ROBERTO DAMATTA

SEM DIAS: VELHICE E CRISE MORAL

A HORA DO CIDADÃO COMUM

A NECESSIDADE DO OUTRO

JUÍZO FINAL: VOCÊ SABE QUEM ESTÁ JULGANDO?

QUATRO PALPITES SOBRE UM BATE-BOCA

CÂNCER, FORMICIDA E LEITE CONDENSADO

SEM DIAS: VELHICE E CRISE MORAL

Após os males do Império, da escravidão, da Velha República reformada em Estado Novo, tudo continua no mesmo lugar agora sob o sol amarelo da ‘esquerda’

Dilma completa cem dias de governo e, entre malandragens e trapalhadas, os amigos dizem que eu — com 78 anos! — não sou velho!

Mas como quem sabe de mim sou eu; ele, o meu eu (ou pelo menos um dos seus múltiplos sujeitos) me afirma e confirma a velhice. Como? Pela impossibilidade de descer a escada do meu escritório-biblioteca-fábrica de estrume sem segurar no corrimão. Meu equilíbrio, o qual, nos meus jovens 60 anos, me permitia lidar com três objetos ao mesmo tempo, tal como os artistas de circo ou os pugilistas de filmes pornográficos, sumiu pelos neurônios do meu cérebro.

Afora essa e outras impossibilidades impublicáveis numa crônica, chega à minha mente (uma entidade muito mais complexa que o meu mero cérebro) um total desânimo e, confesso, um intenso desejo de sair do palco. Não de morrer propriamente, com todos os ritos e rezas (que espero não ter), mas de ficar no meu canto porque eu olho pra rua e só vejo ruína, desespero, incompetência, descaso, insulto, mentira, malandragem e desonra.

Uma das sensações mais claras do fim de uma existência é descobrir que o drama no qual você entrou como um ator não convidado — pois ninguém escolhe onde vai nascer ou se deseja nascer — não funciona porque a companhia teatral, o diretor, o contrarregra, o produtor, o ator principal e parte da plateia estão liquidando com a peça — no caso, com o Brasil. O Brasil que eu pensava que ia deixar de ser um ninho de ratos para ser um lugar razoável para se viver. Essa sensação de estranhamento e de desentendimento com o mundo é um sintoma claro de que não há mais nada a representar ou, pior que isso, de estar fazendo o papel de idiota ou, como dizem alguns ex-amigos, de reacionário.

De agente da anti-história que infantilmente ainda fica indignado com a ladroagem quando não entende que o projeto político em curso é comprar com o dinheiro roubado da sociedade a tal “democracia popular”; é o de transformar o Brasil num paraíso socialista moreno como dizia, apesar de todos os pesares, um nobre pensador como Darcy Ribeiro (aliás, permitam-me uma pausa: o que diria ele se estivesse testemunhando essa fieira de vergonhas relativas ao que se chama vulgarmente de “governo” transformado, nessa última década, numa quadrilha cujo objetivo é assaltar o povo trabalhador do Brasil. Fim da pausa). É claro que, ao lado desse projeto social-popular, alguns viram duques mas isso faz parte do jogo e do “realismo” implacável da política brasileira.

Outro sintoma é acordar em meio às trevas, quando todos são virtualmente mortos, roncando serenamente para vagar como alma penada, justamente porque a alma não sabe mais onde está. Sabe, contudo, e com a certeza mais absoluta, que não pode mais ficar em plena sintonia com o corpo: esse corpo brasileiro sujeito a um Brasil que derrete pela crise moral que o desmorona por todos os lados.

Sou de uma geração caracterizada por uma mudança cosmológica. Para nós, “esquerdistas”, o futuro não seria mais comandado pela Religião e pelas compensações do outro mundo, mas pela Política, a qual transformaria (por bem ou por mal) esse mundo. Queríamos o Paraíso agora, como me ensinou um jovem Richard Moneygrand de olhos muitos azuis numa Harvard banhada de intensa luminosidade.

