ZUENIR VENTURA

Abaixo o baixo astral

Era a crise que faltava

Tudo junto e misturado

Lembrando o Dr. Sobral

A pátria distraída

‘Ou as ruas nos engolem’

O baixo nível da campanha

Um Elio pouco conhecido

Pênalti faz mal à saúde

Com muito orgulho

Algo de podre no reino das obras

O prefeito e o prometido

Negócio da China

Preguiça de sofrer

Quem quiser que se fume!

Um tipo inesquecível

O dia em que fui manchete

A lição do acorrentado

Uma mente perigosa

Os Zeróis e um Suspeito

Abaixo o baixo astral

Há quem diga que Paes está olhando para a próxima eleição ao criticar tão duramente o governo do estado. Daí querer distância dos antigos aliados, em queda nas pesquisas

Também acho que os mais de R$ 30 bilhões gastos com a preparação da Olimpíada seriam mais bem empregados para elevar o nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), na reforma dos hospitais, na melhoria do ensino, no pagamento em dia do funcionalismo, no reforço da segurança, entre outras necessidades urgentes de um estado falido e uma cidade carente de tantas benfeitorias. Deveríamos ter feito como Estocolmo, que desistiu de sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 para investir em moradias populares. Isso na Suécia, que dispensa comentários. Só que agora é tarde, não adianta torcer contra o sucesso do evento com previsões catastróficas. O seu fracasso não atenuaria nossos problemas, não aliviaria nossa situação. Ao contrário, seria quase mortal para o turismo, além de afetar a autoestima do carioca, tirando dele uma fonte de alegria e prazer: a curtição do esporte, junto com a festa e a celebração.

Como minha amiga Lucia Riff, “começo a ficar com raiva de quem diz que vai dar tudo errado, dos artigos negativos, das gozações internacionais (e nacionais)”. Por isso, não concordo com as declarações pessimistas do prefeito à imprensa estrangeira. O ceticismo não combina com ele nem com a cidade de São Sebastião, acostumada a resistir às flechadas. Ao criticar tão duramente o governo do estado (“precisa tomar vergonha na cara”), há quem diga que ele está olhando para as próximas eleições, daí querer distância dos antigos aliados, em queda nas pesquisas. Não sei, mas não o entendo decretando que esta é “uma oportunidade perdida”. Verdade que no mesmo jornal britânico “The Guardian”, ele se indignou com o noticiário lá de fora: “Parece que tudo aqui é zika e pessoas atirando nas outras”. Ele próprio, porém, ao declarar à rede televisiva CNN que em matéria de segurança o estado estava fazendo um “trabalho terrível, horrível”, prestou um serviço à confusão que os gringos fazem entre estado e município. Para quem já está com medo de vir, pouco adianta saber se o assalto que pode sofrer pertence à esfera estadual, e não municipal, se a culpa é do governador, e não do prefeito.

Portanto, o melhor a fazer é torcer a favor do êxito, é ter esperança, o que não é difícil. Nesse quesito, só temos bons precedentes, o último dos quais foi a Copa do Mundo. Lembram-se do refrão dos derrotistas, o “imagina na Copa”? Parecia fazer sentido, diante de um Rio que estava daquele jeito (como hoje). Pois bem, viu-se o resultado: a única coisa que não deu certo foi a seleção. Até hoje lamenta-se esse fiasco, e comemora-se a vitória da organização. O problema é a ressaca, mas essa fica para depois.

Enquanto isso, xô, baixo astral.

Fonte: OGlobo
Autor: Zuenir Ventura (jornalista)


Era a crise que faltava

A demanda por tornozeleiras está superando a oferta, ou seja, há tornozelos demais no mercado do crime. A causa se deve à eficiência da Lava-Jato

O momento atual caracteriza-se, como se sabe, pela coexistência de várias crises — econômica, política, ética, ambiental, de saúde. Ao longo da história contemporânea, elas existiram isoladamente, algumas até mais graves, como a que levou Getúlio Vargas ao suicídio ou a que fez Jânio renunciar. Mas não me lembro de uma que conjugasse todas ao mesmo tempo. Se ainda faltava alguma, ela surgiu esta semana: a crise das tornozeleiras eletrônicas, um produto de primeira necessidade para a polícia. A demanda está superando a oferta, ou seja, há tornozelos demais no mercado do crime. A causa se deve à eficiência da operação Lava-Jato e, no caso do Rio, à falência do estado, que não tem dinheiro para pagar as dívidas com o fornecedor do equipamento.

Pelo menos cinco desses tornozelos suspeitos não gostaram da descoberta feita pelos repórteres Mariana Sanches, Luiz Souto e Tiago Dantas. São eles o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o empresário Fernando Cavendish e outros três, todos acusados de integrar o esquema que desviou R$ 370 milhões de obras públicas feitas pela Delta, inclusive na reforma do Maracanã. Graças a uma generosa decisão judicial, eles se preparavam para gozar o conforto de uma prisão em casa, quando, por culpa da falta dos adereços de perna, foram transferidos para o presídio Bangu 8, onde tiveram que seguir o ritual de todos os delinquentes que vão parar ali: vestir o uniforme de presidiário e ter o cabelo cortado rente. Para o contraventor, que continuava solto apesar de condenado a 39 anos por crimes de peculato, corrupção e formação de quadrilha, tudo era lucro. Mas para Cavendish, vindo da Europa e preso no aeroporto, foi um triste desfecho de viagem. A foto 3x4 dele sem a invejável cabeleira (pelo menos para quem é careca) lembrava, por contraste, a divertida imagem de quatro anos atrás, quando, num luxuoso restaurante de Paris, foi flagrado dançando com guardanapo amarrado na cabeça numa animada noite — ele e três secretários do então governador Sérgio Cabral, que estava no jantar, mas não apareceu na foto.

O vexame de agora poderia ter sido evitado, se os hóspedes provisórios de Bangu 8, tão habilidosos nas tenebrosas transações, tivessem tido a ideia de pagar os R$ 2,8 milhões de dívida atrasada das tais tornozeleiras, uma ninharia para uma empresa como a Delta, que faturou bilhões construindo e restaurando estádios, rodovias, pontes, viadutos em todo o país. Teriam evitado não só o próprio constrangimento, como o da cidade, já com tantos problemas às vésperas da Olimpíada.

Fonte: OGlobo
Autor: Zuenir Ventura (jornalista)


TUDO JUNTO E MISTURADO

O Brasil é uma espécie de feijoada: tudo junto e misturado. A política frequenta o carnaval, assim como este costuma carnavalizar a política

Eram 4 horas da tarde de domingo passado, fazia 41 graus, com sensação térmica de 45 graus e um sol abrasador. Mesmo assim, milhares de pessoas cantavam e sambavam nas areias escaldantes de Ipanema, ao ritmo de uma potente bateria do bloco “Empolga às 9”, também conhecido como “Concentra mas não sai”. Esse era o problema. Se passasse desfilando, até eu, que não sou folião, poderia ir atrás, quem sabe, tentando acompanhar o “É hoje o dia da alegria/ E a tristeza nem pode pensar em chegar”.

Os turistas estrangeiros, com certeza, nunca tinham visto em seus países um espetáculo tão espontâneo e animado. Realmente uma maravilha. Mas não andava e, quatro horas depois, meus ouvidos não aguentavam mais, pediam pelo amor de Deus um pouco de silêncio ou de outros sons, um pouco de outras músicas, de televisão, de leitura. Mas isso era impossível, porque o repertório tocado e cantado em altíssimo volume entrava sem trégua por todas as frestas de janelas e portas mesmo além da orla.

