NELSON MOTTA

CENÁRIO, ROTEIRO E ELENCO

QUANDO O BARATO SAI CARO

A MELHOR SÉRIE DO MOMENTO

O ALOPRADO E A TRAPALHONA

PRIMAVERA DE FOGO

UMA DIETA PARA O BRASIL

AOS AMIGOS PETISTAS

PRINCÍPIOS, FINS E MEIOS

OS ÚLTIMOS DA FILA

O BRASIL NO DIVÃ

É ESTARRECEDOR!

O DAY AFTER

OVOS, GALINHAS E LADRÕES

COMO UMA ONDA

A FAVOR DO VOTO CONTRA

AS ELITES VERMELHAS

FOGO E PAIXÃO

ATUALIDADES ELEITORAIS

UM ZUMBI NA CASA DO ESPANTO

A CASTA DOS DODÓIS

O NOVO MERCADO SEXUAL

NINA E CARMINHA EM BRASÍLIA

O CRAQUE E O ESPELHO

ANO NOVO, VELHOS DESEJOS

O REINO DO FAZ DE CONTA

LIÇÃO DE PORNOPOLÍTICA

O AVESSO DO AVESSO

PAIXÕES PERIGOSAS

O NOVO VELHISMO


CENÁRIO, ROTEIRO E ELENCO

No sonho de Dilma não tem golpe, nem impeachment, nem renúncia, nem novas eleições. Tudo continua como está, pior do que nunca

Que pacificação pode ser feita, que governabilidade será possível, que confiança pode ser restaurada, se a presidente ganhar raspando na Comissão de Impeachment da Câmara, ou, mesmo fazendo o diabo, perder na Câmara, mas escapar por um focinho no Senado? Com minoria mínima no Congresso, terá o governo ocupado por pepistas e nanicos, numa situação que lembra a “antropofagia de anões” prevista por João Santana, “com Dilma pairando sobranceira e ganhando no primeiro turno.”

No sonho de Dilma não tem golpe, nem impeachment, nem renúncia, nem novas eleições. Tudo continua como está, pior do que nunca. Com Lula na Casa Civil como presidente executivo, mas com seu poder e credibilidade abalados, como poderá ajudá-la a formar uma base de apoio sólida no Congresso e compor um “ministério de notáveis" acima dos partidos? Que “notável” aceitaria uma roubada dessas em um governo, ainda legal e legítimo, mas moribundo? Quem quer ser sócio em falência ?

Então com quem ela vai governar? Nem um gênio político poderia fazer algo de bom com esse Ministério bagaceiro e com postos-chave da administração e de estatais entregues a pepistas e nanicos como bolsa anti-impeachment.

A pergunta não é o que pode salvar Dilma, mas o que pode salvar o país. Sim, milagres acontecem, mas além dos que esperam uma segunda volta de Jesus, ninguém consegue imaginar algum que nos dê um pouco de ordem e progresso.

Acredito que a grande maioria de petistas e tucanos é de cidadãos de bem, de boa fé, que creem, alguns cegamente, em ideias diferentes para melhorar a vida de todos. Lideranças podres, quadros incompetentes, farsantes e corruptos profissionais estão em todos os partidos e corporações. São eles os grandes inimigos da democracia e do Estado de Direito.

Para tentar acalmar os ânimos nestes dias de ira, e talvez melhorar a discussão política, aderi a um grande pacto nacional voluntário: nunca rebater acusações acusando o acusador de crimes iguais ou piores.

Em vez de perder tempo na briga sem fim por quem é mais maligno, quem sabe uma ou outra ideia construtiva poderia surgir, enquanto a Justiça faz o seu trabalho.

Autor: Nelson Motta é jornalista


QUANDO O BARATO SAI CARO

Com uns sete ou oito milhõezinhos, Lula poderia comprar uma cobertura em Ipanema e um sítio em Campos do Jordão, e sobrariam 20

Além de oito anos de salários de presidente e despesas zero, Lula ganhou R$ 27 milhões fazendo palestras no exterior, tudo com nota fiscal, declarado à Receita Federal e com impostos pagos. Teria todo o direito de comprar o tríplex ou o sítio que quisesse, sem dar satisfações a ninguém. Ainda que as palestras não fossem compradas por interessados internacionais, mas pagas por empresas brasileiras que queriam fazer bons negócios e resolver problemas complicados com governos locais, seria, digamos, apenas lobby. Mas isto ainda está sob investigação e, até prova em contrário, os milhões de Lula são tão limpos como os de Bill Clinton.

Com uns sete ou oito milhõezinhos, ele poderia comprar uma boa cobertura, não um muquifo na cafona Guarujá, mas em Ipanema, e um belo sítio em Campos do Jordão. Sobrariam-lhe uns 20 milhões, e ele não teria que enfrentar o calvário imobiliário que o humilha publicamente, desmoraliza sua liderança e ridiculariza o seu maior patrimônio: a “alma viva mais honesta do país”.

Mas, sabe-se lá por que, já que burro não é, Lula preferiu fazer tudo escondido, para se aproveitar de vantagens oferecidas por “amigos” e empresários com interesses no governo, enrolar-se numa mentira atrás da outra, tudo para não gastar uma pequena parte do seu patrimônio.

Seus 20 milhões, se investidos por Henrique Meirelles (por Mantega ou Dilma jamais!), lhe renderiam uns R$ 250 mil por mês, além de suas gordas aposentadorias e bolsa-ditadura, sem contar com futuras palestras, que, agora, ninguém quer de graça. Poderia viver como a mais luxuosa e odiosa elite brasileira. Ou como um craque de futebol.

Claro, viver de renda no luxo ia pegar meio mal para a militância do PT, mas logo tudo seria visto como o heroico triunfo de um torneiro mecânico sobre a burguesia.

Não consigo entender como um cara tão inteligente colocou em risco sua reputação e sua carreira por tão pouco, talvez por arrogância e soberba, ou malandragem barata, em jogadas ilegais e perigosas, ou tudo isso para não gastar o que — diante de seu patrimônio pessoal — seria coisa de pobre. Um barato que está lhe custando caríssimo.

Fonte: O Globo
Autor: Nelson Motta é jornalista


A MELHOR SÉRIE DO MOMENTO

Janeiro é o terror dos cronistas (menos os de turismo), o país está em férias, todo mundo viajando, tudo fica adiado para depois do carnaval, nada acontece. Escrevi durante oito anos uma coluna diária no GLOBO e nunca reclamei de falta de assunto, mas o principal motivo para jogar a toalha foram tantos janeiros abrasadores atravessando desertos de notícias.

Este não seria menos modorrento, mas, com a volta do juiz Sérgio Moro às atividades, mais cinco procuradores especiais trabalhando nas investigações do núcleo político do petrolão, e fortes indicações da iminente prisão de eminentes parlamentares, a Lava-Jato volta a pleno vapor e garante que no Brasil raros janeiros terão tanto assunto. O público aguarda diariamente um novo capítulo do melhor reality show do momento.

Certamente, em um futuro próximo a Lava-Jato será transformada em uma série de televisão, com a realidade superando a ficção na sensacional história de uma operação policial que mudou um pais, comandada por um juiz justo e corajoso e uma brigada de jovens e bravos procuradores unidos a uma Polícia Federal honesta e eficiente, mas com seus traidores e corruptos, desvendando a trajetória de heróis e vilões, de chefões e delatores, de empresários poderosos e suas famílias, o drama de cada um, a trama de uma organização criminosa no coração do Estado, a teia de interesses que une políticos, partidos e corruptos profissionais para saquear um país e se eternizar no poder.

Que time de ficcionistas criaria uma história melhor e mais cheia de emoção, surpresas e mistérios?

Quando janeiro passar, a novela da crise seguirá com novas medidas para reanimar a economia. O mistério é como um governo que não tem dinheiro para pagar suas contas, suas dívidas crescentes e um colossal déficit público, e gasta mais do que arrecada, vai investir em crescimento. Só aumentando impostos, ou se endividando ainda mais, e a juros mais altos, depois de perder grau de investimento, ou até torrando reservas internacionais duramente conquistadas nos tempos da “velha matriz econômica”. Para jogar tudo numa receita que não deu certo?

Enquanto isso, em Curitiba...

Autor: Nelson Motta é jornalista


O ALOPRADO E A TRAPALHONA

Dilma desrespeitou a LRF, encobriu ilegalidades e escondeu dívidas em benefício de sua reeleição e em prejuízo de seus concorrentes

Só mesmo um petista histórico como o professor Dalmo Dallari, que já pagou muitos micos jurídicos em defesa do partido, pode dizer que o julgamento das contas de Dilma no TCU foi político e não jurídico, quando todo mundo viu que foi técnico: as provas apresentadas, julgadas e aprovadas por unanimidade, são contábeis, são graves violações da Lei de Responsabilidade Fiscal, que justificam a rejeição das contas.