O sonho permanece, como todas as ilusões — nem o velho Freud viveu sem elas. A questão é descobrir que depois dos males do Império, da escravidão, da Velha República reformada em Estado Novo — enfim do domínio da “direita entreguista e racionaria”, tudo continua no mesmo lugar agora sob o sol amarelo da “esquerda” petista. Essa esquerda que rejeitaria os sindicatos, que “não roubava nem deixava roubar” mas que — no poder — autoemasculou-se justamente pelo saque aberto da coisa pública em nome de um republicanismo pervertido.

O centro da crise moral — que conduz à morte dos valores que nos tornam humanos e nos salvam, justamente porque demandam tudo de cada um de nós naquilo que se chama de crença, honradez, fidelidade, trabalho e esperança — jaz justamente na depravação de que a nossa história não dependeria de nós. Ela, como os elevadores, seria determinada por dispositivos automáticos. Hoje, com os olhos arregalados, descobrimos que não está. Não pode ser entregue a um só ator como um Lula ou uma Dilma e seus comparsas. Tem que ser de todos nós.

A crise moral que atinge todas as esferas do nosso sistema, exceto o da aristocratização sistemática, a qual conduz a impunidade e a garantias que roubar do povo é um belo projeto de vida, consolidou-se e está sendo revelada justamente porque um grupo de procuradores e juízes tem firmemente atuado em conjunto com a polícia federal.

Só isso — e uma mudança radical do nosso sistema jurídico-político-teológico — pode nos salvar na nossa indiferença, da nossa insanidade pública e da nossa perversidade. Os ratos não estão só no navio, estão — valha–nos Deus! — em todo lugar!

Fonte: Jornal O Globo
Roberto DaMatta é antropólogo


A HORA DO CIDADÃO COMUM

O povo se cansou de testemunhar que o crime compensa quando o roubo é feito por agentes públicos graduados

Passei a semana acompanhando a CPI da Petrobras, lendo os jornais mais importantes do Brasil e seguindo pessoalmente as manifestações. Não fui ao Rio, mas fiquei numa Niterói ilhada por obras que, espero, venham a melhorar a minha vida: a vida de um homem comum que, durante décadas, tem trabalhado no Rio e em todo lugar. Sujeito que subiu em ônibus, tomou barca, lotação e foi do tempo do andar de bicicleta e a pé.

Dizer que há uma guerra entre ricos e pobres ou afirmar, como fazem os áulicos da presidente Dilma, que “o contra” é mais motivador do que o “a favor” é ficar no mais imbecil dos sofismas.

Pois quem é a favor é contra e quem é contra é a favor. De alguém, de alguma causa ou coisa. No caso: o povo manifestou-se contra um governo paralisado por sua mendacidade, mas a favor da punição dos ladrões do mais pornográfico sistema de corrupção jamais montado no Brasil. Um sistema que vem do centro do poder e chega à periferia da sociedade É claro que as pessoas estão contra o governo Dilma, mas estão a favor daquilo que move todo povo trivial e idiota: a honestidade, a dor de consciência, a vergonha de testemunhar o furto daquilo que faria o progresso e o bem-estar de um Brasil que eles não acham que é atraso ou babaquice amar.

Do mesmo modo, todo rico tem quem seja mais rico e todo pobre conhece alguém mais pobre. Trata-se de uma oposição segmentar, como diziam os antigos sociólogos ou, como dizem os mais jovens, é um fractal. Como acontece com a oposição entre a casa e a rua na sociedade e, na política, entre direita e esquerda. Não é preciso pensar muito para descobrir que a casa tem uma rua (e vice-versa) e que cada direita tem a sua esquerda. Ou o velho Trotsky não foi assassinado? Quem o matou foi a direita ou a esquerda do stalinismo?

Quando eu fiz uma pesquisa num bairro periférico de São Paulo com pessoas que se definiam como “pobres”, fiquei parvo ao descobrir que todos, rigorosamente todos, se diziam pobres. Assim como os porta-vozes de Dilma que dizem querer um “diálogo” que termine por calar a nossa boca: a boca que foi calada por tanto tempo do cidadão comum. O tal povo que, neste movimento histórico, sai das asas dos partidos. Seja porque eles são todos falidos, mentirosos, malandros — maquinas de enricar seus membros; seja porque ninguém atura mais os Lulas, as Dilmas, as Gleises, os Cardozos (com z), os Dirceus (o “capitão do time”) os seus mensaleiros-jogadores, os Mantegas e as Rosemarys com suas pachorras e bebês.