E pensar que até outro dia reclamava-se de que o carnaval de rua no Rio tinha acabado, estava morto. Hoje há até de sobra. São cerca de 500 blocos, mais de cem só na Zona Sul e 15 apenas em Ipanema. Um deles, o da Preta Gil, que desfila no Centro da cidade, reúne todos os anos cerca de 300 mil foliões.

A Riotur calcula que só as 11 principais agremiações atraíram cerca de 600 mil nesse último domingo antes do carnaval propriamente dito. Justiça seja feita, as autoridades estão tentando descobrir como conciliar a alegria e a ordem urbana, o direito dos que querem brincar e dos que não querem.

Fico imaginando a dificuldade do colega americano que veio cobrir a crise econômica e resolveu esticar. Ele talvez achasse que uma coisa excluía a outra, que um povo enfrentando recessão, desemprego, inflação (sem falar no Aedes aegypti) não podia demonstrar tanta disposição para a festa. Como se divertir assim numa hora dessas?

Ele não sabia que aquilo era também uma maneira de protestar. Uma foliã explicou essa aparente contradição: “Não aguentamos mais tanta sujeira. Brincamos, mas mostramos que queremos um Brasil melhor”.

De fato, com irreverência e humor, por meio de sátiras, paródias, ironias e gozações, todos os problemas que apareceram recentemente nos jornais estavam nos blocos. Os escândalos viraram fantasia, os corruptos apareciam em máscaras e cartazes. Um exemplo foi a ala “Mulheres de Pedro Paulo”, com os olhos pintados de roxo e um boletim de ocorrência na cabeça, lembrando o pré-candidato à prefeitura acusado pela ex-esposa de tê-la agredido.

Em suma, o Brasil é uma espécie de feijoada: tudo junto e misturado. A política frequenta o carnaval, assim como este costuma carnavalizar a política.

Fonte: OGlobo
Autor: Zuenir Ventura (jornalista)


LEMBRANDO O DR. SOBRAL

Quando chegou um major com uma ordem de Costa e Silva, a resposta foi: ‘Meu amigo, o marechal pode dar ordem ao senhor, que é major. Mas não a mim, que sou civil’

Na semana passada, a Justiça conquistou pela segunda vez seguida o Prêmio Faz Diferença na supercategoria de Personalidade do Ano: com o juiz Sérgio Moro, em 2014, e com a ministra Cármen Lúcia, em 2015. Ele, pelo trabalho à frente do julgamento dos crimes da Operação Lava-Jato, a investigação que levou à prisão os responsáveis pelo esquema de corrupção na Petrobras. Ela, por ter sido a relatora da ação que fez a Suprema Corte derrubar a exigência de autorização prévia para a publicação de biografias. Com seu voto histórico, proferido em linguagem simples, acessível, não em juridiquês (“Cala a boca já morreu, é a Constituição que garante”).

Cármen Lúcia deu o seu recado em forma de “Aviso aos navegantes das águas da corrupção: O crime não vencerá a Justiça”. E nem os privilégios a vencerão, pode-se acrescentar, diante de um cenário inédito de ricos e poderosos atrás das grades.

Como se explica então que justamente agora, que a opinião pública passou a ver que cadeia não é só para os pobres, é que o Judiciário está sendo contestado? Como entender as razões da carta de um grupo de advogados acusando a operação que desmantelou o insaciável esquema de corrupção da Petrobras de violar os direitos dos acusados, utilizando métodos da ditadura semelhantes aos da Inquisição (uma “neoinquisição”)? O repórter Mario Cesar Carvalho foi atrás dos fatos e apurou que a “estratégia para abalar a Lava-Jato” surgiu quando o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, negou o pedido de liberdade a Marcelo Odebrecht, cuja defesa, a cargo de Nabor Bulhões, produziu o documento, que teve, inclusive, a participação de Emílio, o patriarca dos Odebrecht.

Entidades de procuradores e juízes reagiram com indignação ao manifesto, e pelo menos um dos signatários não concordou com as comparações descabidas, declarando “não fazer sentido falar em ditadura num Estado democrático”. De fato, se fosse preciso lembrar como o regime militar tratava a classe, bastaria citar um caso emblemático, o do grande Sobral Pinto. No dia 14 de dezembro de 1968, à vontade num quarto de hotel de Goiânia, ele fazia hora para a solenidade de formatura da turma de que era paraninfo quando chegou um major com uma ordem do presidente Costa e Silva. A resposta foi: “Meu amigo, o marechal pode dar ordem ao senhor, que é major. Mas não a mim, que sou civil”. Então, ao grito de “prendam” do oficial, quatro homens invadiram o quarto e se atiraram sobre o advogado, que, de pijama e chinelo, foi agarrado, arrastado pelo salão e, esperneando, jogado no bando de trás de um carro, espremido entre os agentes. Ele tinhas 75 anos e pesava 67 quilos.

Alguém imagina uma cena de violência como essa contra um advogado hoje?

Fonte: oglobo.globo.com
Autor: Zuenir Ventura (jornalista)


A PÁTRIA DISTRAÍDA

Eduardo Cunha só surpreendeu Brasília com seus malfeitos porque não se prestou atenção ao passado pontuado de escândalos desse afilhado político de PC Farias

Ando muito esquecido. Ainda não cheguei ao ponto de não me lembrar do que fui fazer no banheiro, mas costumo esquecer o título do livro que li, o filme que vi ou o nome daquele rosto familiar diante de mim. Achava que era um defeito só meu, coisa da idade. Mas tenho encontrado pessoas bem mais jovens reclamando do mesmo problema, o que dá razão ao especialista americano do respeitável MIT, cujo nome esqueci, que culpa a internet por estarmos perdendo o foco do que interessa e ficando “cada vez mais distraídos”.

Bombardeados por uma quantidade avassaladora de notícias diversas em ritmo vertiginoso, sempre interrompido, não conseguimos nos concentrar, refletir; em suma, não prestamos atenção e, assim, não exercitamos processos cognitivos que levam ao pensamento crítico e à criatividade. Como o ser humano vive atrás de novidades, não sobra tempo para digerir o que recebemos, obtendo mais informação do que conhecimento.
O resultado é que o déficit de atenção agrava a falta de memória, pois não há como se lembrar mais tarde do que não se reteve na hora. Aprendemos, mas não apreendemos.

E quando isso acontece com o país em relação à sua História? Sobre a nossa distração, Chico Buarque já tinha registrado num genial samba que, feito há mais de 30 anos, ainda se aplica ao atual “sanatório geral”. Ele cantava: “Dormia a nossa pátria-mãe tão distraída/ Sem perceber que era subtraída/Em tenebrosas transações”. E sobre a falta de memória, o cronista Ivan Lessa dizia que, a cada 15 anos, o Brasil esquece os últimos 15 anos — sem desculpa, porque é assim desde bem antes do advento da internet. Quer dizer, a “pátria distraída”, além de déficit de atenção, sofre de amnésia crônica.

