer um dia de sábado que não participasse de um treino nessas condições, seja em Salvador ou nas cidades de Alagoinhas e Feira de Santana, para as quais costumo viajar para visitar meus filhos que residem nas mesmas.

Por outro lado, nas ocasiões que viajei para outros Estados, não deixei de treinar.  Assim, fiz maravilhosos treinos em Fortaleza, cuja orla é propícia e agradável para a prática de corrida. Também treinei em Campinas e Aparecida, São Paulo, onde estive no mês de abril. Em ambas fazia um frio intenso, para meus padrões e experimentei a agradável sensação de correr em um clima ameno. A felicidade de correr nos arredores do Santuário de Nossa Senhora Aparecida, acompanhando a chegada dos romeiros antes do dia nascer, foi de fato inigualável.

Também tive oportunidade de treinar no Rio de Janeiro, em locais como Praia Vermelha, Lagoa Rodrigo de Freitas, no Aterro do Flamengo e especialmente no percurso Urca/Botafogo/Leme/Copacabana/Ipanema/Leblon, ida e volta, onde no dia 01 de maio fiz o correspondente a uma meia maratona. A cidade maravilhosa faz jus ao nome e oferece condições excepcionais para corredores.

Neste ano de 2014 completei 70 anos de idade (28/04), por sinal comemorado em visita ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Não hesito em dizer que me sinto melhor do que quando tinha 40/50 anos. Essa satisfação decorre da mudança radical em minha vida, quando há 06 anos me libertei do vício do álcool e encontrei na corrida de rua uma forma de dar um novo sentido a minha existência.

Nunca deixo de agradecer a Deus e, sobretudo a Nossa Senhora Aparecida, a benção que  me foi concedida, de modo que aos domingos, no horário quando geralmente são realizadas as corridas oficiais, também tenho preferido ir assistir à missa.

Até breve…

Autor: Amâncio Neto - Bancário aposentado de Salvador (BA), começou a correr em 2009 para manter a saúde e fazer novos amigos. Além deste blog, é autor do blog Corredor da Terceira Idade. Fale com o José Amâncio: TWITTER ou FACEBOOK
Fonte: http://www.jornalcorrida.com.br


PRAZERES DA "MELHOR IDADE"

A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" - algo entre os 60 anos e a morte.

Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica.

Privilégios da "melhor idade" são o ressecamento da pele, a osteoporose, as placas de gordura no coração, a pressão lembrando placar de basquete americano, a falência dos neurônios, as baixas de visão e audição, a falta de ar, a queda de cabelo, a tendência à obesidade e as disfunções sexuais. Ou seja, nós, da "melhor idade", estamos com tudo, e os demais podem ir lamber sabão.

Outra característica da "melhor idade" é a disponibilidade de seus membros para tomar as montanhas de Rivotril, Lexotan e Frontal que seus médicos lhes receitam e depois não conseguem retirar.

Outro dia, bem cedo, um jovem casal cruzou comigo no Leblon. Talvez vendo em mim um pterodáctilo da clássica boemia carioca, o rapaz perguntou: "Voltando da farra, Ruy?". Respondi, eufórico: "Que nada! Estou voltando da farmácia!". E esta, de fato, é uma grande vantagem da "melhor idade": você extrai prazer de qualquer lugar a que ainda consiga ir.

Fonte: www1.folha.uol.com.br/
Autor: Ruy Castro

Enviado por: Zeca Micaldas e Jussara Nolasco

CARÍSSIMOS E CARÍSSIMAS:

Com toda razão, e revelando agudeza na apreciação da droga da velhice,
expressa‐se muito bem o meu xará Rui Castro: melhor idade é a ponte
que partiu. Aliás, Bonitão, não tente encontrar Rui que seja burro.
Não encontrará. Qualquer Rui que seja burro, ou modesto, nasce morto ‐
e esse é o único ato inteligente praticado pelo Rui natimorto.
E, sendo ato inteligente, aquela opção de morrer para não viver como
burro, ou como modesto, é, indubitavelmente, ato de escorreita
inteligência (gostaste do escorreita?).

Eu estava no Rio, certo ano. Era véspera de Natal. Auge do verão
carioca, 40 graus. Avenida Atlântica, praia de Copacabana lotada;
cervejinha da Devassa na esquina de minha casa, com direito a um
Steinhägger geladíssimo, em copito geladíssimo, com casquinha de
limão.

Eu, fantasiado de boy: shorts, camiseta regata, boné, RayBan na cara, tênis de griife com soquetes curtinhas, sou convocado para ir buscar besteirinhas no
supermercado Princesa, na 1ª quadra da rua Bolívar, vizinho da Devassa
e do Transas. Que jeito? Desço para fazer as comprinhas. Na hora de
pagar, filas quilométricas. Suspiro. Ponho‐me em uma das
quilométricas.

De repente, dou de cara com uma fila curtinha, umas qunze pessoas no máximo.
No caixa, a indefectível placa: "Caixa preferencial para gestantes,
portadores de deficiência e idosos." Eu, muito sexy de sexagenário,
pulo pra bendita filinha. Lá estou, com minhas compras na cesta.
É
quando me aparece um daqueles velhinhos de Copacabana, jogador de damas no Posto 6.
Muito provavelmente, general reformado. Olha‐me duro, severo, bem na
minha cara e dispara:
‐ "Que que você tá fazendo aqui?"
‐ "Estou esperando para passar minhas compras."
‐ "Mas, aqui?!?" fulmina o general.
‐ "É. Aqui. É aqui que a gente espera para passar a compra no caixa," respondi, pacientemente. "Mas, aqui?!? AQUIIIIII?!?", trovejou o bravo soldado.
‐ "É. Aqui. É aqui que a gente passa as compras que fez", respondi, com candura angelical. "Mas... aqui? AQUIIIIIIII?!?", canhoneou o Duque de Caxias. ‐ "Por que aqui?", continuou.
Vendo‐me vestido de boy e achando que, com aquele meu corpinho de sessenta, eu não aparentava mais que cinquenta e nove e meio, o velho militar metralhou:
‐ "Saia daqui! Sua fila não é aqui! Vá se colocar na fila adequada!" E concluiu, apoplético: ‐ "Por que diabos você está AQUIIII? ESTA FILA NÃO É A SUA!!! VÁ PROCURAR SUA FILA!!! POR QUE
VOCÊ ESTÁ NESTA FILA???"
Ao que respondi, bem alto para que todo mundo Pudesse ouvir:
‐ Meu senhor, eu estou nesta fila de caixa preferencial porque estou grávido."

Risadas reboaram pelo supermercado apinhado de gente. O general foi embora,
deixando suas comprinhas pra trás.

Abraços gerais.
Rui Guilherme V. Souza Filho


A FÓRMULA DO AMOR

As mulheres mudam o tempo todo. As feições, os cabelos, as gírias, os desejos. Homens costumam ser mais previsíveis. Hoje em dia é muito possível que você encontre avó, filho e neto usando as mesmas roupas e falando do mesmo jeito, sejam eles os tipos mais conservadores ou não. Mick Jagger tem mais de 70, é bom lembrar. Pois falando nele, recordo-me de que sempre que pego a guitarra preciso conferir a afinação. Pois é. Acho que está na hora dos homens conferirem a afinação de suas ideias a respeito das intimidades e mandarem o carro com que viajam no mundos dos relacionamentos para a revisão para se posicionaram de outra forma diante das mulheres.

Elas assumem cada vez mais sua independência e autonomia, mas continuam brincando de princesas e sonhando com o príncipe encantado. Lerigou! A verdade é que o sonho das mulheres não é encontrar o príncipe encantado, mas sim comer, comer e não engordar. E os homens precisam saber lidar melhor com elas. Principalmente fazê-las crer que estes dois quilos a mais são só loucura desvairada. A gente deve mostrar isso com atos e não palavras. Elas sempre vão acreditar mais nos cabeleireiros e no julgamento crítico “dazinimiga” do que na gente. Elas não ouvem os consumidores, mas sim a concorrência. São doidinhas. Isso as faz adoráveis.

O macho genérico em sua versão mal-acabada e não revisada está fadado ao esquecimento. É claro que não penso no camarada com a peixeira na mão quando afirmo isto, mas sim no cara que luta para ter uma pausa maior no trabalho quando o filho nasce, aquele que sabe que não precisa ajudar em casa, mas sim tomar a frente do comando de seu lar, sua família, e não atuar como coadjuvante. O homem que sabe que não precisa tentar seduzir todas as mulheres do mundo e que pode dizer não pra qualquer uma, e isto inclui a mulher de seus sonhos, se ele, simplesmente, não estiver no clima naquele momento.

O homem também precisa sair do lugar de quem conquista e perceber que enquanto está atuando nesta posição está sob julgamento, e devendo. Existem mais mulheres legais do que homens acredito eu. Se você se empenha em ser um cidadão bacana, que está atento aos desejos, sonhos e sabe lidar com as chatices de uma mulher, você pode se valorizar: é produto raro no mercado. Se ganhar um salário que o faça razoavelmente independente, melhor ainda.

Os homens precisam entender que o machismo faz com que eles morram dez anos antes da mulheres por terem uma vida muito mais desagradável. Machismo faz mal pra saúde! Que elas ganhem tanto quanto a gente, quando executam a mesma função. E que tenhamos nós o direito a ser “do lar” se assim as circunstâncias de nossas vidas indicarem, sem que com isso sejamos chamados de vagabundos ou gigolôs. Vai ser só por um período, acredito eu. Ninguém deveria aguentar por muito tempo uma vida nos moldes clássicos. Nem homens e nem mulheres. É muito chato!

Fonte: Revista O Globo
Autor: Leo Jaime


A IMPORTÂNCIA DE UM ABRAÇO

Em tempos idos era eu gerente da sucursal de uma empresa seguradora, em Belo Horizonte. Estressado pela responsabilidade imposta pelo cargo e por metas a serem alcançadas, sofri por quatro meses com o distúrbio de uma glândula que me provocava sudorese em excesso, independente do calor ou frio que estivesse fazendo.

Minhas mãos estavam sempre suadas e por mais que as enxugasse em lenços preventivamente levados comigo, permaneciam úmidas.

Meus contatos profissionais eram muitos, diariamente, e ficava constrangido, na hora do aperto de mãos, nas apresentações ou reencontros de clientes.

Então, como recurso estratégico, ao ver mãos estendidas para mim, ignorava-as e partia para um abraço, acompanhado de “Muito prazer, Ary Franco”. Neste período realizei bons negócios e fiz grandes amigos, como nunca dantes.

Depois de “curado”, com tratamento médico adequado, resolvi continuar com meus, agora espontâneos, abraços. Ao meu gabinete de trabalho eram conduzidos os funcionários novos, contratados pelo RH, para me serem apresentados. Desde o contínuo, até os mais graduados, eu levantava-me da cadeira, contornava minha mesa e abraçava o recém-chegado, dando-lhe as boas-vindas. Era eu o gerente “mais legal do mundo!”.

Certa feita o gari que varria a minha rua, tocou o interfone e perguntou-me se eu poderia assinar na “listinha de Natal”. Peguei uma nota (não me lembro mais do valor) e fui ao portão apor meu nome na lista. Ele retirou a luva da mão direita e estendeu-a para mim, desejando-me um Feliz Natal. Ignorei aquela mão e abracei-o, retribuindo os votos. Meio acanhado ele disse-me, durante o abraço: “Doutor, estou sujo e suado” Eu respondi: “Perante Deus, talvez eu o esteja mais que você!”.

Daquele dia em diante, minha calçada era a mais bem varrida e limpa de todas e era na minha casa que ele mitigava sua sede nos dias mais quentes sob o sol causticante que dificultava a exaustiva tarefa de seu trabalho.

Então, aí ficou para mim uma lição de vida, transformando uma adversidade em um grande aprendizado, certamente ministrado pelo nosso Deus Criador.

Autor: Ary Franco (O Poeta Descalço)
Enviado por: Yna Beta


PANELAS BRILHANDO

Ai. Agora a coisa pegou de vez. Mexeu lá no fundo, sabe? Recebi um e-mail de uma amiga que adoro. (Adélia, é você mesma, paranaense lindona! Escritora talentosa!). Então, o e-mail é uma glória. Sobretudo para aquele tipo de mulher escrava da casa, maníaca por limpeza, coisa que vira doença braba. E mata. Morreu do quê? De raiva seca.

Deus Pai! O título diz: “Não deixe suas panelas brilharem mais que você!” – ó, por favor, não deixe, não deixe, não deixe! Também pode ter cuecas lendo este texto, tipo “dono de casa”. Quanto lindo morando sozinho, fazendo faxina, cozinhando, lavando e passando, estou certa? Pois então, belo, brilhe, vista sua bermuda jeans, sua camiseta polo, seu tênis adorado e vá passear com o Rex. Lembre de levar o saquinho e a pazinha, viu?

Eu nunca quis que minhas panelas brilhassem… Uma vez, uma empregada chamou minha atenção: “as panelas da senhora não brilham, dona Marisa”. E daí? Respondi que li uma matéria recomendando não polir o alumínio, para deixá-lo opaco mesmo, porque alumínio polido faz mal à saúde… E era verdade, eu li o artigo. Mas, com ele ou não na cabeça, nunca liguei para brilho de panelas. Eu também sempre tive mais o que fazer…

Mas, ela deu uma “areada” legal nelas e pronto. A casa eu mantenho limpa e asseada na medida do possível. Minha coluna não permite que eu vá além. Deixo o mais pesado para a faxineira, meu anjo da guarda que vem toda terça. E toco a vida…

Bom, então, o texto bate duro na nossa mania de querer os móveis limpos todos os dias: “Pense que a camada de pó vai proteger a madeira que está por debaixo dela”. Aqui eu preciso dar a minha risadinha. Hi hi hi… Se isso for mesmo verdade, Deus sabe o que faz e vamos todos dormir com a nossa consciência tranquila. Teremos nossos adorados móveis por muitos anos. Obrigada, Senhor!