Mas o professor Dallari assegura que “Dilma não levou qualquer vantagem pessoal com as contas do governo”. Ela só fez essas trapalhadas e desatinos fiscais para enganar o eleitorado com um país enganoso e falsamente próspero, gastou muito mais do que podia sem autorização do Congresso em um ano eleitoral, e até durante a campanha, mas a candidata Dilma não teve qualquer vantagem... rsrs.

Talvez, para ele, vantagem pessoal seja “meteu algum no bolso”, como os guerreiros da causa que roubaram para o partido e para eles mesmos. Mas disso ninguém a acusa. Ela só é responsável por enganar a população, desrespeitar a LRF, encobrir ilegalidades e esconder malfeitos contábeis em benefício de sua reeleição e em prejuízo de seus concorrentes.

O professor aloprado afirma que “a presidente não pode ser responsabilizada por atos estranhos ao exercício do mandato”. Mas se executar o Orçamento não é responsabilidade da presidente, de quem seria?

Para ele, “as pedaladas são atos formais de administração da equipe econômica sem interferência da presidente”, como se Dilma não fosse a mãe da “nova matriz econômica”, se Arno Augustin, Guido Mantega e Nelson Barbosa não fossem fiéis executores de suas ordens. Ao contrário de Lula, Dilma é metida a economista, sempre teve absoluto controle da área, e por isso estamos como estamos.

Tantas falcatruas provadas, comprovadas e aprovadas não podem ser rejeitadas pelo Congresso tecnicamente, só politicamente, no pior sentido, ou ter a sua votação protelada por Renan como mais uma arma de chantagem contra Dilma Trapalhona.

Mas Dilma viu luz no fim do túnel: é o farol do trem-bala do impeachment vindo em sua direção a 400 quilômetros por hora.

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Nelson Motta é jornalista
Enviado por: Mariana Lopes


PRIMAVERA DE FOGO

Se contar ao meu neto de 19 anos como vivemos e superamos tudo isso, desconfio que ele vá pensar que o vô fumou alguma coisa forte, mas na verdade esses desastres históricos parecem mesmo inacreditáveis

A primavera brasileira chegou com um calor infernal, em perfeita sintonia com o clima político, econômico e judicial.

Um querido amigo comunista ficou indignado quando escrevi que a maior inimiga da corrupção é a privatização e vibrou com o escândalo das fraudes da Volkswagen.

“Rará! Me diga agora: em matéria de executivos quem são os piores, os da Volkswagen ou da Petrobras?”

A diferença é que os safados da VW fraudaram normas ambientais, enganaram os consumidores e desmoralizaram a companhia, e os da Petrobras, além de encher os próprios bolsos, roubaram e degradaram a empresa para fraudar o processo eleitoral e a democracia, para eternizar no poder um partido político.

Outro amigo, lulista e não muito inteligente, está furioso com os jornalistas “orgânicos” e petistas históricos Ricardo Kotscho e André Singer, ex-porta-vozes de Lula, porque em vez de defenderem os desatinos e ladroeiras do governo Dilma, ousam reconhecer o tamanho da encrenca e do buraco a que nos levaram a “nova matriz econômica" e a gestão desastrosa da gerentona. São vistos como “traidores”. Mas Zé Dirceu, Vaccari, André Vargas e Delúbio são guerreiros do povo brasileiro.

Ele gosta é dos “blogueiros progressistas", pagos com verbas de estatais, que, no desespero pela iminente perda da boquinha, começam a fazer sucesso como humoristas involuntários. Um clássico do humor chapa branca foi a manchete da pesquisa com Dilma rejeitada por 93% da população:"7% apoiam Dilma"... Rsrs.

Minha geração sobreviveu aos desvarios autoritários de Jânio Quadros, aos delírios populistas jango-brizolistas, à brutalidade e intolerância da ditadura, à superinflação e à moratória de Sarney, ao criminoso plano econômico de Collor e ao seu impeachment, mas está puxado aguentar as trapalhadas de Dilma. São anos e anos de trabalho jogados fora e nossas economias virando pó.

Se contar ao meu neto de 19 anos como vivemos e superamos tudo isso, desconfio que ele vá pensar que o vô fumou alguma coisa forte, mas na verdade esses desastres históricos parecem mesmo inacreditáveis. Como Dilma presidenta.

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Nelson Motta é jornalista
Enviado por: Claudio Monteiro

UMA DIETA PARA O BRASIL

Como Dilma, o Brasil precisa urgentemente de uma dieta. Uma mudança radical dos hábitos alimentares do Estado glutão e obeso

A única vitória pessoal de Dilma no seu segundo mandato foi emagrecer, melhorar a aparência e aumentar sua autoestima, no fundo do poço desde que foi julgada mentirosa e incompetente por 93% da população.

O Brasil também está precisando de uma dieta. Uma mudança radical dos hábitos alimentares do Estado glutão e obeso.

Mas primeiro é necessário um detox radical, já iniciado com a eficientíssima dieta Lava-Jato, no Spa de Curitiba, começando a descontaminação do organismo estatal inchado de gorduras, parasitas, subsídios e privilégios, que criam dependência cada vez maior de drogas fiscais.

Controlar a gula arrecadadora. Perder gordura de custos e diminuir o peso das dívidas para melhorar a saúde dos órgãos vitais. Fazer exercícios diários de eficiência para desenvolver músculos produtivos e perder banha burocrática, que gera incompetência e corrupção. Cortar projetos megalomaníacos anabolizantes que aumentam despesas para ganhar eleições. Trocar charlatãos e marqueteiros por médicos e nutricionistas ou políticos e administradores, honestos e competentes.

Na dieta brasileira não entram drogas como a velha CPMF, que funcionam como anfetamina, moderando o apetite de arrecadação do Estado, mas a médio prazo só conseguem criar mais fome, por mais impostos. A opção à dieta seria a redução cirúrgica do estômago do Estado, um impeachment da gordura e das toxinas.

O pior seria a dieta Lula: “Em vez de cortar despesas, devemos estimular investimentos e aumentar o crédito”, como se houvesse dinheiro para isso, e não fosse essa uma das origens da atual crise que, como Dilma dizia de Marina na campanha, está tirando comida da mesa do pobre.

Tanto sofrimento, tanto sacrifício, mas, sem reformas estruturais dos hábitos alimentares e dos gastos de calorias do Estado, será só uma travessia para voltar aos velhos vícios, em um efeito sanfona que logo levará de novo à obesidade, celeiro da corrupção.

A receita de Dilma para o Brasil tem tudo para repetir, de forma trágica, a piada de Tim Maia: “Fiz uma dieta rigorosa, cortei gorduras, açúcar e álcool. Em duas semanas perdi 14 dias.”

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Nelson Motta é jornalista
Enviado por: Jonas Medeiros


AOS AMIGOS PETISTAS

Petistas inteligentes sabem que o sonho acabou, ‘game over’, zé fini, pelo baixo nível e alta voracidade dos seus quadros

Nunca perdi um amigo por causa de política. Tenho vários amigos petistas que merecem meu afeto e respeito, alguns até minha admiração, e convivemos bem porque quase nunca falamos de política, talvez por termos assuntos mais interessantes a conversar. Mas agora o assunto é inevitável. E eles estão mais decepcionados do que eu.

Também tenho amigos tucanos, comunistas, conservadores, não meço a qualidade das pessoas pelo seu time, religião ou suas crenças políticas, em que sonhos, idealismo e equívocos se misturam com ambição, desonestidade e incompetência para provocar monstruosas perdas de vidas, dignidade e dinheiro ao coitado do povo que todos eles dizem amar.

O PT está caindo aos pedaços, depois de 13 anos no poder, com grandes conquistas e imensos desastres, mas a perspectiva de ser governado pelo PMDB ou pelo PSDB não é animadora. Claro que há gente decente e competente nos dois partidos, mas a maioria de seus quadros e dirigentes não é melhor do que os piores petistas, e vice-versa.

Chegamos finalmente ao “nós contra eles” que Lula tanto queria ... quando era maioria ... e agora se volta contra ele, perseguido como os judeus pelos nazistas e os cristãos pelos romanos ... rsrs.