Na política, os exemplos são muitos. Vilões de ontem podem reaparecer como mocinhos. O mais emblemático caso talvez tenha sido o de Fernando Collor, que na campanha presidencial de 1989 dirigiu graves ofensas a Lula e, 15 anos depois, já senador, era recebido em palácio com afagos de aliado pelo ex-desafeto, agora presidente. Recentemente, Eduardo Cunha só surpreendeu Brasília com seus malfeitos porque não se prestou atenção ao passado pontuado de escândalos desse afilhado político de PC Farias. Hoje, ele parece inesquecível; resta saber até quando.

Não se está propondo lembrar para retaliar, ir à forra ou qualquer outro desses impulsos primários. O protesto é contra a perda de memória nacional, já que esquecer o passado leva quase sempre a repeti-lo, o que o país não se cansa de fazer. Ele esquece que anistia e amnésia, embora tenham a mesma raiz etimológica, não querem dizer a mesma coisa. A primeira significa perdão, e a segunda, esquecimento.Perdoar, como bons cristãos, até se admite, mas esquecer, jamais.

Fonte: http://oglobo.globo.com
Autor: Zuenir Ventura (jornalista)


‘OU AS RUAS NOS ENGOLEM’

A presidente não só saiu do seu retiro silencioso para conversar com os jornalistas, como se esforçou para demonstrar descontração e bom humor

Desta vez não se ouviu a alegação do Planalto e arredores de que as manifestações que reuniram no domingo cerca de dois milhões de pessoas em todo o país foram obra da “elite branca”, da “mídia golpista” ou dos “ricos”, talvez porque se saiba que estes não são tantos assim (a ridícula hipótese da ação da CIA, levantada pelo líder do PT na Câmara, Sibá Machado, não foi levada a sério por ninguém). Também não se questionou a precisão dos números, se foram exatos um milhão ou 250 mil manifestantes em São Paulo, 50 mil em Brasília ou 25 mil no Rio. Mais importante do que a quantidade, foi o bom comportamento da maioria dos participantes. Em suma, não se tentou tapar o sol com a peneira. Ao contrário de desqualificar o movimento, como se tentou fazer antes, preventivamente, nas redes sociais, o dia seguinte foi de elogios aos protestos, por parte de ministros e da própria presidente. Tanto que o efeito mais imediato da jornada de 15 de março foi de natureza vocabular: a rápida inclusão do termo “humildade” no discurso oficial, passando a ser usado até por Dilma, com quem combina tanto quanto uma sandália franciscana. A presidente não só saiu do seu retiro silencioso para conversar com os jornalistas, como se esforçou para demonstrar descontração e bom humor. Só uma vez usou aquele “minha querida”, cujo tom em geral quer dizer o contrário e faz a repórter tremer.

Dilma pós-manifestações parecia em campanha. Prometeu diálogo, admitiu a possibilidade de “algum erro de dosagem” na economia e falou bem de atos que, afinal, foram de repúdio a ela, ao PT, ao escândalo da Petrobras, à crise econômica, ao aumento do custo de vida, às deficiências na saúde e na educação. Enfim, repúdio a seu governo como um todo. Não era com ela. A questão é que as ruas não querem mais discursos e lero-lero, como ficou demonstrado depois da passeata dos indignados, quando o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e o secretário-geral da Presidência, Miguel Rossetto, tentaram apaziguar a massa com a apresentação de velhas e superadas propostas. Enquanto falavam, a resposta foi o panelaço em bairros de várias cidades. Quem percebeu o perigo do engodo foi o líder do governo na Câmara dos Deputados, o petista José Guimarães, que, com muita propriedade chamou a atenção de seus companheiros de partido e da Presidência, advertindo: “As ruas mostraram que querem mudança. Ou fazemos ou as ruas nos engolem”.

Ele tem razão. As promessas deram certo para eleger Dilma, mas dificilmente serão suficientes para ela governar. A paciência da plateia está acabando, se é que já não acabou.


O baixo nível da campanha

Talvez porque achasse que ganharia a parada, com seu temperamento mais agressivo, a candidata Dilma resolveu partir para a pancadaria

Não há dúvida de que o nível da campanha para presidente baixou, e deve baixar ainda mais, porque a estratégia beligerante parece que funcionou. Pelo visto, o eleitor tem um pouco de torcedor de MMA, gosta de briga. Quando o Datafolha registrou na semana passada a vantagem de sete pontos de Dilma sobre Marina, o diretor do instituto, Mauro Paulino, atribuiu a virada à nova atitude de confronto da candidata do PT. “Os ataques (...) foram determinantes”, afirmou. Cientistas políticos concordaram com ele, e, no QG do PT, o resultado foi comemorado pela ala que sempre defendeu a tática de guerra. É possível que no começo a presidente estivesse na outra ala, menos por vocação pacifista e mais por precaução, já que advertiu publicamente seus concorrentes para “não esquecer seus telhados”, deixando subentendido que todos os tinham de vidro. Ela, pelo escândalo da Petrobras; Marina, pela citação do ex-governador Eduardo Campos na lista do delator; e Aécio, pela participação de seu partido no mensalão mineiro.

Talvez porque achasse que ganharia a parada, com seu temperamento mais agressivo, ela resolveu partir para a pancadaria. Na entrevista de anteontem ao “Bom Dia Brasil", a repórter Ana Paula Araújo perguntou: “Na sua campanha eleitoral na TV, a senhora diz que, se a sua adversária Marina for eleita, os pobres vão passar fome, os banqueiros vão fazer as maiores maldades com o povo, acaba o pré-sal, as pessoas não vão mais comprar casa própria (...). A senhora acha legítimo levar o debate político para esse lado, ao invés de discutir propostas, soluções para o país, ficar botando medo nas pessoas?”

A resposta: “Veja bem. É interessantíssimo. Tudo o que eu falo está no programa da candidata”. Quando começa com “veja bem” ou com “meu querido”, vem bala. Dilma tem se revelado muito sagaz nas entrevistas televisivas: fala sem se deixar interromper, responde o que quer e é sempre assertiva, mesmo quando sabe que não é verdade o que está dizendo, como no caso do programa da adversária, onde simula ter descoberto elementos para afirmar que, com Marina, os pobres vão passar fome. Não precisava inventar. As propostas da candidata do PSB já têm contradições suficientes.

Se a previsão dos analistas estiver certa, a propaganda dilmista continuará usando o “medo do desconhecido” como estratégia e assim espera acabar desgastando e desconstruindo, ou melhor, desqualificando a imagem da oponente até um possível segundo turno entre as duas. O PSDB também está mudando de alvo e mirando mais em Marina, identificando-a com o PT. Tudo bem, desde que não ajude a baixar mais o nível da disputa. O método pode ser eficaz na campanha, mas não para resolver os graves problemas que esperam o(a) vencedor(a).


Um Elio pouco conhecido

Quem está acostumado com suas colunas, e principalmente com seus livros, onde a prosa atinge altos níveis de excelência estética, não o imagina como Kid Megalô

Durante o seu 9º Congresso Internacional em SP, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), uma das entidades mais respeitadas da nossa categoria, escolheu Elio Gaspari como jornalista do ano, possibilitando na entrega do prêmio esta semana a revelação, por ele mesmo e por outros, de aspectos pouco conhecidos da vida de um profissional que não dá entrevista, raramente fala em público e nunca em seus textos fez uso para si do pronome “eu”. Quem está acostumado com suas colunas, e principalmente com seus livros, onde a prosa atinge altos níveis de excelência estética, não o imagina como Kid Megalô, o apelido que se deu, defendendo a tese de que Copérnico criou a teoria do heliocentrismo não por causa do Sol, mas por causa dele, Elio, em torno do qual gira a Terra.