O homem e a mulher comum se cansaram de pagar a conta da bomba de hidrogênio que foi o roubo ordenado, calculado, com um óbvio viés político-ideológico-partidário na maior e mais querida empresa do país.

Ouvir o Sérgio Gabrielli na CPI foi uma aula e um insulto. Ouvir novamente as reuniões do Supremo ou dos outros tribunais não pode mais ser um outro ato de autoflagelação. Ou mais uma aula de douta malandragem. O povo se cansou de testemunhar que o crime compensa quando o roubo é feito por agentes públicos graduados, eleitos para redimir e não sacanear o Brasil. Pois cada oitiva não termina numa lição de justiça, mas numa pedagogia de corrupção. Numa demonstração dos dotes necessários para bem roubar o Brasil: ter cara de pau, cinismo, frieza, ousadia, ausência absoluta de espírito publico, de patriotismo e, acima de tudo, de gosto pela malandragem que não dá em nada!

O outro aprendizado tenebroso é o seguinte: para roubar nesta escala e com tanta legitimidade, é preciso ser governo. Quem rouba não é o partido, nem as empresas, nem o papel de deputado, governador, prefeito, senador ou presidente. Quem rouba é a urdidura partidária relacional que mete na cabeça uma utopia ou um ideal revolucionário, o qual vai tirar a sociedade de sua miséria de pessoas comuns que trabalham, casam e fazem filhos misturados, que comem arroz com feijão e adoram carne-seca, samba e cerveja. Aceita a ideologia e implementado o partido como governo, começa a ação de “cuidar” ou revolucionar a sociedade. E, já que não se pode acabar com o mercado e a eleição, por que não comprá-los?

A nobreza das utopias — alimentar os famintos, vestir os nus, dar abrigo aos sem-teto — são as palavras magicas dessa cosmologia política pervertida, segundo a qual o governo, sabendo tudo e tudo possuindo, sabe mais e melhor do que a sociedade.

Mas eis que, depois uma década no poder, nada disso ocorre, exceto a utopia de enricar sem fazer nada — apenas governando e politicando: vendo onde, quando e quanto se pode tirar sem dolo, culpa ou remorso porque o dinheiro era do lucro e o lucro, como na Idade Média, é roubo e pecado. E quem rouba o ladrão tem mil anos de perdão...

Assusta, neste glorioso 15 de março, essas manifestações não encarnadas pelo falso vermelho, e marcadas pelo verde-amarelo. O verde-esperança e o ouro sem mácula que pintam o coração de milhares de brasileiros. Esses cidadãos comuns. Essa gente miúda. Esse povinho sem ideologia ou utopia, mas com a moralidade, apesar de tudo, intacta!

Fonte: Jornal O Globo
Roberto DaMatta é antropólogo


A NECESSIDADE DO OUTRO

O Estado de S.Paulo Aos 11 anos, quando entrei no ginásio e ganhei do meu pai uma caneta Parker com meu nome gravado, senti que algo muito sério havia ocorrido comigo. Virei "ginasiano", dizia o pai que, criado em Manaus, foi um orgulhoso aluno do Ginásio Amazonense Pedro II.

Naquele tempo, era comum o uso do paletó, e no seu inútil bolsinho "de fora" usava-se um lenço combinando com a gravata e, no canto do bolso, como "enfeite" e sinalizador social, enfiava-se uma caneta! Éramos um País de analfabetos antes de sermos um país de subletrados e de burros doutores ideologicamente pautados.

A caneta de ouro compondo a figura do "doutor" (substituto do aristocrata) sugeria que o sujeito assinava o nome. Compreendi o significado da caneta demarcadora de minha passagem para o curso secundário quando, já universitário e querendo ser revolucionário, um colega politizado relacionou a "nossa geração" aos "privilégios" e a contrastou com os "oprimidos" sem escola que escreviam de modo hesitante, desenhando as letras, traçando-as no papel ao contrário do que manda a caligrafia clássica.