Se não fosse tão arrogante e autoritária, Dilma mereceria pena, porque não é desonesta, mas é mentirosa e sua incompetência nos dá mais prejuízos do que a corrupção. Suas falas tortuosas são a expressão da sua confusão mental.

E se Lula não fosse tão vaidoso e ambicioso, tão irresponsável e inescrupuloso, não teria jogado a sua história na lama por achar que está acima do bem e do mal e que nunca descobririam que ele sempre soube de tudo.

Petistas inteligentes e informados sabem que o sonho acabou, game over, zé fini, não por uma conspiração da CIA, dos coxinhas ou da imprensa golpista, mas pelos seus próprios erros, pelo baixo nível e alta voracidade dos seus quadros, pela ganância e incompetência que nos levaram ao lodaçal onde chafurdamos.

É triste, amigos petistas, o sonho virou pesadelo, mas não foi a direita que venceu, foi o partido que se perdeu. O medo está dando de 7 a 1 na esperança.

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Nelson Motta é jornalista
Enviado por: Yna Beta


PRINCÍPIOS, FINS E MEIOS

Em nome da ‘causa popular’ vale tudo, extorsão, suborno, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, agir como uma máfia para destruir os adversários e se eternizar no poder

Posso até acreditar que João Vaccari não ficou com um tostão dos pixulécos milionários que arrecadou para o PT na Petrobras. Mas isso não faz dele um guerreiro do povo brasileiro e nem é atenuante para seus crimes; é agravante.

Em países civilizados, de maior tradição jurídica do que o Brasil, como a Itália, a Alemanha e a Inglaterra, a motivação política é um agravante dos crimes, aumenta a pena. Porque o produto do roubo servirá para fraudar processos legais, para atentar contra as instituições democráticas, para prejudicar adversários políticos, e terá consequências na vida de todos os cidadãos que tiveram seus direitos lesados em favor de um plano de poder de um partido.

O ladrão em causa própria dá prejuízos pontuais a pessoas físicas ou jurídicas. O que usa o dinheiro sujo para fraudar o processo eleitoral e manipular a vontade popular, para corromper parlamentares e juízes, para impor o seu projeto político, causa irreparáveis prejuízos a todos porque desmoraliza a democracia, institucionaliza a impunidade e interfere — sejam lá quais forem as suas intenções — de forma decisiva e abusiva nos direitos e na vida dos cidadãos que sustentam o Estado.

Uma das mais nefastas heranças do PT no poder foi a institucionalização — e absolvição — do roubo com motivações políticas, com mensaleiros e tesoureiros corruptos ovacionados como guerreiros e heróis pela militância cega, surda e bem empregada. Por essa ética peculiar, em nome da “causa popular" vale tudo, extorsão, suborno, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, agir como uma máfia para destruir os adversários e se eternizar no poder. Em nome do povo, é claro...

É claro que na maioria desses “roubos políticos", chamados de “expropriação” no tempo da luta armada de Dilma e Dirceu, os guerreiros, diante de tanto dinheiro e tão fácil, não resistem a cobrar seu próprio pixuléco, como registram as históricas imagens de Waldomiro Diniz, braço direito de José Dirceu, pedindo a sua comissão de uma “doação” do bicheiro Carlinhos Cachoeira ao partido, no início da era Lula.

Esse tempo acabou, lugar de ladrão é na cadeia.

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Nelson Motta é jornalista


OS ÚLTIMOS DA FILA

Sabem o que aconteceu nos 22 estados americanos que liberaram o uso e plantio da maconha? Nada, absolutamente nada, o crime não aumentou, nem diminuiu

Um dos países mais atrasados do mundo em políticas para drogas, o Brasil tem a tênue esperança de um tardio avanço na próxima decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a descriminalização dos usuários. Muitos são contra por ignorância: em recente pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, 75% das pessoas dizem não ter informações para fazer um juízo sobre drogas. As resistências mais fortes são dos evangélicos e da Igreja católica, unidos contra a liberdade individual. Mas o Brasil é laico, religiões não mandam nada no Estado.

Sabem o que aconteceu nos 22 estados americanos que liberaram o uso e plantio da maconha? Nada, absolutamente nada, o crime não aumentou, nem diminuiu, as lanchonetes não foram invadidas por hordas de doidões famintos, nada mudou na vida das famílias e das instituições, não se bebeu mais nem menos do que antes, as internações hospitalares ficaram estáveis, não aumentou nem diminuiu o consumo de cocaína, heríina ou metanfetamina, ou as prisões por crimes ligados a drogas pesadas. É um tédio: não mudou nada.

A única mudança relevante foi no Colorado, onde a arrecadação de impostos com a plantação e comercialização de maconha superou a expectativa do orçamento e cada contribuinte recebeu restituição de U$ 7,45 no seu imposto de renda estadual.

Mesmo se a pior direita republicana assumir o poder, enquanto as instituições democráticas funcionarem, é um caminho sem retorno. É quase impossível voltar a uma proibição depois de anos de uma liberação que se mostrou inócua. O mais provável é que outros estados venham a aderir à liberação. Ou vão preferir manter os custos da proibição inútil em vez de controlar o consumo e receber milhões em impostos, agora que 22 estados provaram que os perigos da liberação eram fantasias?

Em Lisboa, cidade com o segundo índice mais baixo de criminalidade da Europa, onde se pode andar sozinho e seguro na rua a qualquer hora, há mais de três anos cada um planta e fuma o que quiser e nada acontece. Já no Rio de Janeiro, a maconha é proibida e combatida ferozmente, queimando tempo, dinheiro e vidas, mas ninguém pode andar na rua em paz.

Autor: Nelson Motta

O BRASIL NO DIVÃ

Como dizia o psicanalista Hélio Pellegrino, um dosfundadores do PT, a inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice

Já experimentei várias vezes e funciona: é preciso sair do Brasil para vê-lo melhor, para o bem e para o mal. O distanciamento permite uma visão mais clara e com menos interferência da cegueira das paixões de momento, endurece sem perder a ternura por nossa gente e nossos sonhos de país.

No inverno de Lisboa, faço sessões informais de psicanálise política e econômica do Brasil com amigos lusos: à medida em que lhes relato o que está acontecendo, ouço minha própria voz me dizendo os sintomas de nossas doenças, que, ao contrário da psicanálise, não se “curam” por serem nomeadas e aceitas, exigem terapia intensiva de valores, intenções e ações.

Não que os enredos sejam tão estranhos aos portugueses, que estão com um ex-primeiro ministro socialista preso e com seu maior grupo empresarial, o onipresente Espirito Santo, quebrado e sob investigação que envenena outros grupos políticos e econômicos.

No caso do Brasil, tamanho é documento, porque amplia as potencialidades de reação mas dificulta consensos para 200 milhões de pessoas.

Mesmo assim, eles ficam meio incrédulos diante da minha narrativa dos fatos. Especialmente a criação de um novo modelo de negócios em que a empreiteira ganha a concorrência superfaturada e faz da propina uma contribuição legal ao partido, lavando dinheiro sujo no Tribunal Superior Eleitoral.

Como dizia o psicanalista Hélio Pellegrino, um dos fundadores do PT, a inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice.

Há anos em penosa recuperação, Portugal está começando a se reerguer, mais uma vez, como vem fazendo há séculos e séculos. Mas aqui as misérias do severo arrocho econômico não provocaram aumento da criminalidade, as ruas de Lisboa seguem tranquilas noite e dia, às vezes cortadas por passeatas de protesto, raivosas mas pacíficas.

Com a crise econômica, o mercado de imóveis despencou. Uma cobertura de cem metros quadrados com salão e dois quartos no Chiado (a Ipanema deles) vale um quarto e sala em Copacabana. Come-se em bons restaurantes por menos do que em botecos cariocas. Não é por acaso que tantos brasileiros estão pensando em dar um tempo em Lisboa.

Autor: Neson Motta é jornalista


É ESTARRECEDOR!

Fiquei até emocionado vendo Paulo Roberto Costa afirmar na CPMI que os esquemas da Petrobras se repetem na construção de rodovias, hidrelétricas, aeroportos, portos

Não aguento mais falar sobre o escândalo da Petrobras. Mas não consigo parar de procurar notícias, comentários, desdobramentos e consequências desse assunto que domina o país e desperta em mim, e em muita gente, os instintos mais primitivos. Sou por natureza pacífico e tolerante, mas estou envenenado por terríveis desejos de vingança, por sentimentos de fúria e indignação que vão além da sede de justiça e me dão uma certa vergonha.