Esse número humorístico de megalomania não é o único. Quando se juntam nele a graça e a inconveniência, o resultado pode ser uma cena como a que ocorreu ao levar o então deputado Delfim Netto para jantar em sua casa. No elevador, encontraram uma moradora que, ao avistar o ex-ministro, não se conteve: “Ah, ministro, que saudades! Eu era feliz e não sabia.” Elio cortou: “A senhora está maluca? Esse homem infelicitou o país.” Delfim, que já conhecia o número, riu; a senhora emudeceu. Numa reunião de condomínio, o síndico quer proibir o uso do elevador social por uma empregada doméstica, alegando, não a cor, mas o fato de o lugar dela ser no de serviço. Elio perguntou: “Não é uma negra alta, bonitona?” “Exatamente”, foi a resposta”. “Mas ela é minha amante.” Não se falou mais no assunto.

Dono de uma memória prodigiosa, se alguém lhe pergunta como sabe o que sabe, ele responde: “Eu não sei, eu me lembro.” Editor e diretor de várias redações, ele foi rigoroso e até autoritário, mas sem perder o humor. Diante da desculpa de um chefe do departamento fotográfico de que não podia cumprir a tarefa pedida porque não tinha fotógrafo disponível, ele disparou: “E por acaso estou diante de um vaso chinês?”

Nascido em Nápoles, na Itália, Kid Megalô veio com a mãe para o Brasil no pós-guerra, aos 5 anos. Pobre, passou parte da infância num internato em Mangaratiba, enquanto a mãe trabalhava. Aos 19, mudaram-se para a Lapa, onde moraram em quartos alugados, e ele comia num restaurante barato para estudantes. Com os amigos, Elio mantém uma relação que eles classificam de “lealdade mafiosa”, especialmente com os que pertenciam ao andar de baixo, à choldra e à patuleia, para usar expressões que consagrou. A viúva de um deles resume com uma frase histórias de desprendimento que incluem até a perda de um apartamento único por causa de um amigo. Ela diz: “O Elio não faz amizade, faz pacto de sangue.”

Zuenir Ventura
"O Globo"



Pênalti faz mal à saúde

Sei de gente que agora só vai ver a nossa seleção jogar com o cardiologista Cláudio Domênico do lado

Já que a Fifa não proíbe, o Ministério da Saúde deveria lançar uma advertência como a que costuma fazer em situações de risco parecidas: “Assistir a pênalti é perigoso para quem tem mais de 60 anos.” Estou falando não do pênalti como punição por uma falta grave, mas como solução para um empate que se mantém durante duas horas e é resolvido em alguns infindáveis minutos, aleatoriamente, às vezes pelo acaso: uma bola na trave, outra que vai para fora por alguns centímetros. Brasil x Chile para mim, por exemplo, não foi um jogo, mas um teste de esforço em esteira para ver frequência cardíaca. Sei de gente que agora só vai ver a nossa seleção jogar com o cardiologista Cláudio Domênico do lado. Se é angustiante para quem assiste, imagina para o personagem mais dramático do futebol, herói e anti-herói quase ao mesmo tempo — que o diga Júlio César, vilão durante quatro anos e de repente salvador da pátria. Não por acaso, “o culpado” de nossa derrota para o Uruguai em 1950 foi Barbosa, que recebeu uma espécie de pena perpétua. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro esqueceu a febre amarela, a vacina obrigatória, o assassinato de Pinheiro Machado. “Mas o que ele não esquece, nem a tiro, é o chamado frango do Barbosa.”

Foi pensando em tudo isso no sábado, ao ver Júlio César chorando antes de ir para o sacrifício e para a redenção, que me lembrei do franco-argelino Albert Camus, goalkeeper da Universidade de Argel, que ainda jovem teve a carreira interrompida por uma tuberculose e que um dia, quem sabe, poderia ter chegado à seleção da Argélia. Em compensação, a literatura ganhou um de seus melhores craques. Autor de “A peste” e “O estrangeiro”, além de ensaios e reflexões filosóficas como o “Homem revoltado”, Camus ganhou o Prêmio Nobel em 1957 e sempre atribuiu ao futebol tudo o que sabia sobre “moral e as obrigações do homem”. Para ele, o goleiro diante do pênalti era uma metáfora da vida. Quando esteve no Brasil em 1949 para uma série de conferências em várias cidades, o seu primeiro pedido foi para ver um jogo do esporte de que mais gostava. Até hoje não sei se o pedido foi atendido e qual terá sido a partida vista.

Segundo o autor do “Mito de Sísifo”, a condição do goleiro é uma das mais solitárias que existem. Onde ele pisa, como se diz, nem grama nasce. Não sei o que leva alguém a escolher, entre 11 possibilidades, justamente essa, que concentra tanta angústia em quem joga e em quem torce. Espero não viver de novo essa aflição.

Que depois de amanhã Júlio César não precise ser herói. E que muito menos, claro, seja anti-herói.

Fonte: O GLOBO


Com muito orgulho

O GLOBO - 03/07
Quando o gigante acorda - seja nas ruas, seja num estádio de futebol - também desperta na gente um pouco daquele conde Afonso Celso que temos dentro de nós. Quem não sentiu pelo menos uma vez vontade de afirmar "por que me ufano de meu país"? Se eu tivesse ido ao Maracanã domingo, teria deixado de lado o pudor da pieguice cívica para participar do coro que cantou o Hino Nacional à capela ou entoou o "Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor" - eu e mais de 70 mil pessoas.
Assistindo ao jogo com a Espanha pela TV, em casa, sozinho, me arrepiei várias vezes, enxuguei lágrimas, dei pulos com o punho cerrado, fiz enfim tudo aquilo que em geral acho ridículo nos torcedores fanáticos: a vibração histérica e a emoção barata. Nunca pensei que fôssemos reeditar aquele espetáculo de 63 anos atrás, quando o velho Maraca cantou "Touradas de Madri", enquanto dava um olé de 6x1 nos avós de Iniesta e Xavi.

Só que desta vez foi melhor, porque fomos campeões, não morremos na praia do Uruguai, sem falar que o jogo foi mais dramático, com lances épicos eletrizantes, como aquele de David Luiz, com o nariz quebrado, deslizando em alta velocidade até a linha do gol para realizar o impossível: jogar a bola para o alto e por cima do travessão. Não é todo dia que se vê um milagre desses. E o gol de Fred deitado, ele, que no jogo anterior já tinha marcado com a canela? Tão original quanto a proeza foi o comentário do autor: "Fiz tanta coisa boa deitado, faltava um gol." E Neymar, que começou o torneio carregado de dúvidas e terminou empunhando três taças só para ele? Porém, advertem as estatísticas, quem ganha essa competição não ganha a Copa do Mundo. Ótimo, porque pelo visto esse time gosta de contrariar expectativas pessimistas.

Não só em campo o Brasil costuma ser imprevisível.