Escrever "à tinta", como se dizia, era algo ritualizado que ia da escolha do papel para o que se ia dizer, pois a caneta-tinteiro borrava e sua escrita não era facilmente apagada. Escrever com a minha Parker preta listrada de dourado era fazer a passagem do transitório e barato lápis, cujas pontas gastavam e quebravam e cuja escrita não resistia a uma banal borracha, para o definitivo: para a escrita "à tinta".

Que responsabilidade eu tinha quando pegava essa caneta para escrever e foi com ela que tracei as sempre mal traçadas linhas da minha primeira carta de amor. Um amor a ser tão eterno quanto a tinta e que não durava mais do que um long-play de Frank Sinatra. Ali eu vivi um inexorável sentimento de passagem do tempo. Estava ficando velho. E velho fui ficando quando alguma passagem ocorria na minha vida. Todas as primeiras e últimas vezes foram marcadas e eu só tive consciência delas porque algo ou alguém as assinalava.

A sensação de transitar por várias etapas críticas do meu ciclo existencial que começou com o nascimento e o batismo; seguiu para a infância do time de futebol e da primeira comunhão; prosseguiu para puberdade dos bailes, do primeiro namoro e beijo; desembocou no casamento; foi agraciado com a paternidade e um dia virá com a morte - o evento mais crítico de todos, o qual, infelizmente, será o único que eu não vou poder compartilhar com vocês, meus queridos leitores - foi toda construída por outras pessoas.

Foram todos urdidos de fora para dentro, por meio de conversas, presentes, admoestações, rituais, aprovações, elogios e reparos feitos por um outro. Acentuo esse "outro" porque sem ele eu não seria capaz de saber que tento ser simultaneamente um indivíduo autônomo e livre; e uma pessoa devedora de muitas pessoas e relações as quais despertaram os vários "eus" que convivem dentro de mim.

individualismo do anglo-eurocentrismo, adotado com a santa ignorância de tudo o que chega de fora no Brasil, pensa que pode ficar preso ao velho e inconsciente solipcismo do "só eu sei o que se passou comigo e portanto ninguém melhor do que eu para falar da minha vida", como revelou, com o viés dos censores, o "rei" Roberto Carlos numa entrevista recente. Mas o holismo que sustenta e legitima o individualismo e pretende proteger a vida pessoal dos que vivem se expondo por meio de seus talentos criativos diz que nós só sabemos quem somos quando ganhamos de presente uma caneta; quando um amigo nos corrige; ou quando somos atingidos por uma opinião cuja maior virtude é mostrar algo não visto ou oculto de nós mesmos. Por isso as autobiografias são tão fantasiosas quanto as biografias.

Pois elas só existem como artefatos construídos, e qualquer compromisso entre a liberdade de falar do outro com liberdade é - como argumentou um mestre do gênero, Ruy Castro, na Folha de S. Paulo do dia 1.º do corrente - não é só um dado básico da visão de fora (o ponto de vista do outro), mas da própria vida social que, em todas as suas dimensões, requer e precisa do outro. Seja como um aliado, seja como um advogado, seja como um contrário e, mais que isso, como um alternativo.

Aquele que passou pelo que passamos e que, com os mesmos eventos e experiências, construiu um quadro diverso do nosso. Tentar controlar e reduzir a visão de fora é uma violência porque é um ato de negação do outro. Esse outro que é o sal e, como dizia Sartre, o inferno da vida. Não fosse esses atos externos eu não mudaria de ideia e de hábitos. Jamais saberia que tenho sido muitos. Mas, mesmo na dúvida e no sofrimento da revelação das minhas limitações ou da minha pusilanimidade, eu sei que o outro é básico na produção da minha vida.

Se eu fosse um cantor, eu saberia pela prática que é esse outro (o chamado público) quem me consagra e me dá como um dom a incrível relação chamada sucesso.