Logo a seguir, vem uma frase destas que a gente ama de paixão: “Uma casa só vai virar um lar quando você for capaz de escrever `Eu te amo´ sobre os móveis.”

Prosseguindo. Aí, vem uma argumentação meio longa, defendendo o seguinte: raramente alguém aparece “de repente” na nossa casa; que enquanto estamos nos esfolando para manter tudo limpo, tem gente lá fora passeando, se divertindo e aproveitando a vida. E daí se aparecer uma visita? Você vai morrer por causa disso? Nananinanão. Não temos de dar explicações da situação da nossa casa para ninguém. Adorei. Ainda mais eu que sou dura na queda.

A frase seguinte é: “As pessoas não estão interessadas em saber o que eu fiquei fazendo o dia todo, enquanto elas passeavam, se divertiam e aproveitavam a vida… Caso você não tenha percebido, A VIDA É CURTA, APROVEITE-A!!! Tire o pó se precisar!”.

Sim, este “se precisar” está assim, sublinhado. Sinto uma coerência filosófica e dialética nisso tudo, sabe? De fato, se não for preciso, para que tirar o pó dos móveis? Lembro-me de um texto lindo, de um padre amigo meu, mineiro, já falecido. Ele discorria sobre as qualidades e atribuições de uma dona de casa. E aludia justamente a isso: à camada de pó diária sobre os móveis. A mulher vai lá, pega um pano e limpa. Todo santo dia. A roupa que tem de ser lavada e passada; o sagrado almoço da família; as camas arrumadas, o chão varrido, tudo em ordem.

Por isso algumas se revoltam quando lhes perguntam: a senhora trabalha?

Em seguida, uma frase indagadora: “Não seria melhor pintar um quadro ou escrever uma carta, dar um passeio ou visitar um amigo, assar um bolo e lamber a colher suja de massa, plantar e regar umas sementinhas? Pese muito bem a diferença entre QUERER E PRECISAR. Tire o pó se precisar”.

Fico pensando em quem escreveu este texto e o ilustrou lindamente, com figurinhas graciosas de mulherinhas conformadas, ou bravinhas, com espanadores e baldes nas mãos. Sabe que um texto desta natureza pode salvar uma vida? O mundo tá assim de gente doente atrás da limpeza da casa. Vão morrer limpando. Minha mãe dizia: “A gente vai e a casa fica”. Fica para alguém ir lá e continuar esfregando…

A mensagem do e-mail prossegue, lembrando que lá fora há um lindo sol brilhando ou flocos de neve caindo… O vento agitando os cabelos… Os pingos da chuva, mansos… E que este dia não voltará jamais. E vem o conselho de novo, aos berros: “Tire o pó se precisar!”.

Mas a frase arrepiante vem agora. Temos de lembrar que, quando envelhecemos, não conseguimos fazer muita coisa como antes. É pura verdade. Vem o desfecho fatal: “E quando você partir, como todos nós partiremos um dia, também vai virar pó!!!” – caramba, essa gente que põe texto na internet entende um pouco de tudo, fala sério.
Então, surge algo proverbial: “Ninguém vai se lembrar de quantas contas você pagou, nem de sua casa tão limpinha, mas vão se lembrar de sua amizade, de sua alegria e do que você ensinou”. Bingo! De fato, ali, à beira do caixão, nunca ouvimos ninguém dizer: “Era uma mulher e tanto. As panelas sempre brilhando e tirava o pó como ninguém”. Melhor se divertir e sair cantando na chuva como Gene Kelly?

Por fim, a conclusão de tudo: “Afinal, não é o que você juntou, e sim o que você espalhou que reflete como você viveu a sua vida”. Lapidar e mortal. Esse é o caminho. Espalhar algo para a posteridade. Nos meus pobres textos, quero tocar o coração do leitor. Quero levar o encantamento, o sonho. Eu sonho feito besta o tempo todo, me perdoe. Não largo dele. Ó, sonho!… Prefiro ficar quietinha, sonhando, do que tirar o pó… E não tem problema se minhas panelas não brilham… Hi hi hi…

Autora: Marisa Bueloni
Formada em Pedagogia e Orientação Educacional
Enviado por: Dalva Pinto


PERDEU, “PLAYBOY”

Eram 7h30min e, a caminho do trabalho, vejo uma moto parar ao meu lado e escuto alguém dizer: Perdeu, Playboy!
Como assim? Playboy? “Peraí”, tudo tem limites! Te entregar meus pertences tudo bem, na boa, mas me chamar de playboy? Tenha santa paciência!
Eu não sou playboy. Você sabe o que significa? Segundo o dicionário: playboy |pleibói| (palavra inglesa), substantivo masculino. Homem ou rapaz que procura prazeres e diversões e tem uma vida social intensa, notadamente no que se relaciona com as conquistas amorosas, e ostenta geralmente riqueza. Plural: playboys.
Então, você acha que sou playboy? Tô indo pro trabalho, de ônibus, levando marmita, e só porque estou arrumado e tenho celular, sou playboy? Esse celular comprei em 10 suadas prestações e, para seu conhecimento, ainda estou pagando, trabalho em dois empregos e ainda arranjo tempo pra estudar. Playboy é você!
Presta atenção você está de moto, com roupa de marca, só vive na farra e não trabalha.
Quem é o playboy, aqui?

O ladrão pensou e falou.
- Tá certo! Eu sou realmente playboy. Então, cidadão, me passa só o celular, porque o playboy aqui quer ostentar. A marmita e a mochila com livro eu não quero. Nunca gostei de estudar. Até vou pra escola, senão não tenho direito às bolsas do governo. Se for preso, vou ter algumas mordomias, só não vou ostentar. Mas quem paga a minha diária é você. E vai rápido que estou atrasado.

Entreguei meu celular, fazer o quê? Estou revoltado, mas a vida segue e o meu ônibus ainda parou fora do ponto. Ainda me chamam de playboy.

Autora: Lika Dutra


"O PT RESSUSCITOU A DIREITA NO BRASIL"


O petismo remanescente deixa um grande saldo de mistificação e rancor.

Tem sido recorrente nesta campanha eleitoral o apelo de partidários do PT à indulgência à corrupção no governo em nome de programas sociais e o repúdio às críticas à presidente Dilma em nome de seu passado na resistência à ditadura.

Talvez algumas pessoas se surpreendam ao saber que participei da luta contra a ditadura, fui preso e torturado no DOI-CODI. Procuro ser discreto em relação a isso, embora não me envergonhe nem me arrependa de minhas posições e ações políticas.
O fato de ter sido preso, torturado, vigiado e perseguido na ditadura não me torna melhor que ninguém nem me dá nenhuma autoridade.

Mas essa experiência me ensinou que não se deve tratar adversários políticos como inimigos nem usar técnicas goebbelslianas contra opositores, repetindo milhões de vezes mentiras com o propósito de transformá-las em verdades.
... Ainda vai ser feito um inventário do estrago que estes 12 anos de PT causou à democracia brasileira. Consertar isso vai ser uma tarefa para gerações. E ainda não conseguimos superar a herança da ditadura...

Pela mesma razão, considero vergonhoso o uso de slogans e discursos de justiça social para justificar o assalto ao estado e ao povo, das bilionárias transações na Petrobras aos desvios de dinheiro da merenda das crianças e do remédio dos hospitais.

Seja qual for o resultado desta eleição, a indigência argumentativa do petismo remanescente deixa um grande saldo de mistificação e rancor. É o resultado da divisão da sociedade em "nós e eles", da desmoralização da política, da mercenarização da militância, da domesticação do movimento social, da transformação da corrupção em política de governo, da demonização dos adversários e desse projeto de "Reich de mil anos", entre tantas outras perversões e contrafações.

Ainda vai ser feito um inventário do estrago que estes 12 anos de PT causou à democracia brasileira. Consertar isso vai ser uma tarefa para gerações. E ainda não conseguimos superar a herança da ditadura.

Muitos petistas se aborreceram com isso e deixaram o partido, a exemplo de Marina Silva, Fernando Gabeira, Hélio Bicudo, Cristovam Buarque e Vladimir Palmeira.

Os petistas remanescentes estão em companhia de Fernando Collor, José Sarney, Garotinho, Jader Barbalho, Paulo Maluf, Katia Abreu, Eike Batista e Fernando Cavendish.
Mesmo assim se consideram de esquerda e chamam os opositores de direitistas. Se refletissem um pouco, perceberiam que o PT perverteu a esquerda e ressuscitou a direita no Brasil.

Altamir Tojal - É jornalista e escritor. Autor do romance "Faz que não vê" e do livro de contos "Oásis azul do Méier".

Artigo publicado originalmente em post do dia 17 de outubro no Blog de Altamir Tojal: http://www.estemundopossivel.com.br/


DALRI
(Histórias que o Rio não contou).

O Rio de Janeiro é uma cidade mágica. Nela você encontra maravilhas, sonhos, alegrias, tristezas e o caos. Pessoas que se aproximam, que se distanciam, que se amam e se odeiam, que se buscam e se perdem, a cada década, a cada ano, a cada mês, a cada dia.

Neste vai e vem, criou-se o mito da divisão territorial que caracterizam as pessoas, como sendo da zona sul e as do subúrbio (zona norte). O marco divisório é o “Túnel Novo” de Copacabana.
É como se você atravessasse o túnel do tempo. Antes dele, uma cidade que trabalha, com princípios familiares rígidos, com religiosidade, clubes sociais, colégios tradicionais, namoro e casamento.

Após, (zona sul) a vida noturna, a boemia, a orgia e a libertinagem. Dizem os moradores mais antigos, da década de 30, que este fenômeno aconteceu, depois que Filinto Muler, Chefe de Polícia do Rio, no Governo Vargas, à época da Capital da República, quando da Revolução de 30, nos anos seguintes, fechou o “Mangue”, que ficava nas imediações da Praça Onze, provocando o deslocamento do baixo meretrício para a Zona Sul, mais especificamente, para Copacabana.

Verdade é, que, da noite para o dia, esta região se transformou no polo artístico e boêmio, de lindas mulheres noturnas, que atraíam pessoas de todo o país e do mundo. Para ali aportavam, ricos empresários, políticos, comandantes e marinheiros, mesclando com a intelectualidade, que a tudo assistia e registrava.

Em meio às luzes da ribalta, surge, Dalri, vinda de algum lugar do subúrbio, para as noites cariocas. Mulher belíssima, morena, com 1,80 metros de altura, de corpo escultural e semblante calmo, a espalhar o desejo da sua companhia, mesmo que fosse para um simples jantar. Vivíamos o final dos anos 50, início dos anos 60.

Copacabana tinha as melhores casas noturnas, com show ao vivo, com o desfile do melhor elenco de cantores, cantoras e músicos, para os frequentadores da mais alta classe social, que transitava entre a intelectualidade, a polis, damas e meretrizes.


Dalri foi uma delas, mas, com muita elegância e discrição. Por ter frequentado várias boates, conheceu uma ex-proprietária de casa noturna, com uma agenda, registrando inúmeros senhores abastados, que lhe remunerava regiamente, em troca de apresentações de belas mulheres. A conhecida “cafetina”. Dentre os clientes, havia um alemão, rico empresário, que uma vez por mês, promovia um jantar para políticos influentes, nos melhores restaurantes de Copacabana, levando em sua companhia a colossal Dalri, que se portava como uma Lady, embora, disfarçadamente passasse o seu cartão com telefone, para alguns escolhidos, deixando a sua agenda repleta, no decorrer da semana, tudo controlado pela cafetina, que, com as comissões recebidas, mantinha um duplex na Avenida Atlântica, por onde desfilavam, Dayse, Margot, Marli, Suely, Vivian, Mayra e tantas outras beldades.

Dalry não assumia nenhum compromisso sério, não queria se prender a compromissos caseiros, muito menos a possibilidade de ter sua própria prole. Morena, dessas que parece que o tempo não passa, continuava belíssima, deslumbrante e desejada. Inúmeras conquistas, dia a dia, distribuía prazer independente de idade, só não se imiscuindo com pessoas do mesmo sexo, por uma questão de opção.

Preferia os homens. Diferente de sua irmã, Eleusa, que frequentava todos os ambientes noturnos, inclusive o L’Ètoile, boate eminentemente preferida das lésbicas. Dalry, era ímpar na elegância, no vestir, no caminhar, mantendo-se em silêncio, quando este era imposto por conveniência e de poucas palavras, apenas para concordar com interlocuções.

A sua juventude parecia perene, até que no final da década de 70, resolveu ir para a Alemanha em companhia de um empresário que lhe acolheu e nunca mais foi vista em Copacabana, território já cansado e distanciado da boemia, das noites de festas e muita alegria.

Levaram Dalry, como levaram os sonhos das noites cariocas, que a aculturação implantada se encarregou de destruir. Não mais o chope gelado, a Taberna da Glória, o Lamas, o Le Rond Point, o Scoth Bar, Fiorentina, Michel, Cangaceiro, Alcazar, Jirau. Resta agora um retrato desbotado, na parede do quarto, de quem a amou e desejou como sua, aquele monumento insuperável de mulher.