Assim como a Seleção deu a volta por cima, revertendo as piores previsões, também o cenário político mudou de um dia para o outro, desarrumando os prognósticos eleitorais para o ano que vem. Quem poderia prever que a popularidade de Dilma iria despencar de 57% para 30%? E a de Alckmin, de Haddad, de Cabral e de Eduardo Paes? O mais divertido é que não dá para partido algum comemorar. Todos perderam. Ainda bem. Ninguém pode cantar de galo e tripudiar: "Eu não disse?" Mais uma vez ficou provado também que todos nós - jornalistas, institutos de opinião, sociólogos, analistas políticos - não falhamos: acertamos sempre o que passou, nunca o por vir. Somos profetas do passado
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Algo de podre no reino das obras

Não quero ser alarmista, mas se o Engenhão, com pouco mais de seis anos, teve que ser interditado por causa de ferrugem no arco da cobertura, o que dirá o Elevado do Joá, com seus 40 anos de existência, sujeito à maresia e a uma duvidosa manutenção? A Coppe já deu a resposta. Através de laudo técnico, diagnosticou que "o estado de degradação estrutural pelo avanço da corrosão compromete a segurança do viaduto". Tudo bem que foram tomadas providências emergenciais para os reparos parciais. Mas será que isso resolve? Engenheiros acham que não. O professor Miranda Batista, que coordenou o estudo, é taxativo: "A vida útil do Joá acabou. A reforma que a prefeitura promete fazer cobre apenas as áreas onde o problema é visível. Mas 60% delas não podem ser fiscalizados." O vice-presidente da Associação Brasileira de Pontes e Estruturas (ABPE,), Ubirajara Ferreira da Silva, também defende a restauração completa do elevado. "O que o prefeito propõe é atuar com base na incerteza", ele acusa.

Eduardo Paes alega que, como restam de fato incertezas sobre as reais condições de conservação nas partes internas da construção não visíveis por falta de acesso, é mais econômico realizar as obras que, ao longo do tempo, forem apontadas como necessárias. Mais econômico, sim. O trabalho inteiro custaria mais de R$ 100 milhões. Em compensação, a solução não seria muito mais segura? O relatório dos técnicos não deixa dúvidas quanto à gravidade do desgaste estrutural dos "dentes de apoio das vigas". Quem já viu um filme parecido com final trágico, como a queda do Elevado Paulo de Frontin, em 1971, não passa hoje pelo Joá despreocupadamente. Como desabafou a jornalista Leda Nagle: "Não posso ficar calada, fingindo que não sei que o viaduto está corroído e ameaçado."

É evidente o perigo que oferecem nossas obras públicas. O Engenhão, além de tudo, não suporta nem ventos de mais de 60km; o Joá, com estrutura soltando pedaços, é uma situação de risco; prédios do Minha Casa Minha Vida desabando antes de inaugurar; o BRT Transoeste, de apenas nove meses, tendo que refazer o asfalto da pista. Enfim, não dá para não se assustar. Quaisquer que sejam as causas - defeitos no projeto, falhas na execução, precariedade de material, falta de fiscalização, descuido com a manutenção ou tudo isso, a verdade é que há algo de podre com as nossas edificações oficiais, e a culpa talvez não seja apenas da engenharia.

Fonte: O GLOBO


O PREFEITO E O PROMETIDO

Com o apoio da maioria dos vereadores e do alto de seus mais de 2 milhões de votos, o prefeito reeleito pode tudo, até descumprir promessas de campanha. Ainda é cedo para cobrar o cumprimento de todas, mas já se pode discutir o descumprimento de algumas, como o caso dos transportes e do IPTU. Não me lembro se ele prometeu não aumentar os ônibus, mas duvido que tenha anunciado que haveria outro reajuste de 10% em 2013, elevando para R$ 3,02 as passagens, que serão então as mais altas da região, incluindo SP. Não consigo imaginá-lo num comício anunciando: “E vou aumentar as passagens de ônibus!” No caso do IPTU, ele sempre poderá dizer que foi ambíguo, que não garantiu nada. Quando lhe perguntaram em uma entrevista o que faria, ele desconversou e respondeu que iria “olhar a questão”, acrescentando: “O que não resultará necessariamente em aumento.”

A vereadora Andréa Gouvêa Vieira, no entanto, considera a atitude do prefeito “politicamente vergonhosa do ponto de vista ético”. Segundo ela, “ele disse várias vezes na campanha eleitoral que não mexeria no imposto. Quando, depois da eleição, retirou este item da sua lista das promessas, mentiu de novo, dizendo que o assunto ainda estava em estudo. A proposta está pronta há muito tempo, tanto é que o projeto de lei está chegando à Câmara Municipal”. Na verdade, depois de uma reunião com 27 vereadores na segunda-feira e diante da reação da sociedade, o prefeito mudou de ideia: “A gente queria aprovar para o ano que vem, mas não há tempo pra isso. Essa é uma discussão que a gente vai ter o ano que vem inteiro.”

Vai ter, sim, porque uma das queixas mais ouvidas foi a falta de transparência nos critérios a serem adotados. Admite-se a necessidade de correção de valores, que estão defasados, pois a tabela de cobrança é de 1997, que previa inclusive abatimentos para imóveis em áreas de risco, junto a favelas agora pacificadas. Também não é justo que cerca de 700 mil paguem o seu imposto e mais de um milhão estejam isentos. Portanto, uma atualização seria razoável. Mas e a contrapartida? O que o contribuinte receberá em troca? “Só ando a pé e quase caio com os buracos nas calçadas e os desníveis”, reclamou um aposentado do Alto Leblon, repetindo uma queixa de moradores de vários bairros. “É tão absurdo que nem acredito que será mesmo apresentado”, reagiu o ex-prefeito Cesar Maia, agora na cômoda posição de vereador oposicionista.


NEGÓCIO DA CHINA

O mundo esportivo está surpreso com o desempenho dos atletas chineses, que disputam com os americanos a liderança das Olimpíadas de Londres. São mais de 60 medalhas até agora, das quais cerca da metade de ouro. Qual o segredo do rápido sucesso de um país que em 1992, em Barcelona, conquistara apenas 16 delas, mas já em 2008 pulara para 51, superando os EUA? Wu Minxia e He Zi, que no domingo arrasaram no salto ornamental em trampolim de três metros, podem exemplificar o fenômeno. Durante um ano, a BBC de Londres acompanhou a preparação das duas e chegou à conclusão de que elas foram submetidas a um regime de trabalho forçado, ou quase. Junto com outros colegas, elas foram confinadas num ginásio, tendo livre apenas uma tarde de domingo por semana. Do centro de treinamento para os dormitórios, iam de ônibus e, no percurso, o mundo exterior era apenas vislumbrado pela janela. Nos apartamentos, que dividiam com outras, nada de visitas de fora. As refeições eram feitas em conjunto numa cantina comunal. "A vida dos atletas consiste em três coisas: treinar, comer e dormir", observa um funcionário do local. He Zi, de 20 anos, e Wu Minxia, de 26, não têm namorados. "Eu coloco todo meu coração e a concentração no treinamento. Não penso em muitas coisas além disso", afirma He.

Quase ao mesmo tempo, o jornal britânico "Daily Mail" publicou fotos da preparação esportiva de crianças chinesas, perguntando se não constituíam de fato tortura os castigos físicos a que são submetidos meninos e meninas de 7 ou 8 anos de idade. As imagens são impressionantes. Em uma delas, uma garota de bruços, com os braços abertos, a cabeça levantada, chora de dor. Atrás, a instrutora segura uma espécie de palmatória. Em outra foto, um pé do treinador pisa forte a perna de uma menina deitada no chão, o rosto contraído, a boca aberta num grito que lembra o quadro de Edvard Munch. É chamado de "fábrica de atletas" esse processo capaz de criar fenômenos olímpicos como o de outra jovem, a nadadora Ye Shiwen, de 16 anos, que conquistou duas medalhas de ouro num tempo tão extraordinário que levantou a suspeita de doping. Parece que não era. É apenas mais um exemplo do "milagre" do sistema, impiedoso e desumano. Prefiro o nosso, mesmo precário e sem conseguir tantas medalhas. Se o governo chinês castiga assim seus atletas infantis, a pretexto de transformá-los em heróis olímpicos, o que não faz com os dissidentes políticos?