Roberto DaMatta é antropólogo
Fonte: Estadão.com.br/Cultura


JUÍZO FINAL: VOCÊ SABE QUEM ESTÁ JULGANDO?

Se for a elite politica, vale tudo; se for uma pessoa comum, condene-se sem embargos

Escrevo no domingo e sem onisciência, não sei se vamos ter ou não ter os tais embargos infringentes que promovem o esquecimento e revogam os crimes. Embargos que algumas almas brasileiras estão certas de que terão o direito de invocar até mesmo no Juízo Final. Aliás, por que não ter também embargos no futebol, na pobreza, na fome e quando sabemos do roubo do nosso dinheiro por autoridades que embargam, como malfeitos triviais, crimes da mais alta gravidade?

Sem saber o futuro, comento a sessão do STF que terminou num empate significativo. Acompanhei os argumentos do ministro Marco Aurélio Mello rebatidos pelo ministro Luiz Roberto Barroso com requintada veemência — esse estilo nacional de matar com luvas de pelica — que faz parte de nosso modelo de discussão entre autoridade que vem sendo sufocado por um avassalador viés igualitário.

Entre nós, o culpado é a vítima. É a mulher que compele ao estupro; é a criança que demanda a surra. O ladrão do dinheiro público (que rouba, mas faz) e o populista convencido de que sabia como transformar o Brasil e que articula um plano para comprar o Congresso Nacional, traindo a democracia, como foi o caso desse “mensalão”, são sempre vitimas indefesas, sujeitos à fúria da multidão. “Mensalão”, aliás, é um eufemismo. O que ocorreu foi uma deslealdade para com o direito de competir pelo poder. Violou-se a promessa de honrar os cargos concedidos pelo povo em eleições livres.

Por mais que um regime legal ajude os poderosos. ele não anula os crimes. Não foi o STF que produziu o mensalão, foram as manobras delinquentes dos membros da cúpula governamental petista que, descobertas, acionaram o Supremo. Esse tribunal moralmente soberano e isento (no sentido de ter consciência dos seus conflitos de interesse) que é, além de tudo — e esse é um ponto crucial da dinâmica institucional brasileira —, o limite e a fonte central da nossa legitimidade democrática. O STF é (ou seria) o ponto final de que, mesmo no Brasil, há uma fronteira definitiva entre a malandragem e a traição aos princípios democráticos.

Como proceder quando os crimes não foram cometidos por indivíduos sem eira ou beira, mas pela própria elite no poder? A isonomia é a maior dificuldade de um sistema relacional — uma sociedade grávida de hierarquias e de brutais desigualdades formais e informais entre seus membros. Entre nós a lei é relativa. Temos uma inconcebível multidão de polícias, leis e regimes jurídicos. O crime sai da curva dependendo do seu autor. Para tanto, nossos legisladores regram sem a preocupação com contradições, criando as brechas que são o apanágio de quem tem bons advogados e possui sólidos laços com o poder.

Marco Aurélio Mello denunciou com seu saber e para a minha perplexidade que “o sistema não fecha”. Optou pelo bom senso. Bom senso que tem a ver com o serviço que presta aos seus semelhantes, sem o que nem ele nem o STF teriam legitimidade. Já o ministro Barroso segue no rumo oposto. Ele rejeita as “manchetes” e a opinião pública, mas — em compensação — personaliza inconscientemente os valores do velho familismo brasileiro. Pois, imaginando que individualizava, deu um exemplo tirado do fundo do nosso patrimonialismo. E se forem réus o seu filho, pai ou irmão — perguntou — como você decidiria ao saber que há um recurso? Para o egrégio ministro Barroso, a resposta seria um seco e óbvio a favor do réu. Pouco se vê, penso eu que nada entendo de Direito, uma tese que tão claramente abandona a avaliação dos crimes e focaliza a vulnerabilidade dos réus diante do fantasma de uma multidão.

Interpretar não é fácil. Primeiro, porque não há nenhuma multidão pedindo o sangue dos mensaleiros os quais tiveram amplo direito de defesa. Depois porque o que se busca já faz tempo é isenção e justiça. Essa justiça nacional que tarda e, lamentavelmente, falha quando aplicada aos poderosos.