Autor: Milton Britto
Feira de Santana, 30 de março de 2014


O QUASE

O candidato à Presidência Eduardo Campos estava no auge da vida pessoal e política. Desapareceu no ar, deixando filhos jovens, uma interrogação na campanha presidencial e um sem-número de piadas de mau gosto. Meu primo Renato seguia reconstruindo a vida com seu entusiasmo quando um infarto deixou o gosto amargo do quase. Seu filho mais novo tinha 4 anos. A esposa terá de refazer não o caminho, mas o destino: o lugar para onde caminhava deixou de existir.

O pai do meu filho foi interrompido em pleno gerúndio. Não teve tempo para ver Francisco além da barriga.

Quase foi o melhor pai do mundo.

A motorista do ônibus mostrava o trabalho à filha pela primeira vez quando um viaduto lhe caiu sobre a cabeça. Assim, feito piano de desenho animado. E fomos torcer pelo Brasil, cuja derrota não foi um quase.

E o cinema acordou sem Robin Williams. Ele, sim, preferiu não acordar mais: uniu-se aos poetas mortos.

O improvável está por toda parte. Os que o respeitam, nem tanto. Tem morrido gente que nunca morreu antes, diria a piada. Porque, isso, sabemos fazer bem. E, enquanto exércitos de vidas seguem às gargalhadas, outras restam devastadas.

Diante do improvável que insiste, alguns persistem em prever a vida. Cultivam cautela, medo e lugares-comuns como quem desbrava um caminho inédito para a imortalidade. Para não engolir um quase sem aviso, revestem-se de quase-escudos, enchendo o tempo de sorrisos vazios. Há os que vivem para os planos ou lembranças. E há os que se atrevem a viver - são loucos, onde estão com a cabeça?

O brasileiro que não desiste nunca é o fantasma do quase assombrando nossa vida. Palavra que nada diz, nada faz, nada conclui. Preguiçosa e sem ambições, mata aos poucos e talvez sem dor. De quase em quase, vamos todos chegando ao final - não por ordem de chegada.

Enquanto isso, felicidade é palavra arisca: vem e vai quando bem entende. É preciso se abrir para ela: fazer a cama, perfumar a casa, afofar o sofá. Pode se esconder sob a poeira da estrada, apertada entre dois dentes ou escorrendo no suor das costas. Não se orna de certezas nem de garantias. Não anseia pelo que vem depois. Seu tempo é preciso e suave. Sua eternidade cabe num segundo.

Para não morrer de quase, há que se jogar inteiro: olhar com a sede da primeira vez e o zelo da última. Cultivar cócegas de medo como quem frequenta montanha-russa. Comprar loucurinhas no supermercado. Surpreender o previsível. Abandonar velhas convicções como quem sai para comprar cigarros. Ter certezas como se não fossem. Abanar as brigas com sopros de riso. Chorar, muitas vezes.

Beijar o tempo. Viver a vida no infinitivo. Para receber o ponto final sem sofrer a saudade do que não foi.

Autora: Cris Guerra
Enviado por: Maura Jacques


ARIANO, ILUMINANDO AS ESTRELAS!

Ao cair da tarde desta quarta-feira, 23 de julho de 2014, o Recife escureceu derramando do céu pesadas lágrimas de despedida do grande paraibucano Ariano Suassuna.

Apesar da tristeza do momento, não poderiam ser tristes, essas lágrimas dedicadas a esse brincalhão por natureza.

Acabara de se encantar o Mestre, escritor, poeta, dramaturgo...

Um artista completo, da alma mais brasileira da cultura popular, mais irrequieta, irreverente, debochada, buliçosa, moleque.

Um eterno caçador da verdadeira alma-identidade brasileira, radical, polêmico.

Não apenas um caçador.

Mas um criador nato dessa identidade-alma do povo brasileiro.

Teimoso, graças a Deus!

Na defesa dos valores nos quais acreditava, Ariano tinha a teimosia da Mulher do Piolho.

Uma de suas histórias mais engraçadas que tive a felicidade de ouvir, numa entrevista que fiz com ele, ao vivo, para rádios do Interior pernambucano, acho que em 1995, 1996, por aí, no Rádio da Secretaria de Imprensa do Governo do seu amigo Miguel Arraes de Alencar.

Certa vez, Ariano disse que gostava mais das histórias que contava em que a polícia saia apanhando.

Eram as que eu mais gostava de ouvir.

Um combatente perpétuo contra a descaracterização da cultura brasileira e a sua vulgarização.

Uma estrela de um brilho do tamanho da luz do sol.

Um Iluminado, iluminante, por natureza.

Sem estrelismo nenhum.

Simplicidade pura!

De gênio! 

Para fazer rir, bastava Ariano começar a falar.

E aí, era só olhar pro seu jeito puro e transparente, que a gente começava a rir, aquele riso leve e espontâneo.

Sem nem saber por que, mas sabendo; porque Ariano dominava, como ninguém, a arte de fazer rir, só pelo seu jeito de falar, de contar as coisas. 

Mal acabou a sua última Aula-espetáculo, no 24º Festival de Inverno de Garanhuns, na última sexta-feira, tendo como tema o seu amigo Capiba, Ariano já está encantando todas as almas do Céu, as boas e as ruins, com os espetáculos de suas aulas geniais.

Um Viva, muitos Vivas a este genial brincante da vida, Ariano Suassuna.

Obrigado, Ariano Suassuna!
____________________________

Autor: Ruy Sarinho, jornalista pernambucano, para Assaz Atroz.
Olinda, 24 de julho de 2014
Enviado por: Fernando Soares Campos


CHARUTO PARA BANGUELAS


A humanidade relaciona aquilo que desconhece ao milagre, à sobrenaturalidade, a Deus ou ao “mistério da fé”. Os avanços da ciência gradualmente levantam a cortina do desconhecido e nos garantem conhecimentos técnicos. Assim acontece em medicina, física, química, arqueologia e tantas outras áreas da ciência.

A astrofísica não ficaria para trás. Daria também passos ambiciosos. Cientistas que trabalham para universidades dos Estados Unidos anunciaram em março de 2014 descobertas sobre o Big Bang, uma teoria da explosão rápida e violenta que supostamente deu origem ao universo 13,8 bilhões de anos atrás. Eles alegaram que um de seus telescópios conseguiu captar “ondas gravitacionais primordiais” e “luzes polarizadas” hipoteticamente produzidas durante o Big Bang. Esta informação lhes permitiria aprofundar o conhecimento sobre o universo em seu estágio inicial.

Alguns meses mais tarde, em junho de 2014, esses mesmos cientistas receberam a crítica de que não é possível ter certeza de que as ondas e luzes a que se referiram provêm do momento fundador do universo. Os críticos dizem que o anúncio desses cientistas não foi prudente porque as ondas podem ter tido origem na Via Láctea, a galáxia em que estamos. Assim, tais descobertas seriam menos ambiciosas.

Às vezes, cientistas anunciam resultados polêmicos e questionáveis de suas pesquisas e publicam-nos em meios de comunicação. Eles têm o propósito de animar debates sobre certos temas, fazer publicidade de grupos e instituições dedicados à ciência, ou simplesmente reiterar mitos do progresso. Numa dessas tentativas, o cosmólogo inglês Stephen Hawking anunciou que buracos negros não são o que achávamos que fossem (o jornal inglês The Independent sintetizou sua reportagem sobre os achados do cosmólogo com a frase “não existem buracos negros” em 25 de janeiro de 2014). Hawking o disse depois de décadas pesquisando sobre buracos negros. Teses propõem-se atrás de teses sobre os mistérios do universo.

É curioso que cientistas perscrutem os mistérios do universo no afã de provar matematicamente que Deus não existe, enquanto sequer conhecem a si mesmos. Esta afirmação não serve somente para cientistas. Buscamos as chaves dos segredos do universo, do planeta Terra, de um país e das outras pessoas, mas desconhecemos as vozes que gritam dentro de nós. Não sabemos de onde veio nossa máquina biológica tão meticulosamente articulada, nem os destinos de seu funcionamento.

Examinam-se ondas e luzes que supostamente tiveram origem há 13,8 bilhões de anos, mas temos tanta dificuldade de entender nossos seres interiores e por que nossas sociedades são o que são. Muito se tem feito para relacionar os conhecimentos fisiológicos aos anatômicos, para entender o funcionamento do cérebro e da luz interna (alma, espírito, consciência, etc.) que comanda o ser, e para entender os processos históricos que desencadeiam protestos, reformas e revoluções.

Não é fácil deixar de falar sobre milagres, deuses e outros mistérios. Uma grande dificuldade tem sido a de transformar convicções em saberes. Outra é a de transformar saberes em conhecimentos, como a do anúncio das “ondas gravitacionais primordiais” e “luzes polarizadas” que acabei de mencionar. Até mesmo o que se publica sob o respaldo da ciência é suscetível a polêmicas e questionamentos.

Vaidades, soberbias e outras inclinações más do ser humano nos colocam numa posição rebaixada diante dos desígnios do Plano Maior. Somos como cegos que querem ver a luz e entender os segredos da criação. Entre os gases intergalácticos, tragamos a fumaça de um charuto que se oferece para banguelas. E confraternizamos a superioridade da ciência, rodeados de um nevoeiro cognitivo.

Fonte: www.brunoperon.com.br
Autor: Bruno Peron


UMA CARTA PARA O RIO DE JANEIRO

Minha Querida Princesinha do Mar,

Em primeiro lugar, desejo que esta missiva chegue e lhe encontre gozando dos privilégios que a vida lhe outorgou desde o seu nascimento, e aproveito para ratificar o conceito dos poetas e compositores, que cantaram a sua beleza, em versos que ainda hoje são atuais – “O Rio de Janeiro Continua lindo/ O Rio de Janeiro continua sendo...” (Gilberto Gil); “Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil/ Cidade Maravilhosa, coração do meu Brasil...(André Filho) e a inesquecível Valsa de Uma Cidade – “Vento do mar no meu rosto/E o sol a queimar, queimar/ Calçada cheia de gente a passar/ E a me ver passar/Rio de Janeiro gosto de você ...” (Antôno Maria e Ismael Neto).

Digo a você, minha querida, que apesar dos pesares, segundo as versões da mídia perversa, que só vê em você, o berço da marginalidade, com seus morros que não são uivantes, mas, são violentos, quando se trata de confrontos entre traficantes e polícia, apesar dos pesares, você continua linda.

Sem lhe avisar ou pedir permissão, fiz-lhe uma visita, porque pretendia passar e passear por caminhos, por mim andados em épocas de aventura, sonho e realidade. Hospedei-me no Bairro do Flamengo, na Rua Ferreira Viana, onde morei por oito anos, em companhia da saudosa e amada Marivone, depois de ter deixado Copacabana, na década de 60, indo e vindo de norte a sul, com os meus compromissos em Copacabana, Laranjeiras, Tijuca, Méier e adjacências.
Você, com seus braços abertos, carinhosamente me recebeu, permitindo a minha circulação com tranquilidade, paz e harmonia.

Aproveitei e visitei os Jardins do Palácio do Catete, recanto aprazível, aberto para o público, que se delicia nas sombras dos arvoredos, nos cantos dos pássaros e no barulho gostoso das águas correntes de suas pequenas nascentes.

Fiquei deslumbrado com a população idosa, que ali encontrei e ainda mais surpreso com esta população espalhada na zona sul, do Leblon à Ipanema, de Copacabana ao Flamengo. No seu trânsito ligeiro pude constatar a organização do tráfego, que permite aos seus moradores e visitantes, o deslocamento regular, sem filas de espera ou tumultos.

Peguei o Metrô que lhe presentearam, saindo da Rua do Catete para a Praça General Osório, logradouro extremamente urbanizado e andei com minha companheira de todos os dias, Eva, que apesar do cansaço, se sentiu recompensada de visita tão ilustre.
Suas praças são urbanizadas, cuidadas e humanizadas, como raramente se vê neste país de governantes descompromissados com o bem público.

A Praça Nossa Senhora da Paz, pouco mudou, lá permanecendo a Igreja em louvor da Padroeira e no seu entorno não mais o Boliche de Mário Prioli, que reunia artistas e amigos em noites memoráveis; não mais o Restaurante Cabana, onde fiz minhas últimas apresentações musicais como profissional, cantando ao violão, de mesa em mesa.

Por lá, ergueram espigões e no local do Restaurante, encontra-se uma garagem. Sei que a sua população cresceu geometricamente e exige este sacrifício de não permitir a beleza das mansões e abrigos da classe média, que gozava da brisa fresca do mar, que margeia o nobre bairro, que serviu para Tom Jobim musicar os versos de Vinicius de Morais, na célebre musica – “Garota de Ipanema” –“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina, que vem e que passa, num doce balanço, a caminho do mar...”.

Não pretendo me alongar nesta primeira correspondência, mesmo porque tenho muito que lhe contar sobre esta minha estadia surpresa, na visita que não lhe avisei, mas que fiquei gratificado.

Em breve, escreverei para lhe falar dos cantos e recantos por onde andei e amei.
Abraços, daquele que por muitos anos foi, carinhosamente, tratado por seus filhos, de cariobano,

Milton Britto


VOCÊ ME "CONHECE"?

Um breve texto sobre o desequilíbrio entre o que pensamos, sentimos e falamos.
Quero neste breve texto tratar de dois assuntos distintos. Divergem, mas se complementam. Equilibram nossos pensamentos e julgamentos. Coloca a gente no devido lugar.