Clique aqui e veja slides com imagens do treinamento dos atletas chineses.

Colaboração de: Léa Ferreira


PREGUIÇA DE SOFRER

Há 26 anos, elas cumprem uma alegre rotina: às sextas-feiras pela manhã sobem a serra e descem aos domingos à tarde, quando não permanecem a semana toda lá, em sua casa de Itaipava, distante hora e meia do Rio. São quatro irmãs de sobrenome Sette - Mily, a mais velha, de 86 anos; Guilhermina (84), Maria Elisa (76) e Maria Helena (73) - mais a cunhada Ítala (87), a prima Icléa (90) e a amiga de mais de meio século, Jacy (78).

O astral e a energia da "Casa das sete velhinhas" são únicos. Elas cuidam das plantas, visitam exposições, assistem a shows, lêem, jogam baralho, conversam, discutem política, vêem televisão, fazem tricô, crochê e sobretudo riem. Só não falam e não deixam falar de doença e infelicidade. Baixaria, nem pensar.

Quando preciso tomar uma injeção de ânimo e rejuvenescimento, subo até lá, como fiz no último sábado. Já viajamos juntos algumas vezes, como a Tiradentes, por cujas
redondezas andamos de jipe, o que naquelas estradas de terra é quase como andar a
cavalo. Tudo numa boa. Elas têm uma sede adolescente de novidade e conhecimento.

Modéstia à parte, são conhecidas como "As meninas do Zuenir". Me dão a maior força. Quando sabem que estou fazendo alguma palestra no Rio, tenho a garantia de
que a sala não vai ficar vazia. São meu público cativo e ocupam em geral a primeira fila. Numa dessas ocasiões, com a casa cheia, elas chegaram atrasadas e fizeram rir ao se anunciarem a sério na entrada: "Nós somos as meninas do Zuenir".

Nos conhecemos nos anos 70, quando morávamos no mesmo prédio no Rio e Maria Elisa, que é química, passou a dar aulas particulares de matemática para meus filhos, ainda pequenos, de graça, pelo prazer de ensinar. Depois nos mudamos, continuamos amigos e nossa referência passou a ser a casa de Itaipava, onde minha mulher e eu temos um cantinho, um pequeno apartamento na parte externa da casa, os "Alpes suíços". No começo o terreno não passava de um barranco de terra vermelha. Hoje é um jardim suspenso, com árvores e flores variadas que constituem uma atração para os pássaros.

Dessa vez, não cheguei a tempo de ver a cerejeira florida, mas em compensação assisti a uma exibição especial de um casal de papagaios. O interior da casa é um brinco, não fossem elas meio artistas, meio artesãs, todas muito prendadas, como se dizia antigamente. Helena e Jacy, por exemplo, tecem mantas e colchas de tricô e crochê que já mereceram exposições. Mily desafia a idade preferindo as novas tecnologias e a modernidade, sem falar no vôlei, de que é torcedora apaixonada. Sabe tudo de computador e, com Jacy, frequenta todos os cursos que pode: de
francês a ética, de inglês a filosofia.

Na parede, Tom Jobim observa tudo. A foto é autografada para Elisa, de quem
ele foi colega no Andrews. Aliás, nesse colégio da Zona Sul do Rio, Guilhermina trabalhou 53 anos, como secretária e professora de Latim, que ela ensinava pelo método direto, ou seja, falando com os alunos. Ficou muito feliz quando na praia ouviu, vindo de dentro do mar, o grito de alguém no meio das ondas, provavelmente um surfista: "Ave, magister!".

Amiga de personagens como o maestro Villa-Lobos, ela ajudou ou acompanhou a
carreira de dezenas de jovens que passaram por aquele tradicional colégio, cujo diretor uma vez lhe fez um rasgado elogio público, ressaltando o quanto ela era indispensável ao educandário. No dia seguinte, ela pediu as contas, com essa sábia alegação: "Eu quero sair enquanto estou no auge, não quando não souberem mais o que fazer comigo".

Foi para casa e teve um choque, achando que não ia suportar a aposentadoria. Durou pouco, porque logo arranjou o que fazer. É tradutora e gosta muito de etimologia: adora estudar a vida das palavras desde suas origens, principalmente quando são gregas. Ah, nas horas vagas faz bijuterias.

Para explicar como se desvencilhou do vazio de deixar um emprego de 53 anos e começar nova vida já velha, Guilhermina usou uma frase que se aplica a todas as outras seis velhinhas e que eu gostaria de adotar também: - "Tenho preguiça de sofrer". Não são o máximo as meninas do Zuenir?

Zuenir Ventura
Colunista do "O Globo"
[email protected]


Quem quiser que se fume

Os médicos que opinaram sobre o câncer de Lula foram unânimes em atribuir a causa da doença ao uso do cigarro (e, em segundo lugar, ao da bebida alcoólica), o que não é novidade, pelo menos para mim, que há 15 anos descobri que o tumor maligno que se instalara na minha bexiga tinha como causa o fumo.

O que nem todos sabem é que fumar charutos (e cigarrilhas) também faz mal à saúde. Tenho amigos que adotam a velha mania consagrada por Fidel Castro — que, aliás, a abandonou há tempos — e, despreocupados, enchem o peito (de fumaça) para anunciar que se encontram a salvo: “Deixei o cigarro, agora só fumo charuto.” Como alegações, dizem que não tragam e que só fumam de vez em quando.

Acontece que já há evidências científicas de que, mesmo quando não se inala ativamente a fumaça, ou seja, sem tragar, o charuto pode ser tão nocivo quanto o cigarro. Em 1998, o Instituto Nacional do Câncer dos EUA divulgou um estudo afirmando que o hábito está associado a vários tipos da doença, incluindo os tumores da cavidade oral (lábios, língua, bochechas, garganta), do esôfago, laringe e pulmão.
A pesquisa foi realizada com pessoas que consumiam um ou dois charutos por dia e que, na maioria, não tragavam.

A coragem e a transparência com que o ex-presidente está lidando com o câncer, sem escondê-lo ou disfarçá-lo, servem como exemplo no combate a um mal tão estigmatizado e na luta contra o tabagismo, que muitos consideram exagerada e indevida.

Em nome dos direitos individuais, há os que condenam as proibições e as campanhas antitabagistas. O escritor Vargas Llosa, neoliberal e ex-dependente da nicotina, chegou a escrever que “suicidar-se aos poucos” é um direito de cada um e que “é impossível não sentir uma certa solidariedade cívica com os fumantes”, que estariam sendo tratados como “cidadãos de segunda classe”.

Acho que não é bem assim e apelar para o livre-arbítrio e os valores democráticos é um pouco demais, pois a liberdade de um termina quando sua fumaça começa a incomodar o outro e a fazer-lhe mal.
De minha parte, desisti do apostolado antitabagista quando não consegui catequizar nem minha mulher, que só abandonou o vício quando se decidiu por conta própria.