Fazer justiça é realizar o duro esforço de discernir o valor englobante. No caso em pauta, o valor englobante vai ser conjunto de delitos que originou o caso, o qual é tanto mais grave quanto mais ele implicou pessoas com papéis públicos de suma responsabilidade, como a chefia da Casa Civil da Presidência da República; ou vai ser uma norma formal e ambígua? Essa é a questão.

Se houver adiamento confirma-se o peso do “você sabe com quem está falando?” no STF. Na cartilha do personalismo que aristocratiza e distingue, contra a lei universal que iguala e nivela; iremos despir um quesito muito mais grave e vergonhoso: o “você sabe quem está julgando?” Se for a elite política, vale tudo; se for uma pessoa comum, condene-se sem embargos.

Roberto DaMatta é antropólogo

PS: Essa crônica é para a Lívia Barbosa.

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Roberto DaMatta


QUATRO PALPITES SOBRE UM BATE-BOCA

O sinal dos tempos no Supremo tem sido o estilo sincero e desabrido — honesto pela raiz — do estruturalismo de Joaquim Barbosa
Quando menino, minha avô Emerentina me solicitou um palpite para o jogo do bicho, uma atividade que ela praticava com a mesma religiosidade com que fazia as suas orações matinais. Pensei num filme de Tarzan e chutei: elefante! O elefante deu na cabeça e dela recebi um dinheiro que virou bombons de chocolate.

São 25 bichos, conforme determinou o cânone do Barão de Drummond, o inventor disso que Gilberto Freyre dizia ser um “brasileirismo”. Algo genuinamente brasileiro, ao lado da feijoada, das almas do outro mundo, do samba, da corrupção oficial, do suposto orgasmo das prostitutas e do “rouba mas faz”. Quanta inocência existe entre nós. É de enternecer.

Palpite 1 (avestruz)

O ministro Joaquim Barbosa tem sido tratado como um Drácula brasileiro por dizer o que pensa e sente. Mas, no Brasil, eis o meu primeiro palpite, somos todos treinados a não dizer o que pensamos. Seja porque seríamos presos por corrupção ou tomados como desmanchadores de prazer; seja porque faz parte de nossa persistente camada aristocrática não confrontar o outro com a tal “franqueza rude” a ser reprimida por sinalizar não o desrespeito, mas um igualitarismo a ser evitado justamente porque nivela e subverte hierarquias.

Somos a sociedade da casa e da rua. Em casa somos reacionários e sinceros; na rua viramos revolucionários e ninjas — a cara encoberta. Somos imperais em casa, quando se trata das nossas filhas, e fervorosos feministas em público, com as “meninas” dos outros. Observo que, quando há hierarquia, não há debate nem discórdias; já o bate-boca é igualitário e nivelador. Por isso ele é execrado entre nós, alérgicos a todas as igualdades. Discutir é igualar, de modo que as reações de Joaquim Barbosa assustam e surpreendem. Afinal, ele é um ministro. Como pode se permitir tamanha sinceridade? O superior não deveria discutir, mas ignorar e suprimir.

Palpite 2 (águia)

Um presidente da instância legal mais importante do país que esconde por educação suas valores seria um poltrão? E isso, leitor, é justamente o que esse Joaquim Barbosa, negro e livre, não é e não quer ou pode ser. Na nossa sociedade, você está fora do eixo (ou da curva) até o eixo entrar nos eixos. Ai você vira celebridade e começa a ser fino como um aristocrata. Na oposição seu senso crítico é gigantesco, mas no dia em que você vira governo surgem as etiquetas reacionárias. Eu queria ir, você diz, mas a minha assessoria impediu. Não ficaria bem...

Afinal ator e papel não podem operar como um conjunto? Ou devem agir se autoenganando para serem permanentemente elogiados como “espertos” ou “malandros”? Esse apanágio do nosso sistema político que glorifica a hipocrisia e condena a opinião pessoal sincera que, em circunstâncias gravíssimas como a que estamos vivendo no momento, exige o confronto e consequentemente a desagradável rispidez da discórdia?