“Você me conhece?” é o primeiro assunto e “Medo” é o seguinte.

O que faz a gente acreditar que CONHECE alguém?

As atitudes? O caráter? A família? A criação? Seus bens? Um olhar? O aperto de mão? O sorriso? Seu abraço? Sua crença? Sua aura? Simplesmente sentimos?

Muita indelicadeza afirmarmos que conhecemos aquela pessoa quando sequer conhecemos a nós mesmo. Pretensão, ainda, seria se enganar na pseudo-certeza de que uma única atitude poderia ditar a integridade de um ser. Pior, injusto seríamos ao não compreender o tempo de cada ser e suas (deles) momentâneas decisões.

Tudo neste mundo se movimenta... Como bem sabemos, a inércia corresponde a morte. Não a morte do ser, somente, mas o desligamento total do que é natural. A evolutiva caminhada mística cujo todos estamos palmilhando.

Mas, não são poucas as vezes que nos deparamos com espontâneos julgamentos feitos por nós. Tampouco são as situações onde somos alvo destes julgamentos que condenamos.

O preconceito é real e existe em todo lugar. Nossa missão é, também, vencer este preconceito que ainda permeia nossas mentes e muitas vezes nos afasta de, talvez, um grande amigo. Talvez aquele que vá transformar a sua vida!

Quem é que nunca se viu em uma situação onde alguém diz:
“Olha lá aquele tal... Hum! Não me parece boa gente. Cuidado!

Ou ainda:
“Olha só aquele “um”. Parece ser um grande homem!”

Ambos casos são preconceitos. Ambos são suposições. Nos dois casos (e na maioria das vezes) relevamos algum fato que nosso passado se encarregou de trazer ao nosso consciente, algo importante e decisivo que criou este julgo no passado remoto.

A velha história do SENHOR DE BIGODE...  Todo mundo tem alguma lembrança de alguém de bigode. Uns lembram do bom senhor proprietário da “venda” que sempre dava, alegremente, algumas guloseimas, quando então, éramos jovens. Outros trazem à tona o episódio da briga que o pai teve com o SENHOR DE BIGODE no trânsito e isso faz com que não seja aprazível um contato, hoje, com alguém com as mesmas características.

O preconceito é iminente e vem à frente em muitas ocasiões.

Há ainda a célebre frase: “Eu conheço ESSE TIPO de gente!”

Engraçado... Lutamos tanto pela igualdade e fazemos este tipo de comentário?

Ouvi um grande homem de destaque em nossa sociedade, dizer que me conhecia:
Leo Cinezi! EU TE CONHEÇO.

E eu disse ao bom homem:
QUE BOM! Me ajude a resolver um grande dilema vital! Me apresenta pra mim, então, pois eu não me conheço ainda.

Ele sorriu e juntos, continuamos a filosofar acerca do assunto... (Conto em outra oportunidade)

E, arrisco um “IMPOSSÍVEL” de se conhecer total e plenamente. Somos dotados de energia volátil. Somos sutis em momentos e agressivos em outros. Esta variável se faz necessária para aprendermos, cada vez mais, a PROCURAR nossa real essência. Pesquisa íntima por caminhos escabrosos que nos é apresentada pela somatização de passado, futuro e presente (e talvez, sob influência de vidas remotas). Cada qual vivencia SUA própria experiência não havendo sobremaneira um julgamento alheio. Mas é fato: Aquele que procura em você vossos defeitos é porque conhece-os bem, nele próprio!

Quando garoto, iniciei-me nos estudos (gosto de chamar de) alternativos. Li bastante, montamos grupos de discussão. Ingressei em alguns outros. Fui iniciado em "Ordens". Estudei Mitologia Grega em um grupo de estudo onde fazíamos paralelos das demais mitologias tentando compreender a similaridade entre tantas. Fiz a faculdade da vida, que ainda curso e sou repetente. Tanta coisa ocorreu que seria impossível descrever, mas mesmo assim sempre tem um que chega e diz que me conhece. E o pior: Sempre dizendo algo que exclusivamente cabe para ele próprio.

Sou à favor do que chamo de EXPECTATIVA ZERO! Desde uma entrevista de emprego, ou qualquer outra, de um encontro com uma garota até para com o resultado da reunião da tarde com meus superiores. "O futuro foi agora... Tudo é invenção. Ninguém vai saber de nada." Mas todos saberão do que passou. "Tudo por acaso, por atraso. Mera diversão", como diria o compositor Lenine.

Se, ante às expectativas, mantermos nossa freqüência baixa (com menor oscilação, poderemos nos surpreender com qualquer resultado que tende à aparecer. Já, aqueles que mantêm grandes expectativas (grandes ondulações frequenciais), fatalmente se frustram.

É tão mais fácil deixar o futuro nos mostrar o que será presente e depois de passado, remoto.

É um bom exercício que, inclusive, faz a vida mais VIVA, mais intensa, SEMPRE e não apenas quando esperamos que algo aconteça.

D´onde venho, é costume dizer “O que é teu, o boi não lambe!”...
Não sei bem o que significa isso, mas interpreto como sendo O QUE TIVER QUE SER, SERÁ.

Relaxa, mano! Com ou sem sua expectativa, VAI ACONTECER. Tranquilize-se. Se não for agora, e for SEU, mo será em breve.

MEDO
E o medo é o maior inimigo desta tranqüilidade.

O medo de sentir "medo" do que pode acontecer. Medo do sol, pois pode queimar nossa pele. Medo da chuva, porque vai molhar a roupa no varal. Medo do "Não" da garota. Medo de ser demitido. Medo de não conseguir uma recolocação. Medo de não ser aceito. Medo de ser discriminado. Medo do medo.

Medo de errar?
Por quê?
Errar é uma dádiva somente àqueles que "tentam".

Os que pouco erram é porque tentam pouco.
Infelizmente “as coisas” acontecem do lado de fora desta zona de conforto que insistimos em criar. Mesmo quando damos um passinho pra fora, logo poderemos nos ver de novo em uma rotina confortável.

E qual a diferença entre você e aquele que, por algum motivo, você admira?
NENHUMA!

Ele é, assim como você, passível de erro só que mais ousado (ou determinado?!?) em determinado assunto. Talvez seja a responsabilidade (cito: habilidade para dar uma resposta) ou ainda a sorte (quando a oportunidade encontra alguém preparado) que difere. Talvez, pense que seja o DNA, o berço de ouro, ou a escola em que estudou. Ou nada disso...

Medo?!?
De quê?
Morrer?
Quem tem medo de morrer acaba vivendo com medo.

O medo da morte deixa a VIDA sendo um só MEDO. A única certeza é a morte, meu caro. Não temas. Prepare-se para ela. Encontre-se com ela. Entregue-se para ela. Ela é sua amiga! Sua aliada. Aos que estudam o xamanismo, a morte SEMPRE o acompanha a distância de um braço e atrás dele. Os mais estudiosos (preparados) conseguem, inclusive, ver a própria morte, olhando para trás e para a esquerda repentinamente. Ela SEMPRE esteve com você! Nem por isso você morreu.

No passado era um desrespeito, até um crime, dar "condolências" aos parentes de um morto. Era uma ofensa. No entanto, reuniam-se para falar sobre o morto e colocar a morte como exemplo para a vida.

E... O que vem depois?
Ah! Já sei...
Medo de descobrir, né?

Bom seria se as expectativas fossem aqui, também, eliminadas. Assim, o que tiver que ser, será. E sua passagem por mais esta iniciação será mais branda e sua atenção proverá maiores ensinamentos.

Mas... Quem saberá? Nada sabemos! E isso é o que nos motiva nesta possível busca da verdade. Não existem caminhos, mas sim formas de caminhar. Aos que praticam a serenidade, meus cumprimentos. Aos que têm expectativas à flor da pele, um alerta:
VOCÊ VAI MORRER!

Um Dia!

Tente se conhecer melhor. Ouvir seu corpo. Ele fala com você o tempo todo. Não tenha medo de se tocar, se ver, se conhecer melhor. Ouça sua respiração, batidas cardíacas. E, quando estiver pronto, entregue-se para seu mestre interior e ouça com atenção suas últimas lições deste plano. Será mais uma iniciação... E você já passou por várias.

Boa VIDA! Escute seu corpo. Ele fala com você. Agora mesmo, quando você está lendo, ele está falando com você. Pelos vossos olhos a luz, no cérebro a decodificação destes símbolos aos quais chamamos de letras. Com a mente vem a compreensão e na alma, o calor da inspiração! Ouse fazer e o poder lhe será dado. Boa vida!

Autor Mestre
Enviado por: Valdir Quirino


FERNANDAS,TÔNIA, LAILA, MAFALDA...

Anda tão difícil encarar o Brasil, seus governantes, suas mumunhas, que, na impossibilidade de fugir fisicamente, tenho procurado escapar dos problemas e das mazelas me refugiando nas artes. Porto seguro e enriquecedor. Melhor não há. Não há nada melhor do que o escurinho do cinema ou do teatro para nos dar momentos de deleite e, no caso dos brasileiros, propiciar algumas horinhas de sossego, alguns intervalos pra gente poder tomar fôlego para aguentar o tranco diário.

Nesses últimos dias fui ao cinema ver Blue Jasmine, Álbum de Família e Philomena, nos quais brilham Cate Blanchett, Meryl Streep, Julia Roberts e Judi Dench; fui ao teatro assistir Elis, a musical, palco para o extraordinário talento da pequena Laila Garin.  Em cada um desses programas, puro prazer, êxtase total, sobretudo pelas soberbas atuações de cada uma dessas mulheres. Da neurótica viciada vivida com a garra de sempre por Mrs. Streep à comovente ( e quase ordinária) Philomena de Judi Dench; da destrambelhada nouveau riche de Cate Blanchett a uma Julia Roberts despida de sex appeal,  fechando com a visceral Elis Regina da excelente Laila Guerin, todas me fizeram pensar na arte de representar e em como as mulheres – aqui e lá fora – mandam bem no quesito. Não que os rapazes façam feio, absolutamente, mas hoje quero falar delas.

Há muitos anos, meados dos 70, quando me iniciava na profissão, fui escalada pelo querido Leonel Kaz ( tão ou mais jovem do que eu e sempre genial),  na redação da revista Pais e Filhos, para entrevistar Fernanda Montenegro. Lá fui eu bater à porta da Rua Frei Leandro, no Jardim Botânico, onde ela vivia com o marido Fernando Torres e os dois filhos, Nanda e Claudio, numa aconchegante casa. Lembro-me como se fosse hoje da mulher elegante, com essa voz poderosa que o tempo não alquebra, falando sobre a vida em família, crianças, educação, cercada em seu escritório por desenhos feitos pela Nanda, na época uma meninota de 7, 8 anos, não mais.  É claro que uma criança criada por uma mãe deste calibre, com esse tipo de cuidado, do afeto que também é mola incentivadora, só pode dar no que deu: se a mãe é a grande dama do teatro brasileiro, a Nanda vai além. É atriz extraordinária, é escritora de grande talento, canta muito bem ( testemunhei os dotes vocais em sarau na casa de Jorge Bastos Moreno), arrasa em todas as posições, e ainda se equipara à própria mãe no cuidado com os filhos. Esses meninos ainda vão dar o que falar, podem crer. Claudio Torres, o irmão, é talentoso e premiado cineasta. Fernandona brilhou no quesito mãe como brilha a Dona Picucha,  a deliciosa mãe de todos nós, no seriado da televisão.

Tônia Carrero. A atriz brasileira mais bonita de todos os tempos. Uma querida que adorei conhecer e de quem mato a saudade, hoje, vendo a reprise de Água Viva, onde ela deu vida a uma das grandes personagens de Gilberto Braga, Stella Fraga Simpson – uma bela mulher, já madura, rica e absolutamente carente. Os invejosos costumavam desdenhar do talento de Tônia. Ela fez uma Navalha na Carne inesquecível e calou a boca de muita gente.

Longe de esgotar o assunto num país em que talento das nossas atrizes felizmente suplanta o desditoso dia-a-dia, aproveito a Água Viva do Gilberto para chorar a ausência de mulheres que fizeram a diferença, como Eloísa Mafalda (refém hoje do maldito Alzheimer) e Tetê Medina, uma ausência inexplicável nesses tempos em que se escala atriz de 60 para ser mãe de mulher de 50. Sumiram também com a Betty Faria, com a Tamara Taxman, com a Jacqueline Laurence

É uma pena. O talento, a arte de representar se depura com a idade, a experiência – basta assistir Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira, Judi Dench ou Maggie Smith. Discussão bizantina em país de BBB. E vou parar por aqui, antes que me irrite e enterre todo o prazer que os grandes atores me deram nos últimos dias.

Fico feliz pensando que logo mais vou fechar a semana comme il faut: assistindo a insuperável Nana Caymmi com os manos Dori e Danilo. Por essas e por outras, ainda vale a pena ser brasileiro e viver neste Rio de Janeiro, a cada dia mais esculachado e violento. Como cantava o velho Dorival, “eu vou pra Maracangalha, eu vou”.


Autora: Anna Ramalho
Enviada por Matilde
Fonte: www.annaramalho.com.br/cronica-da-semana


SOLIDÃO ATAREFADA E AUTOCONHECIMENTO, EIS UM CAMINHO PARA A REDENÇÃO

Muitos são os conceitos sugeridos para designar o sentimento de solidão, entre os quais podemos observar opiniões antagônicas ou simplesmente díspares, porém complementares entre si. Isso acontece entre os que exaltam os momentos de solitude, eventualmente necessários a qualquer ser humano, ou mesmo entre aqueles que os abominam, temem e se esforçam para evitá-los.