Otto Lara Resende, quando se livrou do tabagismo, criou a categoria dos “viciados em não fumar”, a que pertenço. Mas sem proselitismo.

Hoje, sigo o preceito de Rubem Braga, que perdeu um pulmão e acabou morrendo em consequência de um câncer na laringe. Militante da causa contra o fumo e irritado por não conseguir converter os inveterados, o genial cronista um dia perdeu a paciência: “Quem quiser que se fume.”
PS — Sei que os usuários de um “puro” recorrem como álibi ao caso de Oscar Niemeyer, que com quase 104 anos continua fumando cigarrilhas e está aí firme e forte. Esquecem que ele é exceção até nisso.

Zuenir Ventura
Colunista do "O Globo"
[email protected]


Um tipo inesquecível

Em mais de 50 anos de jornalismo, acho que não vi na profissão um chefe tão jovem reunir em torno de si tanto respeito e estima quanto Rodolfo Fernandes. E tanta admiração. Ao mesmo tempo suave e rigoroso, delicado e exigente, nunca foi surpreendido levantando a voz. Entre as lições que deixou está a de que é possível exercer a liderança sem autoritarismo, apenas com talento e competência. A sua tão bem-sucedida gestão no GLOBO mostrou isso, o que explica a impressionante comoção que sua morte, aos 49 anos, causou nos colegas de trabalho. No velório, pessoas acostumadas pelo ofício a conter a emoção custavam a disfarçar a dor e a segurar o pranto.

Em meio à recordação de histórias envolvendo Rodolfo, um dos editores lembrava sua delicadeza no trato com os subordinados: era possível sair de sua sala acreditando ter recebido um elogio para logo depois se dar conta de que na verdade a matéria recebera uma crítica sutil e certeira. Outro ressaltava o estoicismo com que ele enfrentou a esclerose incurável, perversa, que tira do paciente tudo, menos a lucidez, conservando intacta a mente. Segundo outra vítima, o historiador britânico Tony Judt, morto há um ano, é "a pior de todas as doenças neuromusculares", porque faz com que "a pessoa fique cansada só por existir".

Rodolfo, porém, manteve uma incansável disposição para o trabalho. Até às vésperas de morrer, exercitou seu admirável senso de humor e sua incrível generosidade. Quando há meses tive um problema e fui parar na UTI, ele me mandou um e-mail: "Levei um susto. Ótimo que já está tudo bem." Era capaz de gestos assim. Desenganado, com os dias contados, ainda tinha a grandeza de se preocupar com a saúde de um amigo e torcer por sua recuperação. Em outra mensagem, ele me informava: "A vida não está muito fácil, mas vamos em frente. Quem sabe um dia, pelos desígnios da vida, a gente ainda não se encontra caminhando no calçadão?" Com certeza não acreditava nisso, mas é provável que quisesse me fazer acreditar, como forma de acenar com alguma esperança em relação a ele. Confortar, dar força aos outros mesmo quando a sua já estava acabando, fazia parte de seu astral.

Nesses últimos dois anos, quem melhor sentiu as reações de Rodolfo, além dos familiares, foi seu médico Paulo Niemeyer. Ainda que respeitando o distanciamento que sua profissão exige, o neurocirurgião não consegue esconder a admiração que nutriu por aquele paciente tão singular, de quem em meio a uma batalha perdida nunca ouviu uma palavra de ressentimento, um impropério, sequer uma queixa.
Grande Rodolfo! Inesquecível.

Fonte: Site da  globo
Autor: Zuenir Ventura


O dia em que fui manchete

Vocês devem ter visto a brincadeira.
Os colegas do jornal imprimiram uma falsa primeira página dedicada a mim, incluindo a manchete. A emoção da surpresa quase fez comigo o que o tempo ainda não conseguiu. Por pouco me tirava de campo. Foi o presente de aniversário mais original e criativo que já recebi. Sim, porque fiz 80 anos. Não sei o que o Cristo Redentor está sentindo, já que temos a mesma idade, embora ele esteja mais bem conservado. Quanto a mim, acho que tem gente que merece mais do que eu. Em compensação, estou na companhia ilustre de João Gilberto, FHC, Chico Anysio e Alberto da Costa e Silva, dos que me lembro. Em 1962, Otto Lara Resende escreveu um artigo falando de “crise dos 40”. Hoje, 40 anos é um começo. Graças aos avanços da gerontologia, não se fazem mais velhos como antigamente. Os de hoje são muito mais jovens. Basta dizer que os velhinhos de barba e cabelos brancos daquela galeria de antigas celebridades que vemos nos livros não passaram dos 70.

Quem diria que o vetusto D. Pedro II era cinco anos mais novo do que Pelé, com 71? E Machado de Assis de pincenê parece da idade de Roberto Carlos? O provecto Marx tinha quatro anos menos que os 69 de Caetano. A imagem do Barão de Itararé é a de um avô do Ziraldo, e era três anos mais jovem do que o quase octogenário pai do Menino Maluquinho. Já Freud aparentava o que tinha, 83. Mas duvido que aguentasse o pique do jovem Barretão, colega de idade.

Indo mais longe, Cícero, o romano, era um sessentinha que se sentiu com experiência suficiente para escrever um clássico sobre o tema: “De senectute”. Já Norberto Bobbio, muito tempo depois, só se achou maduro para fazer o seu “De senectute” com mais de 80 anos. Entre a exaltação de Cícero e a depreciação de Bobbio (“Quem louva a velhice não a viu de perto”), prefiro o meio termo. Não caio de paixão pela velhice, mas não concordo com Oscar Niemeyer, que a acha “uma merda” (mas não quer sair dela). A própria adolescência, tão idealizada à distância, é uma das fases mais atormentadas da existência. Não acredito, porém, no mito da ancianidade como fonte de sabedoria. Conheci idiotas aos 18 e aos 80 (vai ver vocês estão falando com um).

De todos os ritos de passagem, o mais traumático foi a virada dos 60, quando descobri que nunca mais faria outros 60 e que passaria a ser chamado de “idoso”. Senti como agora o descompasso entre o relógio cronológico e o biológico. Ou o primeiro está adiantado ou o segundo, atrasado. Existe, porém, uma virtude anciã a ser exaltada: a tolerância. Por causa dela é que, olhando o pôr do sol, a gente consegue ver no ocaso a presença de uma serena e crepuscular beleza — quando a vista não falha, bem entendido.

Como presente de aniversário, estou me dando uns 15 dias de descanso — para mim e para vocês.


A lição do acorrentado

O homem acorrentado na amurada da Câmara Municipal do Rio funcionou como um símbolo. Sem qualquer organização por trás, nem partido político nem ONG, o balconista de 52 anos, dono de uma velha Parati de R$6 mil, encarnou o protesto da opinião pública contra mais um desvio de conduta dos vereadores - desta vez com a compra de carros de luxo no valor de R$69 mil cada para os representantes de quem anda de trem, ônibus, metrô, quando não a pé, isto é, o povo. A lição do episódio foi clara: o Legislativo e o Executivo só agem sob pressão popular, seja diretamente ou através da mídia. Pena que os eleitores exercitem tão pouco o seu poder.

