APÓLLO NATALI

O QUE ACONTECEU COM OS HOMENS?

O ELEFANTE

A BRIGA DO SÉCULO: VELHINHO X COMPUTADOR

VOCÊ SABIA?

QUEM É ESSE PADRE?

A FLOR E O PASSARINHO

TRIÂNGULO

DESAJUSTE

A NOIVA

ENTRE A TERRA E O CÉU

DELÍRIO DE HUMANIDADE

ABAIXO O TERROR CONTRA CRIANÇAS!

 


O QUE ACONTECEU COM OS HOMENS?

Resumo da ópera psicanalítica: em todos os filhos sem pai encontramos sistematicamente uma deficiência no plano social, sexual, moral ou cognitivo. Ao contrário do que se acreditava, é durante os dois primeiros anos de sua existência que os meninos têm absolutamente necessidade do pai. Acham-se nesses meninos sem pai os mesmos desenvolvimentos atípicos encontrados em órfãos que vivem em lares de adoção.

Os filhos que não receberam uma “paternagem” adequada, isto e, presença física e também presença afetiva, amor, calor humano, na adolescência tornam-se confusos quanto a sua identidade sexual, muitas vezes apresentam uma feminização do comportamento, falta-lhes amor próprio, reprimem sua agressividade e com ela sua necessidade de afirmação, sua ambição e sua curiosidade exploratória.

Alguns podem sofrer bloqueios relativos à sexualidade, podem ter problemas de aprendizagem, demonstram muitas vezes dificuldade em assumir valores morais e responsabilidades em desenvolver o senso do dever e de obrigação em relação ao outro.

Também: a ausência de limites se manifestará tanto na dificuldade de exercer a autoridade quanto na de respeitá-la. A falta de estrutura interna ocasionará certa fraqueza de temperamento, ausência de rigor e, em geral, complicações na organização da própria vida.

Além do mais: pesquisas indicam que os filhos de pais ausentes têm maior propensão ao homossexualismo do que aqueles cujos pais estiveram presentes. Têm também maior suscetibilidade a problemas psicológicos e a pior hipótese será a delinquência, a droga, o alcoolismo, tudo isso envolvido por uma revolta infinda contra a sociedade patriarcal, revolta que devolverá ao pai faltoso a imagem de sua ausência.

Estatísticas sobre a precariedade da saúde geral dos homens: durante a infância e a adolescência apresentam mais frequentemente que as mulheres atraso mental, problemas de atenção associados à hiperatividade, problemas de comportamento, hiperansiedade, dificuldades esquizóides, tiques transitórios ou crônicos, gagueira, enurese – urinar e defecar involuntariamente - sonambulismo e terror noturno, autismo, perturbações do desenvolvimento persistentes e específicas, como a dislexia.

Finalmente: na idade adulta os homens ocupam um espaço considerável nas categorias de perturbações de personalidade paranoide, compulsiva e anti-social, como atesta seu elevado número nas prisões. Os homens predominam amplamente em matéria de transexualismo, homossexualismo e perversões sexuais.

Medo da homossexualidade: a primeira consequência do filhos que ficam aos cuidados exclusivos da mãe é o medo das mulheres. O medo de ser uma delas. Durante toda a vida os filhos sem o pai terão medo do corpo, tanto do das mulheres quanto do seu. O fato de não ter recebido afeto físico por parte do pai fará nascer no filho o que os psicanalistas acham que se deve mesmo denominar de terror: ser homossexual. Maiores prejuízos ainda ao filho são causados pelo pai, embora presente fisicamente, idiotamente truculento e agressivo.

O medo de ser homossexual está tão profundamente enraizado no homem, sua presença é tão insidiosa e perpétua que ele termina por ameaçar todas as relações de amizade dos homens entre si, envenena toda possibilidade de um erotismo masculino e, além do mais, impede muitos pais de tocarem seus filhos. O homossexualismo no mais das vezes traduz a procura inconsciente do pai, a procura de uma identidade masculina.