Existem os que acreditam que a solidão seja a condição mais autêntica, digna e aprazível de se viver.

Vejamos alguns exemplos: “Jamais encontrei companheiro que me fosse mais companheiro que a solidão” (Henry Thoreau).
“A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais” (Arthur Schopenhauer).
“A mais feliz das vidas é uma solidão atarefada” (Voltaire).

Em Thoreau podemos até identificar a fonte de inspiração de Nelson Rodrigues ao dizer que “a pior forma de solidão é a companhia de um paulista”. Do que certamente Vinicius de Morais discordou quando disse que “mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão”. E Erasmo Carlos corrobora tal afirmação com o dito de sua avó: “Antes mal acompanhado do que só”.

Schopenhauer, com essa frase aí, apenas confirma a impressão que muitos dos seus ditos me causaram: tornou-se um velho ranzinza; gênio, sim, mas ranheta. Muita gente acredita que a intolerância é uma característica própria dos gênios, mas creio que, apesar de alguns deles revelarem tal comportamento, isso, pelo contrário, turva a genialidade, impede o gênio de manifestar suas ideias com clareza. Se a intolerância fosse atributo da genialidade, a afabilidade seria a qualidade precípua da idiotia (idiota não é afável, é subserviente). Evidente que ser tolerante não significa anuir a injustiças ou comungar com todos os credos ideológicos. Ser tolerante é suportar as adversidades sem assentir naquilo que se pode considerar injusto, é saber identificar o que é relevante e reconhecer o momento oportuno da ação.

Voltaire me parece mais próximo da razão, pois procurou dar sentido à solidão a que qualquer um de nós pode ser submetido, voluntaria ou involuntariamente. Creio que, se conseguirmos preencher os momentos de solidão com afazeres úteis, nem mesmo poderemos dizer que isso se caracteriza como momentos de solidão. A verdadeira solidão só ocorre quando sentimos que nós mesmos somos nossa pior companhia, angustiados pela falta de resposta aos nossos questionamentos existenciais. Solidão pode ser a falta de companhia, porém, mais que isso, é o vazio de ideias e a inação.

A frase de Voltaire pode ser considerada como prescrição para o combate a um dos males que hoje assola a humanidade: a depressão.

Solidão rima com meditação


Aproveitemos os momentos de isolamento ou simples distanciamento do convívio social para nos concentrar sobre a análise dos nossos próprios sentimentos, ideias e comportamentos. Tentemos conhecer um pouco mais de nós mesmos.

A sentença “conhece-te a ti mesmo” é invariavelmente reconhecida como uma máxima socrática, relativa à filosofia de Sócrates, visto que ele a adotou como norteadora de seu comportamento, mas não podemos atribuir a Sócrates a formulação do conceito veiculado por essa expressão. Até mesmo a íntegra da sua construção gramatical (com os termos em nosso idioma) está conforme o translado de inscrições registradas em períodos anteriores à existência do consagrado filósofo grego. Portanto, não se trata nem mesmo de paráfrase de Sócrates, menos ainda de sua própria conclusão por raciocínio e autorrevelação (insight) nem por revelação mística. Nesse caso específico, o mérito do pensador fica por conta de sua capacidade para reconhecer a legitimidade do enunciado, que prescreve uma condição imprescindível a que possamos identificar no nosso próprio comportamento atitudes moralmente virtuosas ou degenerativas. Só assim podemos corrigir nossa trajetória evolutiva, melhorar nossos relacionamentos interpessoais e nos aproximarmos cada vez mais das verdades que possam nos esclarecer sobre a realidade e propósitos de nossas existências.

Creio que não gostamos de meditar sobre nós mesmos porque tememos descobrir que permanecemos estacionados sobre escombros de desejos, sentimentos e conceitos arcaicos, tudo recauchutado, com cara de novo, mas tão velho quanto os primórdios da chamada civilização. Vivemos de aparências, compramos e vendemos aparências.

Harmonia das funções mentais

Para compreender e aceitar as prescrições de um “conceito”, seja “moral” ou “científico”, utilizamos toda a complexidade das nossas funções mentais, em que se envolvam o processo cognitivo, a volição e a afetividade.

Entretanto, para admitir a idealização de uma mensagem “moralizante”, precisamos raciocinar empreendendo esforço necessário à harmonização dos distintos elementos da nossa estrutura mental:

a) Cognição, procedendo ao encadeamento lógico de nossos conhecimentos e experiências e explorando ao máximo um conjunto de faculdades subsidiárias (atenção, percepção, memória e imaginação);
b) Volição estimulada por desejo autêntico e específico propósito; e
c) Afetividade sob controle, tentando harmonizar a relação entre os sentimentos e emoções e, na medida do possível, reduzir suas intensidades e durações, minimizando, assim, suas influências sobre o desejo ― impulso psíquico determinante da atividade volitiva.

Creio, porém, que, nos processos de compreensão e consequente aceitação de um “conceito científico” das chamadas ciências exatas, o “controle da afetividade” não precisa ser exercido com o mesmo rigor aplicado quando da interpretação de um “conceito moral”, visto que, no caso científico, tendemos a mobilizar os sentimentos pelas suas faces positivas (otimistas). Por exemplo: a coragem sobrepondo-se ao medo, podendo assumir características de arrojo; a alegria afastando elementos geradores de tristeza e desânimo, podendo atingir grau de euforia.

Na busca pelo aperfeiçoamento moral, nem sempre podemos imprimir no desejo sentimentos com a mesma intensidade a que estamos habituados (ou viciados) a manifestá-los, pois isso pode se constituir em verdadeiras armadilhas mentais. E é por isso que, ao tentar nos conhecer a nós mesmos, podemos fracassar sem perceber os subterfúgios em que nos enredamos, em função da intervenção de elementos subconscientes.

“Depois de ter dado abrigo ao Mal, ele não mais pedirá que você acredite nele” (Franz Kafka).

A luta para domar o Mal dentro de nós mesmos é, provavelmente, a mais importante virtude humana. Domar já seria um grande feito; extirpar é tarefa mais árdua, além de perigosa, pois aquele que entre nós for identificado como um autêntico purificado será consagrado líder dos demônios.

O esforço para praticar virtudes deve ser precedido pela luta contra possíveis deformações que possam ter-se incorporado aos nossos comportamentos. Se assim não procedermos, estaremos na condição de quem quer ter saúde sem combater uma grave enfermidade que já ameaça a sua vida.

Se algum de nós já não sente qualquer impulso para a prática do Mal, conforme os conceitos ditados pela nossa consciência, contrapondo-o ao que possa vir a ser o Bem, então esse alguém já não pertence à categoria humana, sublimou-se, já alcançou esferas muito mais elevadas, extrapolou a perfeição moral relativa à vida na Terra. Se estiver aqui entre nós, encontra-se na condição de missionário divino (Sócrates dizia, com todas as letras, que era um enviado de Deus, mas não se sentia um anjo purificado).

Como um missionário divino, santificado, poderia viver entre nós, almas potencialmente corruptas? Seria agindo como um ser ainda em conflito com a formação do seu caráter, como nos encontramos aqui na Terra? Não. Ele seria compreensivo, entenderia a fraqueza humana e, por isso, toleraria o convívio com o criminoso, mas sem justificar o crime cometido.

Desconfie das virtudes

Certa ocasião, eu ainda era muito jovem, meu analista me perguntou: “O ser humano ri porque se sente feliz, ou se sente feliz porque ri? Choramos porque ficamos tristes, ou ficamos tristes porque choramos?”

Naquele momento tive o impulso de dizer que rimos porque nos sentimos felizes e choramos porque ficamos tristes, mas me contive, pois outras indagações assomaram à minha alma semipensante: “O homem fica feliz por suas vitórias no campo de batalha, ou pela derrota do seu adversário? Ficamos tristes porque perdemos a batalha, ou porque o adversário venceu?”

Aparentemente, tudo isso aí tem o mesmo sentido. Mas as aparências enganam.

Aquele que se autoproclama honesto até no controle de suas mais irreprimíveis emoções diria que sua felicidade se concentra totalmente em suas próprias vitórias, conquistas, feitos, méritos e supostas virtudes pessoais. Jamais admitiria que um prazer mórbido insiste em comemorar o fracasso alheio; ou que, no recesso de sua consciência, lamenta o triunfo de um daqueles a quem ele chama de “amigo”.

Ao nos voltarmos para dentro de nós mesmos, busquemos, de imediato, entender que só evoluímos quando identificamos nossos próprios pecados; não, o dos outros. Se encontrar alguma virtude, desconfie, pois estamos vivendo a Era da Regra Três, em que menos vale mais, o avesso do avesso das inversões de valores: quanto mais idiota mais aclamado.

Às vezes algumas pessoas sentem-se tão incomodadas aqui nesta nave que erguem os olhos, estendem os braços para o céu e suplicam ao Piloto: “Pare o mundo, que eu quero descer!”. Prenhes de razão, pois há momentos em que tudo parece perdido. Mas eu tenho feito exatamente o contrário: peço a Ele que me dê mais um tempinho, me conceda só mais um átimo da eternidade. Preciso entender por que e para que estamos aqui. Por que quero saber?! Bom... é... para poder... é... quer dizer... Ah! Sei lá!


Autor: Fernando Soares Campos

MÃE DESNECESSÁRIA

A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo. Várias vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase, e ela sempre me soou estranha. Chegou a hora de reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos. Uma batalha hercúlea, confesso. Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que todas temos dentro de nós, lembro logo da frase, hoje absolutamente clara.

Se eu fiz o meu trabalho direito, tenho que me tornar desnecessária.

Antes que alguma mãe apressada me acuse de desamor, explico o que significa isso.
Ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também. A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho.

Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não para de se transformar ao longo da vida. Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo. O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis.

Pai e mãe - solidários - criam filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão.

Ao aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar.

"Dê a quem você Ama:
- Asas para voar...
- Raízes para voltar...
- Motivos para ficar... "

Fonte: Diversos Sites
Autora: Márcia Neder Bacha é psicanalista e pesquisadora da UFMS e da USP/NUPPE.
Doutora em Psicologia Clínica e autora de Psicanálise e Educação – Laços Refeitos e A arte de formar: o feminino, infantil e o epistemológico.


QUANDO A TRISTEZA CHEGAR

Tristeza é coisa pra se encarar. Não adianta tentar fugir, sem olhá-la, sem reconhecê-la, sem chamá-la pelo nome, porque ela costuma nos alcançar de novo quando cansamos de correr. Não adianta enxotá-la porta afora, sem ouvir o que quer nos contar. Ela finge que vai embora, mas fica lá no cantinho da gente, escondida, sem dar um pio, deixando que continuemos a mentir um bocado para nós mesmos. E quando a gente está todo prosa achando que ela já foi, ela surge diante de nós e nos pergunta se já podemos lhe dar um pouco de atenção.

Tristeza é coisa pra se assumir. Não adianta colocar-lhe à força um nariz de palhaço para disfarçá-la. Enchê-la de purpurina, confete e serpentina, e exigir que sambe no pé o último samba-enredo da escola do coração. Não adianta tentar embriagá-la, porque, depois da ressaca, ela costuma acordar ainda mais chata. Chatíssima, aliás. Não adianta tentar seduzi-la com rodízios de pizza, feijoadas e churrascos. Ela vai comer tudo, empanturrar-se, e depois do café e da soneca vai bater em nosso ombro, a pança cheia, e nos dizer que ela não é boba nem nada.

Tristeza é coisa pra se olhar. Não adianta fazer de conta que ela não está lá, olhando pra gente com aquele olho comprido de quem quer colo. Com aquele ar de passarinho com dor de garganta. Com aquela cara de dia cinza em que não bate sol no nosso quintal. Podemos não gostar do clima que ela tem. Das coisas que nos revela. Dos medos que desperta. Do itinerário dos seus dedos, que apontam dores que ainda não foram curadas. Não dá para ignorarmos que também faz parte da vida. Que, querendo ou não, em algumas circunstâncias vamos mesmo encontrá-la.

Muitas vezes eu me flagrei tentando fugir da tristeza com os recursos mais absurdos. Alguns, até patéticos. A nossa maneira de lidar com as emoções, de vez em quando, é realmente cômica. É claro que a gente só ri depois que passa. Sobretudo, depois que entende. E rirmos de nós mesmos, dos nossos disfarces, das armadilhas, das limitações, tem lá o seu lado positivo, desde que a gente não exagere nessa prática como uma forma a mais de escapar do sentimento.

Tentamos abafar a voz da nossa tristeza em diversas circunstâncias. Da tristeza e também do medo, da carência, da raiva, da sensação de que estamos separados das coisas. Tentamos fingir que não estamos percebendo. Que não é com a gente. Dispomos de uma série de fórmulas testadas e aprovadas para fazer isso com eficiência. Algumas ainda dão certo; outras, não mais. O problema é que quando ignoramos a tristeza ou algum desses outros sentimentos embaraçosos, conseguimos apenas potencializá-los em nós.

A única coisa que a tristeza quer é que criemos espaço para ouvi-la e acolhê-la. Para saber porque está doendo. Para lhe oferecermos olhar e cuidado. É assim que ela começa a esvaziar e a se transformar na ação às vezes necessária. A coragem de assumir que estamos tristes, quando a tristeza chega, não implica permitir que ela nos escravize, a não ser que essa seja a nossa escolha. Ela é uma nuvem que passa, somos o céu que fica.