É estarrecedor. Em cada caixa que se abre, surgem novas caixas de conspirações para saquear não só a Petrobras, mas todas as grandes estatais brasileiras. Fiquei até emocionado vendo Paulo Roberto Costa afirmar na CPMI que os esquemas da Petrobras se repetem na construção de rodovias, hidrelétricas, aeroportos, portos, usinas, onde quer que haja dinheiro público para ser roubado.

A história de Paulo Roberto é um clássico brasileiro moderno. O cara que estuda, entra na Petrobras por concurso, trabalha 20 anos com competência, até que, para crescer dentro da empresa, aceita fazer o jogo dos políticos e se torna diretor — e cúmplice. O resto é história, lixo da História. Mas ao menos Paulo Roberto foi um dos poucos entre os denunciados que se disseram muito arrependidos e envergonhados. Entre os que, contra todas as evidências, insistem em negar culpas e responsabilidades, os que ainda se acreditam intocáveis, e os que até se orgulham de sua “missão política”, são poucos os que parecem arrependidos — não do que fizeram, mas porque foram pegos.

Também se ficou sabendo oficialmente o que sempre só se imaginava: é impossível se tornar diretor de uma estatal sem apoio político. Mérito, eficiência, produtividade e ética são desprezados. É assim que funcionários competentes, mas ambiciosos e de moral fraca, são cooptados para alimentar a voracidade de políticos e partidos. Como um país pode viver assim há tanto tempo?

Eu me prometi não escrever mais sobre isso, que procuraria temas mais divertidos, ou mais profundos, para os leitores. Mas sucumbi aos baixos instintos e, para horror de meu professor Zuenir Ventura, ainda tasco um ponto de exclamação no título.

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Nelson Motta
Enviado por: Antonio Bezerra


O DAY AFTER

O pior efeito colateral das campanhas é dificultar ao máximo a convivência democrática de quem vencer com uma oposição forte, representativa e combativa

Não é preciso ser astrólogo ou economista para saber que o ano que vem vai ser um dos mais difíceis de nossa história recente. Com a inflação em alta, o crescimento em baixa e a expectativa de o escândalo da Petrobras se tornar uma tsunami na política brasileira, quem vencer a eleição terá pouco tempo para comemorar, num país dividido entre nós e eles, quando a união nacional é indispensável para as reformas que a sociedade exige e estão paralisadas pela luta política.

Campanhas eleitorais não são para fracos, mas, desta vez, 71% dos eleitores dizem que elas ultrapassaram todos os limites, rebaixando a política a um ramo da publicidade e do marketing de destruição, em que o principal objetivo foi mostrar, provar e reafirmar ao eleitor quem era o pior, fazendo as qualidades dos candidatos despertarem menos entusiasmo do que a repulsa aos adversários. É assim que a emoção vence a razão e o medo vence a esperança.

O pior efeito colateral das campanhas é dificultar ao máximo a convivência democrática de quem vencer com uma oposição forte, representativa e combativa, num momento dificílimo para o país, quando será mais urgente tomar providências do que apontar vilões e perseguir adversários.

A tsunami da Lava-Jato provocará uma devastação no Congresso Nacional, que dividirá com o/a presidente a responsabilidade de enfrentar o que vem pela frente. Com os partidos desmoralizados, com que representatividade serão feitas as reformas tributária, política e eleitoral ?

Algumas grandes empreiteiras que financiam as campanhas já estão procurando a Justiça para negociar acordos de leniência, dispostas a colaborar nas investigações e pagar os prejuízos à Petrobras e pesadas multas para não ter seus diretores, ou até presidentes, presos.

Além de rezar para o cenário da economia internacional não piorar, o maior desafio da/o eleita/o, mais do que baixar a inflação, fazer o país voltar a crescer, ampliar a inclusão social, melhorar os serviços e desbaratar as quadrilhas que assaltam o Estado, será unir o país — para viabilizar essas ações e atravessar as turbulências de 2015.

Feliz 2016!

Fonte: Jornal O Globo
Gloria Maria


OVOS, GALINHAS E LADRÕES

Quem chegou antes: empresários achacados por agentes públicos sob ameaças de grandes prejuízos ou os que subornaram para assaltar o Estado?

Com a explosão do escândalo da Petrobras e os depoimentos dos delatores premiados, tudo indica que, como nunca na História deste país, não veremos só políticos e banqueiros, mas os mais poderosos empreiteiros do Brasil, no banco dos réus, e talvez na cadeia. E o desmoronamento de uma organização criminosa formada por um cartel de empreiteiras numa ponta e partidos políticos na outra, com montanhas de dinheiro público no meio. Uma tsunami que provocará uma inevitável reforma política e eleitoral.

A extorsão e o suborno são o ovo e a galinha da corrupção brasileira. Quem chegou primeiro: os empresários achacados por agentes públicos sob ameaças de grandes prejuízos ou os que subornaram políticos e funcionários para assaltar o Estado? Além de eventuais prisões ou multas, se essas dez empreiteiras do cartel forem excluídas de concorrências públicas, que é o minimo que se pode esperar, o país vai parar. A coisa está feia para eles, mas principalmente para nós, que vamos pagar a conta que já estávamos pagando sem saber. O governo não sabia de nada.

Parece tema de um seriado. As diretorias da Petrobras eram ocupadas por partidos políticos como as quadrilhas de mafiosos ocupam territórios, para arrecadar dinheiro e se manterem no poder. Um cartel de empreiteiras dividia obras, fraudava concorrências, inflava orçamentos e pagava comissões aos partidos e a seus operadores. O doleiro Youssef era o banco central da engrenagem, fazendo o meio de campo entre a quadrilha e o cartel, distribuindo e lavando o dinheiro das comissões sujas. É tudo claro como lama. Mas quem eram os chefões ?

E pior: se fizeram isso na Petrobras, na maior empresa, a mais fiscalizada, o que não terão feito, estão fazendo, nos Correios, na Eletrobras e em estatais menores?

Como na explosão de uma bomba atômica, não se sabe ainda quantos morrerão no primeiro choque, quantos serão vítimas das radiações e quantos sofrerão terríveis mutações. A Lava-Jato será como um jato de lava vulcânica radioativa para lavar a alma de oposicionistas e governistas de bem, que querem um país mais limpo e produtivo.

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Nelson Motta
Enviado por: Carlos Medeiros


COMO UMA ONDA

Muito dificilmente, Marina terá condições políticas para fazer mudanças, mas quem acredita que Dilma ou Aécio terão, com os seus partidos carcomidos?

Os marqueteiros sempre dizem que o eleitor vota mais levado pela emoção do que pela razão, e Marina Silva não precisou de uma campanha de marketing para provar que eles estão certos. Entre os 70% dos que estão insatisfeitos e querem mudanças, boa parte está encontrando nela uma esperança que, apesar de seu passado petista e da senilidade do PSB, não tem o ranço partidário que nauseia o eleitor. Ninguém é bobo bastante para acreditar numa “nova politica”, mas qualquer coisa diferente da atual já seria um grande avanço.

Ao reconhecer os méritos e as conquistas dos governos FH e Lula e se apresentar como uma terceira via para a polarização PT x PSDB, que divide e atrasa o país, Marina atinge em cheio o eleitor que quer mudanças feitas por alguém com autoridade, legitimidade, honestidade e competência. Muito dificilmente, ela terá condições políticas para fazê-las, mas quem acredita que Dilma ou Aécio terão, com os seus partidos carcomidos e suas tropas políticas destruindo e sabotando uns aos outros?

Para quem não aguenta mais ter que escolher entre o preto e o branco, Marina oferece a opção de 50 tons que vão do verde ao vermelho, passando pelo azul.

Se a onda crescer e for eleita com uma votação avassaladora, Marina certamente receberá ofertas de apoio de todos os lados, querendo participar do poder, com as melhores ou piores intenções, e poderá escolher para seu governo os mais competentes de diversas filiações partidárias. OK, é um sonho, todos sabem que esse papo de governo de união nacional é furado, porque eles gostam mesmo é de partilhar o butim do presidencialismo de cooptação, mas, com Marina poderosa e uma eventual pressão da opinião publica, que os políticos tanto temem, talvez tenhamos alguma chance de virar o jogo.

Enquanto isso, insones e febris, marqueteiros petistas e tucanos e blogueiros de aluguel quebram a cabeça para encontrar uma forma de desconstruir Marina, garimpando, ou inventando, algo de podre na sua vida pública ou privada.

De certo, só que nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará. Quem viver verá.