Palpite 3 (burro)

Como ter democracia sem conflito? Se passamos a mão na cabeça dos mais gritantes conflitos de interesse nesta nossa sociedade de vizinhos de bairro e de parentelas adocicadas pelos compadrios, porque temos de nos sentir aporrinhados porque um juiz confrontou de modo direto um colega cujo objetivo óbvio era o de protelar o arremate de um processo que, no meu entender, vai definir o caráter de nossa democracia liberal e representativa?

Palpite 4 (borboleta)

Pergunto ao leitor: existe sinceridade sem emoção? Existe honestidade sem estremecimento? Existe algum regime ético no qual se troca convicção por boas maneiras? Afinal de contas o que seria uma pessoa com “bons modos”? Seria um cagão sem espinha dorsal? Como, pergunto, mudar um país com essa maldita tradição de dizer que somos assim, mas no fundo somos assado sem dissensões? Afinal o que preferimos: o golpe que silenciosamente suprime o bate-boca ou o bate-boca que é a única arma democrática contra o golpe?

Um amigo me diz que o ministro Barbosa estava certo no conteúdo, mas errado na forma; e que o ministro Levandowski estava errado no conteúdo e certo na forma. Mas, palpito eu, como separar forma de conteúdo quando se trata do futuro da democracia ou de um grande amor? Seria possível uma noite de núpcias com um noivo certo no conteúdo, mas sem traduzir esse conteúdo formalmente?

O sinal dos tempos no Supremo tem sido, precisamente, o estilo sincero e desabrido — honesto pela raiz — do estruturalismo de Joaquim Barbosa. Nele, forma e conteúdo estão juntos como estiveram em todos aqueles que tentam ser uma só pessoa na casa e na rua, na intimidade e no púlpito, entre os amigos e os colegas de tribunal.

Para se ter uma democracia é preciso juntar forma e conteúdo. Não se pode condenar a discórdia e o direito à diferença como somente um gesto de má educação ou de egoísmo autoritário. É preciso abrir um lugar para o bate-boca no sistema moral brasileiro caso se queira terminar com a sujeição e a autocondescendência que nos caracteriza como uma sociedade metade aristocrática, metade igualitária. Prova isso o agravante de que, quando essas metades entram em choque, tendemos a ficar do lado aristocrático ou do bom comportamento. Do formal e do legalmente correto, sem nos perguntarmos se o confronto não seria a maior prova de igualdade e de respeito pelo outro.

Será que acertei novamente no elefante, ou deu burro e avestruz?

Fonte: Jornal O Globo
Roberto DaMatta é antropólogo


CÂNCER, FORMICIDA E LEITE CONDENSADO

À sentença shakespeariana que o mundo é palco e todos somos atores, pode-se acrescentar que os papéis recebidos e escolhidos, comprados ou obtidos por mérito ou eleições, devem ser honrados. No julgamento do mensalão eu pensava assistir a um "E o vento levou", mas estou testemunhando uma narrativa de Machado de Assis. O mesmo sentimento cerca as eleições cujo resultado vai ser formicida para uns e leite condensado para outros. Mas eu não tenho dúvida que estamos vivendo um momento de consolidação da igualdade. Há uma virada em curso.

Ele pensava nisso quando se descobriu com um câncer no pulmão. A doença, explicou o médico, atingira o pulmão direito e também o esquerdo simultânea e fulminantemente. A gravidade do caso veio na forma de uma daquelas palavras de raiz grega incompreensíveis e deu um estranho toque de normalidade para o anormal. Os pulmões iam tergiversar, pedir vista e, em 90 dias!, parar. Como é que o meu corpo, esse corpo fiel que eu tanto amei, vira-se contra mim? Em vinte minutos e 500 reais, passei de monstro saudável a doente com três meses de vida. E o pior é que, afora uma tossezinha boba, nada sentia. Mais ainda: o leite condensado com o qual sua saudosa mãe resolvia todos os problemas não funcionava. Leite condensado parava choro, mas não curava câncer. Calculou e viu que ele jamais saberia o desfecho do mensalão e da eleição.