Literatura analítica: o homossexualismo tem suas raízes arquetípicas no mais profundo da história da humanidade. A exemplo da maioria dos homens, os homossexuais são filhos que ainda tentam soltar seus corpos da dominação materna ou homens que não aguentam mais ter que viver de acordo com os ditames ridículos de uma sociedade que lhes proíbe o acesso a seus sentidos.

De ponta cabeça na psicanálise: a tentativa desesperada de não ser assimilado pelo corpo da mãe já que necessita mais é ser assimilado pelo corpo do pai, não explicaria em parte o desprezo do homem por um outro corpo, o da Terra? O saque e a poluição da Terra pelos homens de terno e gravata que dirigem empresas e países não exprimiriam uma vingança inconsciente dos filhos em relação ao corpo da mulher? Essa falta de respeito e esse abuso de poder por parte do animal humano em relação ao próximo e a seu próprio habitat não atestam a posição demente na qual foram colocados os homens ao serem privados de suas sensações corporais?

Não seria o grito enraivecido deles que vai perfurar a camada de ozônio? Não é sua imensa dor não expressa por não terem acesso à própria sensibilidade e serem podados pela inconsciência do próprio pai que torna os homens tão destrutivos e selvagens? Não se comportam eles como crianças ou animais que tivessem sido privados de afeto durante toda a vida?
Os filhos sem pai, inquietos e sem estrutura, necessitam de protagonizar papéis na sociedade para poder existir. Há os que agem como heróis, sedutores, arremessam-se em aventuras perigosas, tornam-se bêbados. Não acreditam que possam ser amados por ninguém. Vão à forra. Readquirem o que foi perdido externando crueldade.

Agora, o melhor: é necessária uma história de amor entre o pai e o filho já por ocasião dos primeiros balbucios da criança. Essa história de amor favorecerá o desenvolvimento genital no momento em que a diferenciação sexual apenas começa a ocorrer. Permitirá ao filho, mais adiante, engajar-se com mais segurança na heterossexualidade. Nada de compulsão para exercer poder destrutivo.

A necessidade de um pai é fundamental à espécie humana.

Detalhadas explicações psicanalíticas sobre o que acontece com o homem está em “Pai Ausente, Filho Carente”, de Guy Corneau, Editora Brasiliens

Autor: Apollo Natali


O ELEFANTE

A tromba do elefante mede quase dois metros de comprimento e 30 cm de largura e contém 60 mil músculos.

Os elefantes usam sua tromba para arrancar árvores do solo, empilhar toras de madeira ou colocar cuidadosamente enormes vigas de madeira no seu devido lugar quando participam da construção de pontes.

Um elefante pode enrolar sua tromba em torno de um lápis e desenhar caracteres numa folha de papel de tamanho carta. Com as duas extensões musculares da ponta pode remover um espinho, pegar um alfinete ou uma moeda de 10 centavos., destampar uma garrafa, puxar suavemnte a lingtueta da porta de uma jaula e escondê-la numa saliência, ou segurar uma xícara tão fortemente, sem quebrá-la, que somente outro elefante consegue tirá-la.

A ponta da tromba é suficientemente sensível para que um elefante com os olhos vendados acerte a forma e textura de objetos. Em estado selvagem, os elefantes usam a tromba para puxar torrões de grama e batê-los contra os joelhos para retirar a sujeira, para pegar cocos sacudindo os coqueiros e para espalhar poeira sobre o corpo.

Usam a tromba para verirficar o terreno onde pisam, evitando assim armadilhas e para cavar poços e aspirar água deles.

Os elefantes conseguem andar debaixo da água no leito de rios profundos ou nadar como submarinos por vários quilômetros usando a tromba como snorkel.

Comunicam-se por meio da tromba barrindo, zunindo, rugindo, apitando, ronronando, ribombando e fazendo um som metálico de amassar por meio de golpes rápidos com a tromba contra o chão.

A tromba possui quimiorreceptores que permitem ao elefante detectar pelo cheiro uma jibóia escondida na relva ou alimento a um quilômetro e meio de distância.