Autor: Nelson Motta
Enviado por: José Maria


A FAVOR DO VOTO CONTRA

Nos Estados Unidos, como fazem com automóveis, os eleitores têm direito a um recall de políticos que estão dando defeito

Millôr Fernandes, que a cada dia está mais atual e inteligente, teve uma ótima ideia para democratizar o nosso sistema eleitoral, infelizmente nunca aplicada ou sequer proposta: o voto contra. O eleitor teria direito a dois votos, um no seu candidato preferido, e outro contra quem considerasse indigno de um cargo publico e nocivo à sociedade, um direito tão democrático como eleger um representante.

No final das contas, entre os prós e os contra, talvez não melhorasse muito o nível dos eleitos, mas muitos notórios malfeitores travestidos de políticos, que compram apoios e usam dinheiro sujo para fraudar as eleições, que buscam um mandato para fugir da Justiça, ficariam fora do poder. Economizaríamos tempo e dinheiro dos longos processos de cassação do TSE, sairia mais barato prevenir do que remediar.

Nos Estados Unidos, como fazem com automóveis, os eleitores têm direito a um recall de políticos que estão dando defeito. Seja por traição ao eleitorado com promessas não cumpridas, escândalos de corrupção, irresponsabilidade fiscal ou ineficiência administrativa, um recall pode ser proposto na Justiça e o elemento, democraticamente, ser cassado se assim quiser a maioria. Vários eleitos com grandes votações já foram enxotados no meio do mandato.

Em sua clarividência, Millôr talvez imaginasse o Brasil atual, onde parece haver mais vontade de votar contra do que a favor. O voto contra seria uma alternativa mais eficiente e democrática ao voto branco ou nulo — um protesto inútil que acaba beneficiando os que lideram a votação.

É triste, mas hoje no Brasil, mais do que as qualidades e propostas dos candidatos, o fator mais importante na definição das eleições pode ser a quantidade de abstenções, brancos e nulos. Entre os 70% de descontentes, a maior parte dos que vão votar em Aécio Neves quer é se livrar de Dilma e do PT. Entre os que estão descontentes, mas votam em Dilma, a maioria odeia Aécio e os tucanos mais do que gosta dela e de seu governo.

Se a ideia de Millôr estivesse em vigor, Marina Silva seria eleita no primeiro turno. Ou iria para o segundo com o Pastor Everaldo.

Autor: Nelson Motta
Enviado por: Conceição


AS ELITES VERMELHAS

Lula inventou uma bizarra luta de classes, em que não são os pobres que odeiam os ricos por sua opressão, exploração e privilégios, são os ricos que não suportam que os pobres comam, tenham um teto e, suprema afronta, viajem de avião pagando em dez vezes. E não se contentam em explorá-los e desprezá-los, amam odiá-los, logo eles, que vão consumir os bens e serviços que os ricos produzem para ficarem ainda mais ricos. Isso não é coisa de rico, é de burro, e Lula, rico, de burro não tem nada.

Com o país vivendo uma era de prosperidade desde o Plano Real, os três governos petistas não só tiraram milhões da miséria e alçaram milhões da pobreza à classe média, como criaram uma nova classe de ricos, ocupando milhares de cargos no governo, nas estatais, nos estados e nas prefeituras. É o pleno emprego, partidário.

Apenas com os altos salários e vantagens, sem falar nas infinitas possibilidades de intermediações, roubos e achaques, são legiões de novos ricos que formam uma “elite vermelha” — que ama os pobres, mas adora o luxo porque ninguém é de ferro, e não xinga presidentes, a não ser Sarney, Collor e FH. Nos anos 60, havia a “esquerda festiva”, mas hoje a esquerda é profissional. É o povo no poder… rsrs.

Pior do que ser pobre, que pode ficar rico, é ser burro, que não vira inteligente, ou fanático, para acreditar nisso. Mesmo rico e inteligente, Lula não está percebendo que velhos truques não estão mais funcionando — e está difícil criar novos bordões e bravatas. Essa de odiar os pobres não colou, porque os ricos agora “é nóis”. Como um Felipão atordoado, Lula volta ao velho “nós contra eles”, que o derrotou três vezes e o obrigou a fazer a “Carta aos brasileiros” para ganhar a eleição.

Doze anos de governos de um partido, até de bons governos, de qualquer partido, produzem profundo e inevitável desgaste e provocam desejos de mudança no eleitorado que progrediu nesse tempo, que está mais informado e exigente, e quer mais e melhor. Mas quando um governo é mal avaliado, com crescimento baixo e inflação alta, vítima de seus próprios erros...

É o eles contra eles.

Autor: Nelson Motta
Enviado por: Wanda Barcellos


FOGO E PAIXÃO!

Para o bem e para o mal, Copa do Mundo e eleições gerais são grandes eventos movidos a paixão, que, por cega e surda, não costuma ser boa conselheira, embora quase sempre fale mais alto do que a razão. Mas é ela que faz andar o mundo, aos trancos e barrancos, inevitavelmente para a frente, mas não necessariamente para o alto. Sem paixão, diria Nelson Rodrigues, não dá para chupar um chicabom.

Ninguém vai nos perguntar, como os audazes pilotos de buggy que levam turistas para passear pelas dunas de Natal, acelerando o motor do seu jegue mecânico: “Quer com emoção ou sem emoção?” O Ano Novo não oferece essa escolha, muito trabalho, dinheiro e propaganda serão investidos para botar mais fogo na paixão ─ e colher seus frutos.

Torcedor, como o próprio nome diz, torce. Torce a realidade, a evidência, a ética e a ótica, movido por uma emoção incontrolável, em que a voz e a ação antecedem o pensamento. Como numa metáfora de batalha sem mortos nem feridos, os guerreiros da bola despertam, com seus pés e suas cabeças, e, sim, com sua paixão e entrega, os melhores, e piores, sentimentos do torcedor. Em um lance do acaso, numa bola que rola, o herói vira vilão, ou vice-versa.

Da mesma forma, o militante milita, como um militar, cumpre missões, repete slogans e palavras de ordem, mas hoje é movido mais por dinheiro do que por paixão. Assim como as Forças Armadas e as torcidas organizadas, os militantes também se profissionalizaram, trabalham nas ruas e na internet, ganham salários para promover seus candidatos e destruir adversários, mas cada vez mais pregam para convertidos e mobilizam cada vez menos a emoção do eleitorado.

Na guerra política, a estratégia dos marqueteiros, mais do que oferecer números, argumentos e promessas, será para despertar a emoção do eleitor, que, movido pela razão, quer mudanças: no governo, ou de governo. Mas, assim como o futebol, a política é uma caixinha (dois, por supuesto ) de surpresas. Um passo em falso, uma fala infeliz, uma denúncia anônima podem virar o jogo a qualquer momento e ganhar ou perder o eleitor.
Haja coração. E um mínimo de razão.

Autor: Nelson Motta
Fonte: O Globo
Enviado por: Jandira



ATUALIDADES ELEITORAIS

É um mistério denso e insondável como a floresta amazônica: como Marina Silva pode ter 26% das intenções de votos para presidente, sem sequer ser candidata, e não conseguir para a sua Rede Sustentabilidade as 500 mil assinaturas que legalizaram partidos como o Pátria Livre, o Renovador Trabalhista Brasileiro, o da Causa Operária, ou o Ecológico Nacional?

Ninguém os conhece, mas eles existem e recebem fundos partidários (o PCO levou R$ 629 mil, e o PEN, R$ 343 mil, em 2012) e valioso tempo na televisão (R$ 850 milhões, pagos pelo contribuinte e divididos entre os 32 partidos), que podem vender para quem pagar mais.

Das duas, uma: ou o comitê organizador da Rede é tão desorganizado, até como despachante incapaz de recolher simples assinaturas, que desqualificaria seu candidato a qualquer cargo; ou uma conjunção de interesses escusos conspira em diversos níveis para inviabilizar o partido e a candidatura de Marina, pelo estrago que pode fazer em candidaturas do governo e da oposição.

Não que o partido e a própria Marina representem grandes expectativas de modernidade e inovação, por enquanto significam apenas que os outros são muito piores, e sem esperanças de melhorar. Na Rede, o ambiente voluntarista também será propício a grandes incompetências, burrices e atrasos (sempre com a melhor das intenções… rsrs), mas que dão tanto ou mais prejuízo ao país do que a ladroagem.

Na oposição, as perspectivas não são animadoras: Carlos Lupi insinua o apoio do PDT à candidatura de Eduardo Campos e Paulinho da Força oferece o seu novo partido Solidariedade a Aécio Neves. Assim como elogios vindos de certas pessoas soam como ofensas, como imaginar que apoios como esses possam contribuir para as mudanças que as candidaturas têm que oferecer? Entre eles e a base dilmista de Sarney, Renan, Maluf e companhia, só mudam as moscas.