Autora: Ana Claudia Saldanha Jácomo, Do livro "Parto de Mim", 2001
Enviado por: Lika Dutra


RÁDIO DA VOVÓ

Se contarmos, hoje, aos nossos netos, como foi nossa infância eles acharão que fomos crianças desinformadas e infelizes. ”Sem televisão e computador (nas suas diversas apresentações), como alguém poderia sobreviver?” - certamente todos os nossos jovens geniozinhos da Informática não conceberão um absurdo destes.

No entanto, meus carinhos leitores informatizados, nossa geração legou para a de vocês um embrião valioso, marcado por letras e números incompreensíveis para os leigos. Eram os prefixos das estações de rádio e que ainda perduram. Lembro-me de apenas um: PRF9 – Rádio Difusora de Porto Alegre.

Reportando-me à Capital gaúcha, no final dos anos 40 tínhamos as rádios: Difusora, Farroupilha e Gaúcha – hoje pertencente ao grupo RBS. A Rádio Farroupilha ficou muito marcada na minha lembrança pelo seu famoso Grande Teatro Farroupilha, que produzia peças radiofônicas de autores brasileiros, inclusive locais, ou adaptava obras internacionais, que eram apresentadas em três tempos, nas noites de domingo.

Cândido Norberto, Walter Ferreira, Tânia Maria, Alice Aveiro, Peri e Estelita Bell (que migraram para o Rio de Janeiro), Cláudio Real e outros tantos, que não recordo os nomes faziam as famílias interromperem os serões para acompanhar os enredos dominicais. Havia, também, as novelas que hoje são chamadas de minisséries. As músicas apresentadas nesses rádio espetáculos eram de compositores brasileiros e gaúchos, quando o tema era do Rio Grande do Sul.

No humor, nos divertíamos muito com “Os Serões de Dona Generosa”, uma sátira da família, onde despontava o “negrinho” Cláudio Real (na verdade, Fábio Rocco, amigo da nossa família). O programa contava as “gags” criadas para divertir os serões da hilária senhora, com direito a um gago, um moleque que aprontava revelando as fofocas da patroa, um padre e uma empregada que era orientada a “atrasar” o café com bolinhos e o doce, que nunca eram servidos, para o pessoal ir embora sem comer nada. O bordão era: “Bernardina, traz o doce (ou café)...” e a tal Bernardina jamais aparecia.

O Rádio era o único veículo popular que havia naquele tempo e não era muito acessível, numa época em que não havia crediário. Quem quisesse comprar qualquer coisa precisava ter o dinheiro na mão. Um aparelho transmissor, nos anos 40, era artigo quase que de luxo, quase como o refrigerador. Meu pai adotivo, Carlitos, certa vez conseguiu um aparelho e o levou para casa. Era uma caixa grande, com o tal “olho mágico”, na realidade o dial com as configurações das emissoras e outros detalhes que nem lembro mais.

Quando o Repórter Esso fazia seu famoso toque de caixa, a criançada já sabia que deveria fazer o máximo silêncio para os grandes ouvirem as notícias do Brasil e do mundo. Naquele tempo, as notícias da guerra ou do pós-guerra chegavam com um atraso que ninguém podia evitar, pois as comunicações estavam no início.

Minha avó Mimo, além do Repórter Esso, acompanhava, durante a semana, em dias alternados, as novelas radiofônicas pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, e Tupi, de São Paulo. Eram apenas 15 minutos e, geralmente, à tardinha. Atores que a televisão apresentou, muitos anos mais tarde, como Gianfrancesco Guarnieri, Mário Lago, Vida Alves, Paulo Gracindo e outros eram remanescentes da Era do Rádio.

As novelas tinham uma força muito grande e seus títulos marcantes, como “Esmeralda do Vale das Sombras”, “O Despertar da Montanha”, “O Peso de uma Consciência” e a mais extensa e complexa: “Ana Maria”. Essa última era muito interessante. Narrava a história de uma jovem interiorana que se apaixona (e é correspondida) por Carlos Machado, filho do Coronel Machado, caudilho da cidade de Machadópolis. O enredo contava casos de amnésia, dupla personalidade, racismo e muito amor.

O patrocinador da novela era o Leite de Magnésia Phillips e, mesmo sem precisar, Vó Mimo comprava os vidros do laxante, pois enrolado no frasco vinha o mapa da cidade de Machadópolis, que mostrava todos os pontos citados, como as casas dos personagens, praça, igreja, enfim tudo detalhadamente. Acredito que nunca mais o Laboratório Phillips vendeu tanto...

Fazendo o seu delicado crochê minha avó acompanhava os quinze minutos diários na Rádio Nacional e sofria ou se alegrava com a saga da pobre heroína até que, sem mais, nem menos, a novela sumiu. Acho que isso aconteceu, se não estou enganada, depois do patrocínio do Leite de Magnésia pois algum tempo depois, a Tupi anunciava a “volta de Ana Maria”, sem interrupções, com outro patrocinador. Coisas do merchandise...

Voltando ao humor, nos anos 40/50, as Rádios Nacional e  Tupi despontavam com programas inesquecíveis – alguns deles chegando à televisão e fazendo história. Considero a dupla Lauro Borges e Castro Barbosa, com sua variada PRK-30 precursora de Chico Anísio, o qual, sem dúvida, foi o maior humorista do mundo, em todos os tempos. Embarcando nas memórias de Adolpho Adduci, sobre a PRK-30, transcrevo o que ele escreve:

“Pela poderosa onda da Rádio Nacional do Rio de Janeiro chegava um programa chamado PRK-30, transmitido a todos os lares brasileiros, todas as sextas-feiras às 20h30min, apresentado pelos humoristas Lauro Borges e Castro Barbosa, que nos alegrava. Os dois humoristas faziam mais de 20 tipos: imitavam correspondente internacional, calouros, cantores, contavam piadas, notícias e faziam trocadilhos.

Era como se estivéssemos ouvindo, nos dias de hoje, uma rádio pirata. Havia o locutor Otelo Trigueiro (Lauro Borges) que, com sua voz melodiosa, fazia o "Boa Noite" em tom poético com os seus momentos românticos, havia também o Megatério Nababo de Alicerce (Castro Barbosa), a fadista Maria Joaquina Dobradiça da Porta Baixa que gostava de cantar "A Sapinha da Lagoa" - A sapinha da lagoa quando canta, faz choraire, a sapinha da lagoa faz choraire... Oh! minha senhora, parece que o disco está arranhado ou a senhora ficou gaga... O Português bigodudo e muitos outros personagens.

As propagandas que faziam durante o programa eram inventadas por eles, me lembro: "a e i o urso - o melhor calçado da praça...", "Milharal, milharal, é melhor e não faz mal - Café Milharal. Moído na cara do freguês...". "Se os seus mamões estão caindo... Use Mamoex.", numa referência ao Mamex, o silicone da época, e muitas outras que me fogem da memória. Eles faziam sátira das novelas e eu ficava ouvindo; não só eu como toda minha família em torno do rádio e dando muita risada, o início era aberto com "Ao abrir esta suave gongada, entra no ar, como se fosse uma barbuletinha dourada, a PRK-30"!, pena que nos dias de hoje não exista mais esse tipo de programa; fez tanto sucesso que ficou no ar por mais de 20 anos sempre dando muita audiência. Lauro Borges e Castro Barbosa eram geniais. Autor: Adolpho Adduci

Já nos anos 50, em Porto Alegre, a Rádio Farroupilha apresentava um programa de “trovas gauchescas” - em nível de desafio – no auditório da Sociedade Espanhola, na Rua Andrade Neves. Eram cantadores famosos que vinham de vários pontos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina e algumas vezes as trovas ficavam ofensivas e dava briga, de verdade. Mas, sempre havia um mediador para acalmar as coisas...

Também dessa época o divertimento das segundas-feiras, na Rádio Gaúcha, um grupo de humoristas fazia um comentário sobre os jogos de futebol do final de semana, através do “Campeonato em Três Tempos”, com a almejada “Miss Copa” (Lourdes Rodrigues), Walter Broda, com sotaque alemão representava o Grêmio; Pinguinho(Internacional); Paixão Côrtes (Guarani, de Bagé) e outros atores cada um representando um time gaúcho. O bordão de Côrtes era: “perdemo do jogo, mas ganhemo no pau...”pois sempre dava pancadaria quando o jogo era em Bagé.

A televisão chegou e diminuiu um pouco a nossa imaginação, pois já recebíamos tudo lindamente “empacotado”. Foi-se a ilusão de que uma linda voz pertencia a um belo galã. A chuva é chuva de verdade, ou cênica, mas é água mesmo. A velha sonoplastia deixou de ser uma arte, pois a moderna nos traz os sons naturais em pen-drives fáceis de lidar.

A magia terminou, mas não dispenso meu querido rádio de cabeceira e ainda ouço alguns programas saudosistas, teimosamente produzidos por queridos saudosistas persistentes.

Autora: Ivonita Di Concílio/2013


MANÉ GARRINHA POEMAS E CRÔNICAS

Mané e o sonho
Carlos Drummond de Andrade 

Se há um deus que regula o futebol,
esse deus é sobretudo irónico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados
incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios.
Mas, como é também um deus cruel,
tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino.
Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas.
O pior é que as tristezas voltam e não há outro Garrincha disponível.
Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.
a multidão contrita.

O anjo de pernas tortas
Vinícius de Moraes

A um passe de Didi,
Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.
Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés - um pé-de-vento!
Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e atende: - Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um O Dentro da meta, um L.
É pura dança!

A alegria do povo
Carlos Mariguela

Uma grande jogada pela ponta direita,
o balão de couro como que preso no pé.
Um drible impossível...
Garrincha sai por uma lado, e o adversário se estatela no chão.
Gargalhada geral, o Maracanã estremece...
Lá vai o ponta seguindo,
os holofotes varrendo de luz o gramado,
o balão branco rolando,
seguro nos pés do endiabrado atacante.
Voa Garrincha, invade a área contrária,
indo até à linha de fundo para cruzar...
E as redes balançam, no delírio do gol.
Garrincha! Garrincha!
A alegria do povo, no balé estonteante do futebol brasileiro.

Garrincha
Marco Guimarães

Ele tinha a perna torta perna troncha,
distorcida perna errada, perna virada
invertida, dobrada, partida era como fosse uma perna por uma bala atingida
mas a bala que é a morte ele a transformara em vida e virava a bala em bala de chupar,
multicolorida ou virava a bala em bola elétrica, trica, divertida.

Fonte: http://espacogarrincha.blogspot.com.br


CRÔNICA DA CIDADE

Escutem, por favor!

As imagens mostram um corre-corre na Esplanada. Quem eu mais amo está entre os manifestantes e eu me orgulho disso, embora meu peito esteja do tamanho de um botão. Problema meu, não dele. Mudei de lugar, e eu que me resolva.

Participei de um sem número de manifestações, como estudante e como repórter, desde o fim da ditadura até a primeira eleição de Lula. Experiências que me deixavam o peito do tamanho do Sol — eu não era mais uma unidade, estava corporificada na multidão. Era a plenitude, o que me colocava numa situação de perigo — e só agora, que estou do outro lado, me dou conta disso. Saber-se poderoso é perigoso, mas é preciso aprender a lidar com o risco. A participação nos protestos deste junho de 2013 é uma aula obrigatória de cidadania.

Entre as muitas lições que esses surpreendentes acontecimentos estão oferecendo ao país, e aos políticos em especial, uma delas é a de que é preciso saber ouvir (e em tempos de web, saber escutar o que dizem as redes sociais. Não à toa, a Abin criou às pressas um núcleo para acompanhar os movimentos na internet). E o primeiro quesito para a audição é a humildade. Os donos da verdade costumam ser surdos. Sabem de tudo, têm explicação para tudo. Não sabem perder, recuar, reconhecer o erro, engolir a pedra.

Quem me conhece de longo tempo deve estar rindo de mim. Eu já fui dona da verdade — e caí do cavalo uma, duas, tantas vezes quantas foram suficientes pra ser derrotada por mim mesma. Desfeitas as certezas, calçadas as sandálias da humildade, ficou tudo muito mais cansativo e fluido — tudo o que é sólido se desmancha no ar.

Já deu pra aprender que ouvir é cansativo, que a possibilidade de rever certezas é ameaçadora para quem se sustenta em verdades. Os preceitos irrevogáveis se dissolveram — o que me deixa mais leve, mais livre, e não menos comprometida com os princípios que, para a minha consciência, são fundamentais.

A noite ainda nem começou, o peito está do tamanho da cabeça de um alfinete — temo por todos os filhos, torço pelo meu país e espero que os que ainda estão no poder tenham a coragem de escutar o que esse milhão de brasileiros está dizendo às ruas.

P.S. Tentaram vandalizar o Itamaraty, um dos mais belos palácios do mundo, uma das mais refinadas obras de Niemeyer e Burle Marx. É uma joia da arquitetura moderna, com seus arcos em concreto aparente, sua escadaria solta no ar, seu espelho d"água com um paisagismo brasileiro e cerratense (os buritis do Palácio dos Arcos foram transplantados adultos para o lugar onde estão, num tempo em que essa tecnologia era pura novidade). Entre as mais recorrentes reivindicações dos manifestantes, está a melhoria na educação. Por certo.