Saiu do consultório focado na morte prevista. Esse oposto da vida. A vida termina, é claro, mas não se sabe quando. Era bizarro viver sabendo a data da morte. De agora em diante, a última vez seria companheira. Até o cafezinho ou um humilde aperto de mão poderia ser um grande gesto. Diante da vida em processo de liquidação, chorou com pena de si mesmo. Mas tramou uma vingança - um golpe para golpear a vida que o havia traído.

Fez um enorme empréstimo consignado que o governo facultava aos professores das escolas federais. Sendo professor e celibatário, tinha um belo cadastro. Um burocrático gerente fez-lhe um aporte de dois milhões de reais para serem pagos, como disse sorrindo, "a perder de vista..." Jamais serei julgado ou condenado, ria ele pela primeira vez depois do diagnóstico.

Vamos encontrá-lo agora numa viagem por três cidades do exterior, onde passeia como um vagabundo, morando nos melhores hotéis e comendo nos restaurantes mais caros. Oxford (onde havia sido um estudante pobre), Londres (onde raramente se distraía entre suas pesquisas sobre a antiestrutura das ordens estruturais) e Paris, onde entretinha longas conversas com um colega famoso cuja condescendência ele tomava por cordialidade. A visita a esses lugares como um homem rico datado pela morte trazia-lhe de volta um passado envolto em estudo e no tempo que gastara para mesquinhamente demolir o trabalho dos seus colegas mais estabelecidos. Movia-lhe mais a inveja do que o avanço científico, constatou bebericando com indiferença uma taça do melhor champanhe. E, nos jantares com os velhos professores e ex-colegas, percebeu como as mais sólidas teorias se desfaziam não apenas no ar, mas na perspectiva da morte prejulgada.

Numa visita ao Instituto onde havia obtido o diploma, encontra uma ex-colega. Saem para um almoço planejado para ser frugal mas que se transformou num tórrido banquete carnal e espiritual. Seguiram para um cruzeiro no qual faziam amor e discutiam os problemas mais sérios do seu próprio trabalho: as antiestruturas que, vistas de longe, se transformam em estruturas; e, em seguida, em processos. E os processos que, vistos de perto, gravitavam em torno de duras e, às vezes, turgescentes estruturas, retomando o ponto inicial.

No balanço do navio e da gangorra do amor, a doença era esquecida e o julgamento da morte dava lugar à vida que, imprevisível, retornava. Os sintomas mais graves jamais surgiram. Foram-se os três meses e ele estava mais forte do que nunca.

Recebi notícias dele nesses dias. Está excitado com o julgamento do mensalão, que acompanha religiosamente. Mas não sabe como vai dar conta da dívida. Estou dividido pelo amor e pela dívida, diz inseguro. Agora era a morte quem lhe dava uma rasteira. Sofria a angústia da normalidade dos que não sabem quando vão morrer e têm dívidas incomensuráveis com bancos, com pessoas, com rotinas e com o mundo.

Atormentado, comprou uma lata de leite condensado (que, como dizia sua mãe, resolvia tudo no Brasil) e um pote de formicida (que também faz o mesmo). Em casa, pôs lado a lado o doce e o veneno.

Nesse exato momento toca o telefone despertando-me da história. Era um jornalista solicitando uma entrevista. Coisa simples, professor: estamos fazendo uma matéria isenta sobre o mensalão e queremos saber a sua opinião antropológica sobre a propensão brasileira para o roubo público. Marquei a entrevista para o fim do dia. Afinal, nada mais ordinário do que responder a essas questões triviais que os jornalistas fazem o tempo todo.

Tentei retomar o meu personagem dividido entre o leite condensado e o formicida, mas havia perdido o contato mediúnico. E, sem ele, o herói simplesmente desvaneceu-se da minha mente. De modo que não tenho como terminar a crônica. Sugestões são mais do que bem-vindas, pois, se minha mediunidade literária foi subitamente suspensa, rogo a Deus e à realidade que ela não tenha acabado.

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