No Rio de Janeiro, a população se prepara para uma escolha pior que a de Sofia, entre Garotinho, Lindinho Farias e Marcelo Crivella, que lideram as pesquisas para governador. Num bar do Leblon, um velho e cínico carioca advertia: vocês vão ter saudades do Cabral…

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Nelson Motta é jornalista


UM ZUMBI NA CASA DO ESPANTO
30/08/2013

"Não acredito", bradou aos céus o deputado Natan Donadon, caindo de joelhos em patética pantomima, quando viu no placar da Câmara 131 votos a favor, 41 abstenções e 108 bem-vindas ausências, que mantinham o seu mandato e o consagravam como o primeiro deputado-presidiário da nossa história. Que ronco das ruas que nada, eles não ouvem e não têm medo, e mais uma vez votaram, ou fugiram, em causa própria, porque também acumulam processos na Justiça e podem ser o Donadon de amanhã. "Não a-cre-di-to" digo eu, dizemos nós, diante da cena inacreditável, mas quando se trata dos 300 picaretas que Luiz Inácio falou deve-se acreditar em tudo, porque de tudo eles são capazes. Nunca na história deste país houve um deputado-detento, mas Lula agora diz que fica puto quando falam mal de políticos. Zoologicamente é fácil identificá-los: andam em bandos, têm pelagem acaju, negro graúna ou raposa prateada, alimentam-se de verbas públicas e são pacíficos e afáveis, condição necessária para seus golpes e tramoias, mas quando ameaçados podem se tornar hostis e violentos em defesa dos privilégios e impunidades do bando. Seu habitat natural é a Câmara dos Deputados. Donadon é o símbolo máximo do ponto mais baixo de uma instituição que existe para dar voz e poder aos representantes dos eleitores, mas, unindo o espírito de corpo ao espírito de porco, não hesita em se solidarizar com um condenado pelo STF, que teve amplo direito de defesa e usou todos os recursos e chicanas para retardar o processo. Aprendi com meu pai que é covardia tripudiar sobre os caídos, que a compaixão beneficia mais quem se compadece do que ao compadecido, que perdoar é mais leve do que carregar o saco do rancor e do ressentimento. Mas no caso desse picareta foram ele e seus colegas de trabalho que tripudiaram sobre todos os cidadãos honestos e as instituições democráticas. E também sobre os presidiários. Reclamando da comida, da falta de água, das algemas, do camburão "escuro como um caixão", viveu a realidade diária dos presos brasileiros, a maioria por crimes menores que os dele, que prejudicaram toda a sociedade.

Nelson Motta é jornalista de O Globo
Enviado por Jandira
Enviado por Jandira Seixas


A CASTA DOS DODÓIS
17/05/2013

O país está muito preocupado com a saúde dos funcionários do Senado. Sobrecarregados de trabalho e estressados pelas pressões cotidianas, os combalidos servidores tiraram mais de 87 mil dias de licenças médicas em apenas dois anos, que custaram 50 milhões de reais. E quantos médicos trabalharam milhares de horas para examinar, diagnosticar, receitar e licenciar tantos servidores doentes? Agora se entende por que o Senado precisa de tantos médicos concursados, terceirizados e comissionados. E por que os senadores voam para o Sírio-Libanês ao menor sintoma de qualquer coisa. Talvez a saúde dos servidores do Senado seja mais frágil e sujeita a doenças do que a dos funcionários da Ford, da Ambev ou do Bradesco.

Não seria o caso de contratar pessoas mais saudáveis para o Senado? Ou dar-lhes um adicional de insalubridade? Imaginem se uma empresa privada com 10 mil funcionários — do tamanho do Senado, mas produzindo bens ou serviços para a população — tivesse esse volume de faltas. Falência ou demissão em massa? Nem dinheiro do BNDES daria jeito. Mesmo com um grande número de faltas, ninguém notou diferenças no Senado. Ou seja, os funcionários que deixaram de ir ao trabalho não fizeram a menor falta.

A verdade é que, mesmo com esse volume colossal de faltas, ninguém notou diferenças no funcionamento do Senado, nenhum projeto deixou de ser votado, nenhuma comissão deixou de funcionar, nenhuma determinação da Mesa deixou de ser cumprida. Ou seja, não fizeram a menor falta. Provaram que o Senado pode viver muito bem sem eles.

Já estou esperando a carta furibunda da associação dos funcionários do Senado, repudiando a crônica debochada, desclassificando o cronista, e enaltecendo a eficiência e probidade da corporação, exigindo respeito pelos servidores públicos. E o clássico "não é justo culpar todos pelas eventuais falhas de alguns poucos" embora ninguém os tenha acusado coletivamente.

Podem até dizer, à la Mantega, que o índice de faltas é só um pouco mais alto do que os padrões da iniciativa privada, mas vai cair. E talvez tenha sido motivado pela secura do ar de Brasília, talvez por epidemias de gripe que assolaram o Planalto. Mas não há remédio para falta de vergonha na cara e de respeito pelo dinheiro suado do contribuinte.


O NOVO MERCADO SEXUAL

O jogo virou, de antigas oprimidas dos anos 60, chamadas por John Lennon de "o crioulo do mundo" em "Woman is the Nigger of the World", as mulheres avançaram pelas trilhas abertas pelo feminismo e hoje são presidentes, secretárias de Estado, ministras, comandantes de jatos, de batalhões militares e de grandes grupos econômicos, jogando futebol, dirigindo filmes e dando aulas de todos os assuntos, elas estão em toda parte, até na frente de combate. Mas continuam reclamando.

Pesquisas recentes mostram que nos Estados Unidos, onde elas têm mais poder, dinheiro, independência e liberdade do que nunca, as mulheres estão mais insatisfeitas agora do que nos anos 60, porque, com tantas opções, escolher ficou muito mais difícil. E como Freud já sabia, nunca se sabe o que quer uma mulher. Até o sonho da maternidade balança, algumas já admitem que seria melhor não ter tido filhos, ou que foram eles que destruíram a sua felicidade.

São muitas as Marias hoje em dia, da clássica "Maria-Gasolina", com sua atração irresistível por carros, à moderna "Maria-Chuteira", que acompanhou a evolução sociopatrimonial dos jogadores de futebol. Agora a antropóloga Miriam Goldenberg fala do florescimento nos meios universitários da "Maria-Apostila", que manda recados safados aos professores nas apostilas e no Facebook, tipo "Vai ao barzinho hoje ? Se for, vou sem calcinha". Competindo para ver quem pega mais professores, as "Maria-Lattes", como a famosa plataforma de currículos acadêmicos, valorizam tanto a quantidade quanto a qualidade.

As mulheres passivas, à espera do chamado dos homens, estão saindo de cena. Estamos na era da periguetes, das roupas curtas e justas em corpos sarados, partindo para o ataque e invertendo os papéis de gênero, intimidando e provocando desconforto nos homens. Embora ainda continuem esperando um telefonema no dia seguinte.

Nas pesquisas de Miriam ficou claro que, com essa troca de papéis, os homens estão apavorados. E as mulheres, desesperadas. Assim como na economia, a lei da oferta e da procura vale para o mercado sexual: quando a oferta cresce, a procura amolece.

Autor: Nelson Motta
Enviado por: Nelly


NINA E CARMINHA EM BRASÍLIA

Se o mensalão não tivesse existido, ou se não fosse descoberto, ou se Roberto Jefferson não o denunciasse, muito provavelmente não seria Dilma, mas Zé Dirceu o ocupante do Palácio da Alvorada, de onde certamente nunca mais sairia. Roberto Jefferson tem todos os motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito heroico: "Eu salvei o Brasil do Zé Dirceu".

Em 2005, Dirceu dominava o governo e o PT, tinha Lula na mão, era o candidato natural à sua sucessão. E passaria como um trator sobre quem ousasse se opor à sua missão histórica. Sua companheira de armas Dilma Rousseff poderia ser, no máximo, sua chefa da Casa Civil, ou presidenta da Petrobrás.

Com uma campanha milionária comandada por João Santana, bancada por montanhas de recursos não contabilizados arrecadados pelo nosso Delúbio, e Lula com 85% de popularidade animando os palanques, massacraria Serra no primeiro turno e subiria a rampa do Planalto nos braços do povo, com o grito de guerra ecoando na esplanada: "Dirceu guerreiro/ do povo brasileiro". Ufa!