Autora: Conceição Freitas
Correio Braziliense - 21/06/2013
Enviado por: Luciana


EU QUERO UM SHREK

Depois que a princesa beijou o sapo e ele virou um príncipe, veio por terra a máxima de que a mulher foi a responsável pela queda do homem e, consequentemente, pela perda do paraíso, segundo as Sagradas Escrituras. Eva pode ter tido pouco juízo, mas através do conto de fadas, ficou comprovado que não é a mulher que torna o homem infeliz. Coisa nenhuma! Estou cansada de carregar esta culpa por toda a humanidade. Adão bem que sabia que o fruto era proibido, comeu porque quis! O toque feminino da princesa transformou o asqueroso batráquio em um galã de primeira grandeza! Por isso eu adoro aquele ditado: "Por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher."
 
A partir desse conto de fadas, os estúdios Disney reinventaram, recentemente, o enredo desta história, fazendo no desenho "A princesa e o sapo", a bela moça se metamorfosear em sapa (ou seria em perereca? - ah, essa nossa língua portuguesa e seus gêneros...). Perdeu a graça! E o poder feminino, para onde foi? Coisa chata essa disneymania de tornar sonsas as mais belas princesas! Já viram a Cinderela? Mas onde já se viu uma criatura tão linda, herdeira oficial do rei, aceitar com total subserviência os desmandos daquela madrasta nojenta e suas filhas invejosas? Só mesmo Walt Disney, pois na versão original dos irmãos Grimm, a megera é obrigada a calçar sapatos de ferro em brasas, por ter sido tão má com a Gata Borralheira.  Por isso, Wilhelm e Jacob fazem parte do meu universo literário. Eles pegavam o 'espírito da coisa', e isso no século 19!
 
Mas a redenção do imaginário infantil veio com a Dream Works, que criou Shrek. O anti-herói mais cabra macho de todos os contos da carochinha! Aquilo sim, é um homem de verdade. Ele atua em sua história, ele  é o centro da trama... Shrek representa os homens da vida real, ao menos, alguns deles. Shrek sofre de eructações e flatulência, tem bafo de bode, a beleza de um orangotango e a sutileza de um rinoceronte. Apesar de todos esses adjetivos, no final ainda salva a princesa do dragão da maldade e casa com ela. Shrek desmoralizou os príncipes-plantas, aqueles figurantes que só aparecem no início e no final da história para selar o 'felizes para sempre' com um beijo de amor!
 
Shrek não beija a Fiona-Adormecida, ele a carrega nas costas, demonstrando o contorno de seu corpitchio à la barriguinha de chope. E não dá a mínima para os chiliques da madame! Fiona foi, nesta história, a princesa que virou sapa... Mas bem diferente daquela pequena rainha disneyliana. Fiona amou Shrek do jeitinho que ele era. E o príncipe? Ah, o príncipe... Bem, o engomadinho ganhou tons de arco-íris, além de se assumir metrossexual e com sérios desvios de conduta. Um psicopata moderno. Aliás, um Narciso redivivo. Tadinho, ficou só, sem palácio, cavalo branco e nenhuma bela princesa.
 
É por essas e outras que eu prefiro amar o meu Shrek: homem valente, ético, viril... Não é príncipe, mas também não é sapo. É o homem na medida exata. Com o tempo, a mulher vai descobrindo que todo príncipe é meio chato, meio assim... Narciso se olhando e se afogando no rio, que era o seu espelho! Homens que "se acham", mas não se garantem. E tenho dito!

Autora: Christiane Bianchi
http://adoroverte.blogspot.com/


O PSIQUIATRA DE CARUARU: “HOMOFOBIA É VEADAGEM ENRUSTIDA”

Caruaru é a maior cidade do interior de Pernambuco, conhecida como Capital do Agreste, terra da feira que “faz gosto a gente vê, de tudo que há no mundo, nela tem pra vendê”, conforme cantava Luiz Gonzaga. Mas o que pouca gente sabe é que em Caruaru também tem pelo menos um psiquiatra bajeguiano ― adepto dos métodos gauchescos do analista de Bajé, com adaptações aos costumes nordestinos. Ele recebe a clientela trajado de gibão, alpercatas e chapéu de couro. Em vez de divã, tem uma rede rosa-shocking instalada no consultório, na qual os pacientes se deitam, desfiam queixumes e resenham seus pecados.

Outro dia, o filho de respeitado coronel midiático entrou no consultório aparentemente avexado, com as mãos nos bolsos, talvez para dissimular o nervosismo. Mas não passou despercebido pelo tarimbado terapeuta.

― Que foi que aconteceu, cabra? Parece que viu lobisomem!
― Não é nada não, doutor. Já faz muito tempo que eu queria falar com o senhor... Mas tava evitando, porque dizem que só vem aqui quem tá com o miolo mole...
― Nada disso, meu jovem. O que mais atendo aqui é cabeça-dura.
― Apois eu quero me consultar.
― Então, deite aí na rede e desembuche.
― Deitar?! Precisa isso?!
―Sim, que é pra você relaxar e liberar a alma do cabresto.

O rapaz deitou-se, mas manteve as mãos nos bolsos.

― Por que não tira as mãos dos bolsos?
― É que o ar condicionado tá fazendo muito frio...
― Acho que você tá é com medo de desmunhecar na minha frente.
― Hein?!
― Deixa pra lá. Vamos ao que interessa. O que foi que trouxe você aqui? Que bicho te mordeu?
― Num é nada demais não, doutor. É que ando cismado comigo mesmo... ― ficou meio alheado, olhando para o teto.
― Continue.
― De repente, perdi o interesse por quase tudo: parei de andar com os amigos de sempre, larguei a namorada e até deixei de assistir televisão, coisa que eu gostava muito... ― continuou com olhar fixo no teto.
― Bom, parar de andar com amigos e largar a namorada, a gente até que entende, não parece coisa tão grave. Mas deixar de assistir televisão é um tanto esquisito, preocupante. Isso, sim, pode indicar um comportamento anormal. Tem alguma ideia dos motivos que levaram você e se comportar assim?
― Sei não, doutor, sei não...  ― pensou um pouco e concluiu: ― Acho que deve ser por causa dessa campanha toda que tão fazendo contra nós...
― Nós, quem?! De que campanha você tá falando?

O jovem mexeu-se inquieto, e a rede balançou suave.

― Dessa que diz que ninguém pode mais nem dar umas porradas num boiola. Toda hora tem alguém na tevê dizendo que a gente tem que parar com o preconceito, com a violência contra os gays, essas coisas. Isso aperreia a gente.
― Peraí! Na verdade, isso quer dizer que você é homofóbico.
― Chame como quiser. Só sei que não gosto de baitola. Tenho raiva de pirobo.
― Nesse caso, você procurou a pessoa certa. Homofobia é doença, precisa ser tratada. Aliás, qualquer fobia é sinal de neurose e pode evoluir para uma psicose.
― Num é nada disso, doutor! Doença mesmo é boiolice. Doente é quem queima a rosca,
― Mas homofobia é veadagem enrustida, cabra!
― Como assim?! O senhor tá me chamando de viado?
― Não, porque acho que você ainda não deu... Entende?
― Nem dei nem pretendo dar.
― Aí é que tá o problema: você reprime o seu impulso homossexual, não tem coragem de se revelar, por isso descarrega nas pessoas assumidas. Inveja dos ânus libérrimos. Sacou?

O terapeuta se levantou, foi até a estante, pegou uma garrafa contendo uma beberagem, encheu uma caneca e se aproximou do paciente.

― Isso aqui é uma garrafada que inventei com ervas da caatinga, uma verdadeira panaceia: amansa corno brabo, mulher arengueira e biriteiro valentão, entre outras serventias. Só não cura político corrupto, que esse aí não tem mais jeito. Acho que vai resolver seu problema. Tome.

O rapaz ficou meio cabreiro, mas pegou a caneca e bebeu devagar. Fechou os olhos, parecendo meditar. Súbito, saltou da rede, agarrou o psiquiatra de Caruaru pelo guarda-peito do gibão, sacudiu o homem violentamente, fazendo o chapéu de couro voar longe, e gritou histérico:

― Agora me bate! Me cospe! Me joga na parede! Me chama de lagartixa!

Empurrou o terapeuta cabra da peste, que se estatelou no chão. Saiu disparado. Na porta, ouviu o psiquiatra lhe perguntar:

― Não vai pagar a consulta?
― Pagar?! Que pagar que nada, eu vou é processar você e pedir indenização por danos morais.
― Como assim? Baseado em quê?

O ex-machão pôs as mãos nos quadris, respirou fundo, sacudiu a cabeça para os lados e respondeu:

― É proibido tratar bichice como doença, e você tratou um homofóbico, que, como você mesmo diz, é um viado enrustido. Agora liberei de vez. Morou?!

PressAA
Autor: Fernando Soares Campos


OS BRAVOS LEÕES DO AGRESTE

Zé Afonso permanecia em pé na única porta da tosca habitação em que morava com a família. Era um homem diferente de todos que conheci. Tinha algo que causava naqueles que o vissem, impressão tão forte que jamais seria esquecido. Pernas compridas e arqueadas; braços longos terminados por enormes mãos deformadas por grosseiros calos que mal comparando, lembram as escamas do pirarucu. Ossos quase a mostra, eram cobertos por frágil musculatura revestida por pele áspera e enrugada. No rosto do sertanejo estava escrita toda sua vida: miséria, fome, desprezo e dor poderiam ser vistos em cada ruga que deformavam seu semblante. Os olhos sem brilho mostravam a têmpera do homem do agreste, eram frios e ariscos.

Olhei pra Zé Afonso bem dentro dos seus olhos. Ele me encarou um tanto encabulado mas me encarou. Por mais que me esforçasse, não conseguira notar naquele brasileiro sofrido, quaisquer vestígios de ódio ou rancor. Do pescoço pendia um rústico cordão tecido com fios de juta e algodão onde se destacava uma pequena cruz de madeira feita por ele mesmo que continha a inscrição "Gezus Sarva", entalhada pelo caboclo com um canivete.

Aproximei-me de Zé Afonso e ao seu lado contemplei o deprimente cenário que envolvia sua tosca habitação. Nada vi que prendesse alguém àquele lugar. No chão, rachaduras enormes passavam-me a impressão que ali houvera um terremoto. A terra totalmente calcinada mostrava que não chovia naquela região há alguns anos. Vegetação, nem sombra. Verifiquei entristecido um emaranhado de árvores retorcidas e acanhadas em forma de garranchos, ocupando toda aquela área e estendendo-se até onde meus olhos não mais alcançavam. Até o xiquexique, espécie de cactos do agreste, estava semimorto. Vida animal nem pensar. Até urubus não eram vistos por ali.

Olhei atentamente as fendas do solo na esperança de encontrar algum inseto ou larva, nada vi. Perguntei a Zé Afonso pelo restante de sua família ele, depois de acender o pito que é um cachimbo artesanal moldado em barro e com um talo de bambu servindo para aspirar a fumaça dos fragmentos incandescentes de fumo colocados no seu interior, franziu a testa e respondeu: - "Home rapaz, a muié e as criança sairo p'ra prucurá arguma coisa p'ra cume e inda num vortaro. Já to ficando inqueto !"

Reparando a aflição do sertanejo, propus-lhe que ambos fôssemos procurá-los. O homem, esboçando um sorriso, entrou rapidamente em um dos cômodos do casebre, saindo logo após colocar em volta da cintura um verdadeiro cinto de utilidades idealizado por ele e confeccionado com couro cru no qual, dentre outras bugigangas, pendiam um velho facão cheio de dentes e uma sacola onde colocou um punhado de pedrinhas. Perguntei-lhe para que se destinavam e ele sem nada dizer, enfiou a mão na
matula, espécie de mochila e, após abri-la, retirou um estilingue preparado com tiras de borracha e uma forquilha.

Saímos pela terra poeirenta indo Zé Afonso à frente. Ele bramia vigorosamente o facão que zunia em suas mãos cortando os galhos repletos de espinhos que ora ou outra impediam nossa caminhada. Após andarmos por um tempo não cronometrado, verifiquei atordoado a imensidão desértica que separava Zé Afonso da civilização menos sofrida. A paisagem era aterradora. Ao lado do caminho, ossos de animais de vários portes abatidos pela seca implacável testificavam o descaso com que é tratada aquela região. O Sol escaldante dava-nos a sensação térmica de marcharmos no interior de uma fornalha. O suor escorrendo pela minha testa atingia meus olhos e dificultando uma melhor visualização daquele cenário deprimente. Sorte minha!... Poeira, calor infernal e um profundo silêncio eram a nossa companhia. No céu de um azul imaculado, nem uma nuvem sequer. A calmaria me incomodava. Notava-se que nem o vento se atrevia a penetrar ali. Até ele sentia medo.

De repente, Zé Afonso parou, colocou as mãos em forma de concha em um dos ouvidos e sorriu. O primeiro sorriso que vi em seus lábios, deixando à mostra os últimos dentes; três, somente três. O semblante do caboclo tornou-se menos tenso. Fiquei atônito, pois nada percebi. Meu companheiro de jornada ainda sorridente disse-me que sua família se aproximava. Sentamo-nos em uma laje de pedra à sombra de outra de maior envergadura e começamos a ouvir o alarido de crianças que cada vez tornava-se mais intenso. Finalmente, apareceram uma mulher magérrima, pele e ossos, seguida por uma legião de seres pequeninos e desnutridos. Eram quatorze ao todo. Meninos e meninas com idades e estaturas diferentes. Pálidos, esqueléticos e com olhares tão tristes que jamais poderão ser esquecidos. O céu e a terra passarão mas aquelas fisionomias jamais haverão de se apagar na minha memória. Tentei conter as lágrimas e não pude.