Não se deve generalizar, mas no caso apenas uma exceção de cinco rejeitou logo o presente: Teresa Bergher, Brizola Neto, Andrea Gouvêa Vieira, Eliomar Coelho e Paulo Pinheiro. A maioria, ou aceitou correndo ou se arrependeu ou ficou indecisa, com certeza esperando a repercussão. O presidente da Casa não explicou por que desistiu da compra, se a considerava tão normal. Preferiu tirar o corpo fora e repassar a responsabilidade para os colegas, alegando que, numa reunião em março para tratar do assunto, 41 "defenderam veementemente a aquisição". De qualquer maneira, foi por causa dos efeitos negativos do seu ato que ele voltou atrás.

É bom não esquecer, porém, que nesse quesito de desvios a Câmara Municipal não está sozinha - ela enfrenta a concorrência da Câmara Federal e do Senado. Agora mesmo se soube pela imprensa que, se for aprovado com todas as alterações propostas, o novo Código Florestal Brasileiro protegeria pelo menos 27 deputados federais e três senadores integrantes da bancada ruralista. Eles se livrariam de multas milionárias e se beneficiariam de desmatamentos irregulares.

Quando não pecam por fisiologismo, pecam por inação ou omissão. O repórter José Casado acaba de mostrar o impressionante estado de inércia e quase falência em que se encontra o Congresso, que, como disse o deputado Miro Teixeira, tomou "a decisão de não decidir", pois não consegue votar os cerca de 30 mil projetos de lei que se encontram à espera de apreciação. Para isso, necessitaria de um século, com os parlamentares trancados votando sem cessar. Só de contas presidenciais há atrasos de até 21 anos, como as do governo Collor. O ex-presidente sofreu impeachment, caiu no ostracismo, candidatou-se sem sucesso ao governo de Alagoas, foi eleito para o Senado, e suas contas continuam aguardando aprovação.

Tem razão o senador Itamar Franco, ao confessar: "Nós estamos nos desmoralizando. Se continuarmos com esse processo de aviltamento do Legislativo, todos sabem o que acontece." O mais grave é que, se acontecesse o pior, não se daria pela falta, o que seria péssimo para a democracia.


Uma mente perigosa

Ainda não dá para mudar de assunto, por mais triste que seja continuar. Primeiro, o choque da chacina; agora, o impacto dos manuscritos revelados pelo "Fantástico". Antes, muitas hipóteses haviam sido levantadas na busca de explicação para a tragédia de Realengo e para a motivação do atirador: fácil acesso às armas, falta de segurança na escola, fanatismo religioso, cultura da violência, vingança. A influência de cada um desses fatores no massacre variava conforme a visão de quem analisava. A isso veio se juntar o que foi alegado ou o que se depreende dos escritos deixados pelo suicida: humilhação, rejeição, a inspiração do 11 de setembro de 2001, a má interpretação do Alcorão, os ensinamentos da internet de como conseguir munições, o transtorno mental, as perseguições ou bullying.

Mas como essas possíveis causas não são excludentes, o mais provável é que o fator determinante tenha sido a explosiva conjugação de todas elas, convivendo numa cabeça atormentada e perigosa.

A primeira dificuldade de entender o que significam os textos do assassino é descobrir onde termina a realidade e começa a fantasia, o que é literal e o que é delírio. A ambiguidade está sempre presente. É uma escrita com erros de ortografia, mas com fluência, que grafa "escelência", mas usa termos mais ou menos cultos ("ícone", "meditação", "infiéis"). Uma mente tumultuada, mas que persegue com lógica o seu objetivo - tanto que conseguiu. Numa das cartas, ele denuncia como álibi: "Muitas vezes aconteceu comigo de ser agredido por um grupo e todos (...) se divertiam com as humilhações que eu sofria." Parece que não há registro disso na Tasso da Silveira, mas um antigo colega de turma de Wellington em outra escola relatou para os repórteres Mariana Belmont e Vinicius Lisboa dois episódios capazes de deixar sequelas no ego de uma personalidade equilibrada, quanto mais no de uma transtornada.

No primeiro, "três garotos enfiaram a cabeça dele no vaso sanitário". No segundo, "vi jogarem o cara de cabeça para baixo dentro de uma lata de lixo e tamparem". Segundo a testemunha, ele teve que balançar a lata e derrubá-la para sair. Não protestou, preferiu armazenar a raiva. Nenhum desses supostos abusos justifica o que ele fez dez anos depois, e contra outra escola, até porque há ocorrências diárias de bullying em todo o mundo, e as chacinas são exceção. Mas podem ter contribuído. Assim, da mesma maneira que se pensa em promover o desarmamento, seria a hora de repensar a questão da violência interna nos colégios. Fala-se muito em detector de metais na entrada, em guardas no portão, em aumentar enfim o policiamento. Fala-se pouco em combater, por meio de um controle rígido com inspetores e câmeras, esse provedor de ódio que é o bullying.


Os Zeróis e um Suspeito

Como somos amigos muito próximos, inclusive no alfabeto, onde apareci para não deixá-lo ser o último em qualquer chamada, me considero suspeito para recomendar a exposição de Ziraldo no Centro Cultural Banco do Brasil: "Zeróis — Ziraldo na tela grande." Falta-me isenção. Portanto, se eu vier com aquela conversa de que é uma mostra impressionante, imperdível, indispensável etc, desconfiem e prefiram ir lá conferir. Com seus próprios olhos, vocês farão uma viagem através de interferências, paródias e alusões do autor a algumas obras primas da pintura universal. São os heróis de sua infância (Tarzan, Batman, Capitão América, os comics em geral) e as admirações estéticas de sua maturidade: Velázquez, Picasso, Goya, Dali, Grant Wood, Lichtenstein, Andy Wharol. São ao todo 44 telas, algumas com quase dois metros, outras até com mais.

Prestem atenção, por exemplo, em "Las meninas na África" (o meu preferido), "Hopper e a solidão americana", "Super-Picasso", "The Wonder Maja" e me digam se concordam com a minha opinião de que são geniais recriações de originais célebres. Mas, como avisei, eu sou suspeito. Só acreditem quando eu disser que saí da exposição morto de inveja do talento polivalente de meu amigo que, se não bastasse tudo o que já faz como escritor infantil, humorista, artista gráfico, designer, chargista, cronista, resolveu agora ser pintor, ou seja, deu um salto mortal da prancheta para o cavalete e se salvou. Aos 78 anos, ele ameaça começar uma nova carreira. E tem futuro. Mas, enfim, eu sou suspeito para dizer.

Foi dito que o "Jornal do Brasil" deixará de circular em papel para "entrar na modernidade". Acho que o melhor epitáfio não é esse, mas outro: "Deixou a vida para entrar na História", como Getúlio Vargas. Sim, porque o JB não morreu de morte natural, mas de suicídio — lento e aguardado, melancólico, deixando órfãs várias gerações. Não há jornalista com mais de 40 anos que não tenha passado pelo JB, ou não tenha querido passar. Ele foi uma escola, um laboratório de experimentação técnica e um espaço de resistência cívica. A bravura com que enfrentou o AI-5 em 1968, na ditadura militar, é lendária. Por isso, ele não tinha leitores, mas torcedores.

Desculpem falar hoje de dois temas sobre os quais não tenho o menor distanciamento: o elogio de um pintor amigo que surge e o obituário de um ente querido que desaparece, ou seja, de uma instituição à qual minha família dedicou parte de sua vida. Para vocês terem ideia, lá em casa, somando os tempos de serviço — o meu, o de minha mulher e o de meu filho — foram quase 40 anos de JB. Como manter a objetividade e não derramar um pranto?

Zuenir Ventura
Colunista do "O Globo"
[email protected]

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