A Jefferson também devemos a criação do termo "mensalão". Ele sabia que os pagamentos não eram mensais, mas a periodicidade era irrelevante. O importante era o dinheirão. Foi o seu instinto marqueteiro que o levou a cunhar o histórico apelido que popularizou a Ação Penal 470 e gerou a aviltante condição de "mensaleiro", que perseguirá para sempre até os eventuais absolvidos.

O que poderia expressar melhor a ideia de uma conspiração para controlar o Estado com uma base parlamentar comprada com dinheiro público e sujo? Nem Nizan Guanaes, Duda Mendonça e Washington Olivetto juntos criariam uma marca mais forte e eficiente.

Mas, antes de qualquer motivação política, a explosão do maior escândalo do Brasil moderno é fruto de um confronto pessoal, movido pelos instintos mais primitivos, entre Jefferson e Dirceu. Como Nina e Carminha da política, é a história de uma vingança suicida, uma metáfora da luta do mal contra o mal, num choque de titãs em que se confundem o épico e o patético, o trágico e o cômico, a coragem e a vilania. Feitos um para o outro.

Autor: Nelson Motta
Enviado por: Nelly


O CRAQUE E O ESPELHO

Pisando na bola, errando passes, falhando nos desarmes, atropelando seus próprios companheiros de time e, em lance inusitado, tentando driblar até o juiz, para usar as metáforas futebolísticas que lhe são caras, Lula sem barba está parecendo um Sansão sem cabelos. E a Dalila a lhe cortar a força não é a doença, mas sua própria vaidade. Enfrentar o câncer e a morte, e sobreviver, talvez tenham lhe provocado o efeito colateral de aumentar a sua onipotência e fazê-lo vítima de sua já desmesurada vaidade. Ao lado de Sérgio Cabral e Eduardo Paes, Lula foi flagrado em mais um impedimento clamoroso no futebol político.

"É com muito orgulho que eu posso dizer ao povo do Rio de Janeiro: um dia tive a coragem de ir para a televisão e pedir votos para este moço."

A vaidade de Lula é tanta que ele se sente orgulhoso do que qualquer um se envergonharia, chamando de coragem pedir votos para um moleque que detestava, que era secretário-geral do PSDB e havia infernizado a sua vida e dos petistas na CPI dos Correios, e, pior, tinha denunciado seu filho Fábio Luis como beneficiário de uma associação suspeita com a Brasil Telecom, que o fazia ainda mais odiado por dona Marisa Letícia. Dobrar a ira da mãe e a decepção do filho em nome da política e da luta pelo poder não dá para orgulhar ninguém.

Cometendo faltas e culpando o adversário, pressionando o juiz e insuflando a arquibancada, Lula prende demais a bola e centraliza todas as jogadas, mas erra na distribuição e não consegue armar os contra-ataques. O craque dos palanques está em fase mais para Ronaldinho Gaúcho do que para Fenômeno.

Disse que pouco conhecia Eduardo Paes em 2008 e por isso tinha dúvida em apoiá-lo, mas foi convencido por Sérgio Cabral:

"Não me arrependo de ter pedido voto para ele e farei isso em 2012 com muito mais convicção."

Assim como não sabia do mensalão, Lula não conhecia um dos oposicionistas que mais o denunciavam. Assim como José Dirceu está cada vez mais convencido de sua inocência, Lula agora está muito mais convicto de que pode enganar todo mundo o tempo todo. Assim não ha teflon que aguente.

Autor: Nelson Motta
Fonte: Estadão
15/06/2012
Enviado por Jandira Seixas


ANO NOVO, VELHOS DESEJOS

ão é preciso ser Paulo Coelho para acreditar no poder das palavras e na força dos desejos. Nem Raul Seixas para cantar que "sonho que se sonha junto é realidade". Que meus desejos expressem os de muitos leitores, ou ao menos os de alguns deles. E que as nossas palavras tenham o poder de realizá-los, pelo menos os mais óbvios.

Que o mensalão do PT e aliados, o do PSDB mineiro e o do DEM de Brasília sejam julgados e condenados. Assim como os juízes ladrões e os administradores e parlamentares corruptos.

Que sejam proibidas contribuições de pessoas jurídicas às campanhas eleitorais, como propõe o ministro Dias Toffoli, do STF. Empresas não votam, são os cidadãos e os partidos, que já têm o horário eleitoral e os fundos partidários, que devem financiar as campanhas de seus candidatos. Com limite por CPF. Uma ruptura da promiscuidade entre governos e empresas, raiz da corrupção e do atraso.

Que seja abolido o voto obrigatório. Eleitores que só votam para não pagar multa não farão falta: são os que fazem as piores escolhas. Somos um dos últimos países do mundo com essa herança das ditaduras para "legitimá-las" nas urnas.

Que a Lei da Ficha Limpa valha para preenchimento de cargos em todos os níveis da administração federal, estadual e municipal.

Que o Estado desista de ser babá do cidadão, de tentar proteger-nos de nós mesmos. E respeite mais nossa privacidade e nossas escolhas.

Que as ideias do professor Fernando Henrique Cardoso sobre descriminalização da maconha sejam discutidas.

Que Sarney se aposente com suas três aposentadorias. E, roído de culpa, em busca de redenção, doe todos os seus bens aos pobres do Maranhão. Mas aí também já é sonhar demais.

Que parem de telefonar para minha casa oferecendo coisas que não pedi.

Que a nova música de Belém do Pará faça o sucesso que merece.

Um novo disco de João Gilberto. Um show de Jorge Drexler.

Uma nova temporada de "Força Tarefa" na televisão. E, sem querer abusar, um novo romance de seu roteirista Marçal Aquino. Um novo livro de Reinaldo Morais, se possível, "Pornopopeia 2, qualquer coisa".

Desejar menos. Aceitar mais.

Fonte: O Globo Blog
Nelly


O REINO DO FAZ DE CONTA

Não chamar as coisas pelos seus nomes - principalmente quando são desagradáveis, ilegais ou imorais -, mas por doces eufemismos, é uma das características mais marcantes do estilo brasileiro. Já começa no nosso célebre jeitinho - o nome que damos a transgressões da lei e das normas para levar vantagem em tudo.

De gratuito, o horário eleitoral não tem nada: as emissoras recebem créditos fiscais por suas perdas de receita comercial e são os contribuintes que pagam pela boca livre dos partidos, num milionário financiamento público das campanhas. Contribuinte já é um eufemismo que sugere ser facultativo e voluntário o pagamento obrigatório de impostos. Em inglês, os que pagam a conta são chamados literalmente de "pagadores de impostos".

"Prestar contas do mandato" significa que o parlamentar gastou verba oficial para se promover com seu eleitorado. As chantagens, achaques e acertos dos políticos com o governo são sempre em nome da "governabilidade". É claro que ninguém fala de suborno ou propina, ou mesmo da antiga comissão, nossa inventividade criou a "taxa de sucesso".

O companheiro Delúbio Soares deu inestimável contribuição ao nosso acervo eufemístico criando o imortal "recursos não contabilizados" em substituição ao antigo, mas sempre atual, "caixa 2", eufemismo histórico para sonegação de impostos e dinheiro sujo.

No Brasil, quase todas as organizações não governamentais só vivem com o dinheiro governamental: o meu, o seu, o nosso. Assim como "notória capacidade técnica" é o álibi linguístico para ganhar licitações sem disputá-las, "mudança de escopo" é o superfaturamento legalizado.

O clássico "o técnico continua prestigiado" significando iminente demissão migrou do futebol para a política com sucesso. Diante de acusações da imprensa, o ministro jura que não fez nada de errado e o governo diz que ele está prestigiado. A novidade é que agora, justamente porque é inocente e está prestigiado, ele pede para sair antes de ser demitido.

No país do faz de conta, quando se ouve falar em "rigorosa investigação, doa a quem doer", todos entendem que não vai dar em nada.

Autor: Nelson Motta
Fonte: O ESTADÃO


LIÇÃO DE PORNOPOLÍTICA

"Quando atacam um companheiro nosso, temos que defendê-lo. Nem que depois a gente o chame num canto e diga que ele está errado."

A frase poderia ser de um chefão mafioso para a quadrilha, ou de um lobo para a matilha, mas é a mais perfeita expressão do conceito lulista de ética, que se aplica tanto a Delúbio e Zé Dirceu como a Sarney, Renan e Severino.

Claro que depois Lula os chamou num canto e disse que eles estavam errados, nós sabemos como Lula é rigoroso. Na ética companheira o mais importante não é fazer errado, é não ser flagrado. Falar com a língua presa não é nada, o problema é ter preso o rabo.