Sentimentos confundiram-se no meu coração: medo, vergonha, ódio, vontade de fazer alguma coisa e sentindo-me impotente, além da de descrença na misericórdia de Deus. Tudo isso se misturou dentro de mim e gritei. Entre soluços gritei e minha voz ecoou ao longe como o uivo de um animal ferido: - Deus!... Por que?... Porque Senhor?... Porque abandonastes a essas pessoas?... Todos me olharam assustados. Surpresos e sem entenderem minha reação intempestiva que logo foi esquecida.

O sertanejo apresentou-me sua companheira, Maria de Nazaré era seu nome. Ela, olhando-me encabulada, estendeu-me a mão grosseira e esquelética. Ao apertá-la em cumprimento, senti-lhe os ossos e calos. - "Este seu moço, é o Juquinha. Aqueles são o Severino, João Piqueno, Zé Minino, Ritinha, etc e etc." Quando fui apresentado ao caçula, confesso que já havia esquecido os outros nomes, tal a quantidade. Perguntei a Zé Afonso porque ele não abandonava aquele inferno e migrava para qualquer cidade grande. O homem, com um aceno de cabeça disse não, explicando-me que em razão de ser analfabeto e ter uma família numerosa, seria mais um mendigo a perambular pelas ruas com sua numerosa prole. Concordei.

O nordestino além de forte é, acima de tudo, dotado de inesgotável sentimento de fé e esperança. Zé Afonso olhando-me nos olhos, disse-me com firmeza: "Moço, aqui é nosso lugá. Logo Deus vai mandá chuva e num instante tudo aqui vai ficá verdinho verdinho. Nós intão vai prantá milho, feijão-di-corda, macaxera e outros ligume e então, a vida vai miorá e nós vai tê o qui cumê até outra chuva vortá."

Nojo, senti nojo. Não daquele bravo e corajoso sertanejo. Senti nojo de mim mesmo por nada tentar fazer por outros Zés como o Afonso que existem por este Brasil afora. Nojo,... senti nojo e ódio da canalha política que infesta este País e que aqui instituiu o império da safadeza, corrupção, presunção, canalhice, arbítrio, intolerância e acima de tudo, um império onde é predominante o desamor pelo próximo.

Ergui os olhos para o céu e mais uma vez foi impossível conter as lágrimas. Numa oração improvisada perguntei ao meu Deus se Ele também é o Deus dos nordestinos do agreste brasileiro. Pessoas espirituosas guerreiras que só conhecem dor e sofrimento. Esquecidas à própria sorte sem pão, sem água pra beber, sem saúde, sem escola e desprovidos do merecido respeito. Mas, apesar de tudo, são altivos e têm inabalável fé num Deus que muito pouco tem feito por eles mas no qual, os bravos leões do agreste depositam suas esperanças.

Eu orava em silêncio enquanto em coro Zé Afonso, Maria de Nazaré e todos seus filhos abraçadinhos, entoaram um lamento em forma de canção do qual recordo-me destes versos: Esta aqui é minha terra, /Minha terra companheira /Eu daqui num saio não. /Pode tudo acontecê,/ Fartá chuva, fartá pão,/ Pode o mundo se acabá,/ Minha vida é meu sertão.

Autor: Walmir Ferreira dos Santos


A JANELA

Admirando um quadro refleti sobre a semelhança entre ele e uma janela diante da qual tudo passa. Olhando através dela, você consegue observar atos e fatos da vida cotidiana: crianças brincando, belas moças desfilando, um casal se amando, o carro novo do vizinho, o horário em que o jovem retorna ao lar, a que horas o marido da vizinha do lado fronteiro volta para casa, quem veio visitar os amigos da casa à direita, se a da vizinha à esquerda está sendo assaltada, enfim toda uma gama de situações pode acontecer diante de nossos olhos através de uma janela.

Não esqueçamos que se “uma janela observa” os outros, também pode existir “aquela que nos observa” e se não quisermos ser assunto para comentários, fechemos a nossa.Muitas pessoas ficam “olhando” a vida dos outros e esquecem-se de viver a própria, mas quando conseguem analisar o fato, percebem que perderam muito tempo e não chegaram a lugar algum.Uma janela pode ser admirada ou odiada causando ferimentos, principalmente nos cotovelos.

Saibamos apreciar as belezas da vida sem criticar a alheia. E por falar nisso, você permanece à janela perdendo tempo ou aprendendo a viver? Reflita!  

Autores: Paulo Antonio Widmer Jr, Odinar Fratin Jr e Zuleika Soares Novaes Júlio
         Alunos do Grupo “Os sonhadores” pertencente à SALA DE LITERATURA DO LAR DAS MOÇAS CEGAS- Santos/ SP


A IMPORTÂNCIA DAS EMOÇÕES

Que importância têm as emoções? Somos realmente capazes de compreender o que sentimos todo o tempo? Bem, se não somos capazes (e não somos mesmo), teríamos muito a ganhar, se aprendêssemos no cotidiano a estar mais em contato com as nossas emoções.

Muitas vezes, por medo da dor que os nossos sentimentos possam nos causar, não fazemos isso. Negamos o que sentimos e ainda procuramos passar uma imagem para nós mesmos e para aqueles que nos cercam de que está tudo bem conosco e de que somos auto-suficientes . Na verdade, as emoções são nossa forma própria e única de percebermos o mundo que nos cerca. Cada um de nós, portanto, é tudo aquilo que vivenciou, acumulando experiências pessoais que vão fazendo nossa história e traçando nosso desenvolvimento. Por isso, estar em contato com o que realmente sentimos nos possibilita compreender como somos e como reagimos ao mundo. Ocorre que, como ninguém se sente totalmente seguro (cada um de nós se sente vulnerável, de uma ou de outra forma), procuramos, desde cedo, ocultar nossa fragilidade de nós mesmos e dos outros. Assim, nos privamos de desfrutar de muito do que a vida nos oferece. Aceitando a própria vulnerabilidade, estaremos muito mais abertos e sensíveis às possibilidades que a vida nos oferece. Isto vale tanto para nos entristecermos quanto para nos alegrarmos. É claro que é difícil suportar tal condição de abertura às emoções que a vida nos oferece. Por medo das dores que outros possam nos causar, nossa tendência é, logo após a infância, abandonarmos essa postura de abertura e adotarmos outra, defensiva. Pensamos estar assim nos protegendo por antecipação, antes de nos arriscarmos a deixar que os outros possam nos magoar. Os laços afetivos são apenas superficiais, por medo de abandono ou de rejeição. E, assim, vamos vivendo nossa "vidinha". Mas o que seria necessário para interromper este processo que tanto limita nossa existência? Uma espécie de crença básica em nossa força interior é fundamental de se adquirir. Algo que nos faça saber, a cada um de nós, que não abandonaremos nosso próprio eixo, aconteça lá o que nos acontecer. Podemos nos entristecer, nos exaltar ou até mesmo nos desesperar; mas é preciso que acreditemos em nossa capacidade de regeneração para que nossa fragilidade nos pareça aceitável, apenas parte de um todo maior. Aceitar nossa condição humana e não exigir que sejamos perfeitos ajuda bastante, pois só nos dando o direito de sermos nós mesmos (dentro da nossa melhor forma) nos afastaremos da sensação tão comum de que estamos "blefando" e de que, a qualquer momento, descobrirão nosso imperfeito eu e nos rejeitarão. Se pararmos de tentar esconder nossa vulnerabilidade, nos permitiremos sentir a dor das experiências negativas (frustações, perdas, etc.) e passaremos a aprender e a amadurecer com elas. Vamos nos perceber nas experiências, tentar observar nossos erros e aprender com eles. Este é o processo que nos fortalece ao longo da vida e nos ajuda a não repetir os mesmos equívocos.A negação da dor em nossas experiências, infelizmente, interrompe todo este processo natural de aprendizado. Além disso, se a pessoa não conseguir vencer suas defesas, ela irá conduzir sua vida para onde suas defesas a conduzirem, e não para onde seus verdadeiros sentimentos a conduziriam.

Para concluir, é preciso lembrar que a pessoa que é imune à tristeza também é imune à verdadeira alegria. Deixa então escapar a possibilidade de estabelecer uma relação mais vigorosa e intensa com o mundo, o que torna a vida mais desfrutável e prazerosa.

Autora: Simone Sotto Mayor


UMA JORNADA DE ENCONTROS

Tenho acompanhado a Jornada Mundial da Juventude ao longo desta semana e, pelo menos até o momento em que escrevo este texto, o faço com surpresa e admiração. Apesar das vicissitudes de transporte e circulação, há muito tempo não via as ruas da cidade tão alegremente movimentadas e coloridas. Mesmo por onde o Papa não é esperado passar, bandos de moças e rapazes carregam bandeiras de seus países e cantam hinos em diversas línguas, num carnaval de rua cosmopolita, sereno e empolgante.

Confesso que até me emocionei ao ver casualmente, no calçadão da Avenida Atlântica, um inesperado encontro de confraternização entre um grupo de jovens iranianos com a bandeira de seu país e outro de americanos com a dos Estados Unidos.

Não é preciso ser católico, nem ter qualquer religião, para se encantar com o que está se passando no Rio de Janeiro. Estamos assistindo a uma experiência daquilo que o rabino Abraham Skorka, coautor de livro em parceria com o Papa Francisco, "Entre o céu e a terra", chamou de "cultura do encontro". Um encontro não é uma adesão ao outro, nem mesmo a abertura de um diálogo em busca de alguma verdade única e absoluta. Um encontro é apenas isso mesmo, a aproximação entre pessoas, mesmo que elas não tenham as mesmas ideias, nem estejam dispostas a pensar sobre o que pensam.

Um dos aspectos mais relevantes da Jornada tem sido o dos diversos eventos inter-religiosos, uma busca sem tensão por alguma coisa em comum entre crenças tão diversas. A busca do abraço universal, do humano em cada fé. Assisti a reuniões de peregrinos católicos de vários países com praticantes da umbanda e do candomblé cariocas, no Estácio e em Caxias. E a uma mesa de debates na PUC, na Gávea, da qual participavam bispos, rabinos e xeques, com uma plateia lotada de jovens católicos, judeus e muçulmanos.

Nesses encontros, o que se punha em discussão não era a verdade teológica de cada um, mas a necessidade de paz, de entendimento e de amor num mundo tão conturbado, inclusive por guerras religiosas. Nunca acompanhei as Jornadas anteriores, nem sei mesmo do que cada uma delas tratou no passado, em Roma, Colônia ou Madri. Mas imagino que as novidades comportamentais trazidas pelo novo Papa tenham influenciado a atmosfera do que está acontecendo no Rio.

Num livrinho de extrema pertinência sobre suas ideias, "Francisco de Assis e Francisco de Roma", Leonardo Boff, um dos principais pensadores da Teologia da Libertação, faz a pergunta que todos nós gostaríamos de poder responder afirmativamente: "Uma nova primavera na igreja?" No seu discurso em Aparecida, o Papa pode ter-nos respondido a pergunta, quando pediu aos jovens que se deixassem surpreender pela vida e que a vivessem em alegria. E ainda mais em sua fala militante na favela de Manguinhos, quando exortou a juventude a não perder a sensibilidade para as injustiças e para a corrupção. É como se tivéssemos atraído para cá e tornado universal a discussão do tema que hoje nos é mais caro.

A Igreja Católica, a primeira e mais antiga organização globalizada do planeta, precisa responder às ânsias de seu povo no século 21. Ela segue prisioneira de conceitos anacrônicos sobre política social, drogas, moral sexual, aborto, homossexualidade, celibato, pesquisas com células-tronco e até "a forma de poder absolutista dos papas", como diz Boff. Mas Francisco está certo quando diz que tudo começa com o encontro. E ele sabe promover esse encontro: que homem público brasileiro sairia ileso daquele engarrafamento que o Papa enfrentou em sua chegada ao Rio, com a janela do pequeno carro aberta e a disposição de cumprimentar a multidão que se aproximava dele?

É ridículo e mesquinho reclamar de gastos públicos com a Jornada e a vinda do Papa ao Brasil. Em primeiro lugar, porque o estado não está só cumprindo obrigação protocolar, mas também fazendo um investimento com retorno certo, produzido pelo que deixa no Rio a multidão vinda do exterior e de outras cidades do país. Além disso, o estado tem mesmo o dever de investir no ordenamento, segurança e atendimento médico das manifestações de massa realizadas na cidade, não importa de que natureza. Assim como nem todo brasileiro é católico, nem todo carioca é carnavalesco, e nem assim é justo contestar o que o estado gasta com o carnaval. Mas para alguns, Rei Momo pode; o Papa Chico, nem pensar.

Independentemente de qualquer profissão de fé, Francisco nos anuncia o projeto de um mundo mais simples e mais humano. Um mundo sem ostentação e sem pompa, sem a hegemonia irracional da riqueza e do consumismo delirante que destrói o planeta e a humanidade. Seu amor à esperança é comovente. "Não deixem que lhes roubem a esperança", disse ele no Rio, aos participantes da Jornada Mundial da Juventude, "sejam vocês mesmos os portadores da esperança." Não é pouco que um líder mundial de sua importância pense e fale desse jeito.

Autor: Cacá Diegues é cineasta
Fonte: O Globo
Texto enviado por Wanda Barcellos


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