Assim como os livros do MEC ensinam que 10 - 7 = 4, e que falar errado é só um preconceito linguístico, o lulismo trouxe conceitos éticos inovadores, como o que aceita o roubo e a corrupção, desde que seja para o partido. Mas, se for em causa própria, basta chamar o partido para defender o companheiro e salvá-lo da cadeia. Depois será chamado de lado para ouvir que estava errado.

No Brasil pós-Lula ninguém se envergonha de ser eleito para defender os interesses do País e dos seus eleitores - e também dar consultas para empresas privadas que só têm interesse em seus lucros.

Mas não é ilegal, gritam. É apenas imoral. Em países sérios seria, mas aqui nunca será, porque os deputados jamais vão legislar contra seus próprios interesses. É só uma afronta a homens e mulheres honestos que lutam para ganhar a vida e pagar impostos para sustentar essa gentalha. O traficante de influência é pior do que o de drogas, porque vende o que não lhe pertence.

Mesmo assim eles não conseguem viver com o salário de R$ 25 mil - maior do que o de parlamentares americanos e japoneses - e por isso precisam manter outro emprego, como Palocci e outros "consultores". São deputados part time, que servem mais a seus clientes do que ao País.

Com todo respeito pela minoria que ainda resiste, atualmente a deputança parece apenas uma boquinha meio período, um trampolim para subir na vida e nivelar por baixo. Como diz a velha piada, mais atual do que nunca, eles estão fazendo na vida pública o que fazem na privada.

Autor: Nelson Motta -
O Estado de S.Paulo


O AVESSO DO AVESSO

Está bombando no YouTube e provocando acessos de gargalhadas e deboches um filme de sete minutos em preto e branco com o prosaico título Maranhão 66. Aparentemente é um documentário sobre a posse de José Sarney no governo do Estado, feito por encomenda do eleito. Mas é assinado por Glauber Rocha.

Com 35 anos, cabelos e bigode pretos, Sarney discursa para o povo na praça, num estilo de oratória que evoca Odorico Paraguaçu, mas sem humor, à sério, que o faz ainda mais caricato e engraçado. Sobre seu palavrório demagógico, Glauber insere imagens da realidade miserável do Maranhão, cadeias cheias de presos, doentes morrendo em hospitais imundos, mendigos maltrapilhos pelas ruas, crianças esquálidas e famintas, enquanto Sarney fala do potencial do babaçu.

Só alguém muito ingênuo, ou mal-intencionado, poderia imaginar que Glauber Rocha fizesse um filme chapa branca. Em 1964, com 25 anos, ele tinha se consagrado internacionalmente com Deus e o diabo na terra do sol e vivia um momento de grande prestígio, alta criatividade e absoluto domínio da técnica e da narrativa cinematográfica. E odiava a ditadura que Sarney apoiava.

Em Maranhão 66, a narrativa se estrutura na dialética entre as imagens da realidade dramática e a demagogia caricata do jovem político provinciano que está tirando do poder um velho coronel - para se tornar ele mesmo o novo coronel.

O filme dentro do filme é imaginar o susto de Sarney quando o viu. Em vez de filmar uma celebração vitoriosa, Glauber usou e abusou da vaidade e do patrocínio de Sarney para fazer um devastador documentário sobre um arquetípico político brasileiro. E uma pesquisa para Terra em transe, que filmou em seguida e hoje é considerado a sua obra-prima. Sarney foi a base para o líder populista interpretado por José Lewgoy, famoso como vilão de chanchadas.

Glauber dizia que o artista também tem de ser um profeta; mas a sua obrigação é de profetizar, não de que as suas profecias se realizem. O discurso de Sarney e as imagens de Maranhão 66 são os mesmos do Maranhão 2011, num filme trágico, cômico, e, 46 anos depois, profético.

Nelson Motta é jornalista e colunista do jornal "O Globo"

Maranhão 1966, o documentário de Glauber Rocha

 


Paixões Perigosas

Não é só nas novelas que a paixão cega, ensurdece, escurece a mente e embota a inteligência. Ela nos leva a fazer o inconcebível, a aceitar o inaceitável, a esquecer o inesquecível. Como em um transe, uma possessão, ela se incorpora e comanda, atropela a ética, a estética e as evidências. Paixão é droga pesada, que provoca êxtase e dependência, é insaciável, e sua falta produz desespero, vazio e dor. Mas sem paixão, dizia Nelson Rodrigues, não se pode nem chupar um chicabom.

É impossível imaginar grandes conquistas pessoais e coletivas sem paixão, sem entrega, é ela que nos move além do instinto, da razão e de nós mesmos. Fora as carnais, que são hors-concours, as paixões mais perigosas parecem ser as políticas, esportivas e religiosas.

É fascinante, e assustador, ver pessoas educadas e delicadas se transformando em bestas boçais cuspindo fogo e soltando coices verbais por um jogo de futebol. Filmados, não se reconheceriam. Reconhecidos, se vexariam. Mas é mais forte do que eles.

Na faculdade, já achava meio ridículos os debates acalorados nas assembleias estudantis, movidos a slogans, palavras de ordem, acusações, bravatas e ameaças. E não raro, força bruta e intimidação. Nobres e pobres paixões juvenis.

Hoje, ler os comentários de leitores nos blogs é chafurdar no que há de mais estúpido na paixão politica, e pior, partidária. Pelo seu potencial destruidor, por emburrecer os inteligentes, fortalecer os intolerantes, afastar os diferentes, entorpecer a razão, inviabilizar qualquer convivência. É a paixão desses militantes sinceros e radicais, de qualquer partido, coitados, que serve de massa de manobra para políticos apaixonados não pelo país ou a cidade, mas pelo poder, e por eles mesmos.

Como equilibrar a paixão necessária com a razão e a serenidade indispensáveis para viver e crescer em liberdade? Paixões são indomáveis e incontroláveis, delas nascem as piores formas de servidão.

Nos resta esperar o lançamento de um Super Paixoneitor Control Tabajara, e não perder um capítulo da novela “Passione”, uma aula sobre os estragos e desastres que ela provoca.

Autor: Nelson Motta é jornalista e colunista do jornal "O Globo"
Texto enviado por Spartaco Massa


O NOVO VELHISMO

Nunca imaginei que iria ficar velho. Para mim, velhos eram aquelas pessoas de mais de 50 anos, de cabeça branca, aposentados na cadeira de balanço, com uma manta sobre as pernas e chinelinhos de lã. Todos os paparicavam e os tratavam como crianças, ninguém os levava a sério. Como se vê, desde pequeno cometo graves erros de avaliação.

Felizmente, ficar velho hoje é muito melhor do que quando eu era criança. Não só pelos avanços da ciência, que prolongaram a vida e melhoraram a sua qualidade, mas pelas evoluções da sociedade e da tecnologia, que nos facilitaram o cotidiano, quebraram preconceitos e permitem a gente de qualquer idade ser produtiva e ter todos os direitos, e deveres, da vida social. Nunca imaginei que minha mãe, hoje com 88 anos, continuaria tomando seu vinhozinho e estaria na internet e fazendo análise. Ela detesta ser chamada de “terceira idade”: não liga de ser velha, mas não gosta de “palhaçadas”.

Nunca me passou pela cabeça que um dia eu seria capaz de furar filas em aeroportos, bancos e cinemas com a tranqüilidade dos justos, logo eu, que sempre respeitei a lei e sempre detestei e combati todas as formas de privilégio. Mas lamento só ter descoberto que tinha esses direitos aos 63 anos. Mal informado, pensava que eram só para quem tinha mais de 65. Perdi três anos de moleza! Nos aeroportos, furando feliz filas imensas, imagino como se sentem os nossos parlamentares. Assim como eles, mas por motivos diversos, não sinto a menor vergonha. Nem de minha idade e nem dos meus direitos legítimos. Vou logo perguntando: “Qual é a fila dos velhinhos?”

Mas o politicamente correto americano continua criando eufemismos patéticos e denunciando “preconceitos” contra gente que já viveu mais. Não querem mais que nos chamem de “cidadão sênior”, porque ninguém chama alguém de menos de 60 de “cidadão júnior”. Nem “idoso” eles aceitam. O correto é dizer “adulto mais velho” ou, singelamente, “homem” ou “mulher”. Depois do racismo, do sexismo e do pobrismo, o velhismo. Além de tentar nos tirar o orgulho de havermos sobrevivido até aqui, querem nos obrigar ao ridículo.

Autor: Nelson Motta é jornalista e colunista do jornal "O Globo"
Texto enviado por Spartaco Massa

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