Os elefantes  são os únicos animais vivos que possuem esse órgão extrordi nário. Seu parente mais próximo vivo é o hirax, um mamífero que você provavelmente não conseguiria distinguir de um grande porquinho-da-india.

É possível que até agora você não tenha parado para pensar no caráter único da tromba do elefante. Nenhum biólogo deve ter feito muito estardalhaço a respeito. Mas imagine agora o que aconteceria se alguns biólogos fossem elefantes.

Autor: Apollo Natali


A BRIGA DO SÉCULO: VELHINHO X COMPUTADOR

A pergunta é: por que adultos, principalmente idosos não se dão bem com o computador? Como explicar essa resistência ao aprendizado e aceitação das novas tecnologias? Uma enorme autoridade norte-americana da época em que surgiu o telefone, resistia ao novo invento conclamando que ele serviria apenas para a tagarelice das mulheres. O primeiro a se beneficiar enormemente foi a imprensa. Nos séculos das invenções, o dezenove e o vinte, cada nova invenção era mal digerida de alguma maneira. Algumas de vital importância esperaram décadas para funcionar. Um linguista explicaria a razão da resistência. Crianças, isto é, cérebros virgens, aceitam e até modificam o que é novo, como os idiomas, por exemplo. Eu, idoso, resistia. O computador me virava o estômago. Por quê?

Trabalhei 40 anos na imprensa escrita, me consideravam o melhor datilógrafo do Brasil – 540 batidas por minuto na máquina de escrever. E que resistência havia ao uso da máquina de escrever! Arranjava emprego apenas quem era datilógrafo. Quando me despedi das redações as mídias impressas estavam desencaixotando os computadores. Passei a encarar a nova tecnologia com náusea. Eu já vivi tudo, resmungava, para que serve essa complicação intragável? A moçada encurvada no teclado me provocava mal-estar no cérebro. Mas havia um probleminha: eu ainda corria atrás de antigo sonho de transitar pelas matérias de uma Faculdade de Jornalismo. Tinha 68 anos. Formei-me em 2007, aos 71.

Olha o azar, o tema da redação no vestibular era a informática. Fui bem: driblei minha ignorância total no assunto. Comparei a época em que bancos e empresas armazenavam dados em fichário manual com os atuais recursos milagrosos da memória tecnológica. E como esse avanço destravou o andar da carruagem da humanidade. No segundo ano da Faculdade não sabia abrir nem enviar um e-mail. Copiar-colar para mim era grego. Entregava trabalhos datilografados. Os professores me olhavam com cara de choro. Me perguntavam: o que você está fazendo aqui?  Eu me sentia só, abandonado, numa selva misteriosa e escura. Chorava. Me ajuda, meu Deus!

Comprei um 486, aquela simples máquina de escrever, lembram?  E dá-lhe treinar digitação, impressão, arquivar, salvar. Uma aventura era digitar o cedilha de antigamente. Mais adiante, computador melhor, entrava na internet como se estivesse enfrentando um assaltante. Suava no teclado, me assustava, me irritava, me revoltava, me sobressaltava, fugia, pedia ajuda. Ninguém me ajudava. Mete o dedo no teclado, me diziam. Como? Eu não entendia nadinha de nada! Eu me via como um mastodonte diante da pixotada que nasceu sabendo mexer nesse mundo que para mim era maluco-digital. Minha sobrinha bisneta de 3 anos, coisinha querida, pôs os dedinhos lindos no teclado e falou: olha, tio, é assim. Aí eu abri o bico beleza. Me deu ímpetos naquele momento de pôr fogo em todos os computadores do mundo e xingar quem o inventou.

Encarei essa vida malvada. De repente eu sabia usar um computador. Foi de repente, quem entendeu entendeu, quem não entendeu, não entende mais. Fui um dos melhores alunos no jornalismo on line. O querido e rigoroso professor Clóvis Furlanetto da São Judas, fez questão de dizer ao grupo que minha nota passava a ser 10. Um dos trabalhos impensáveis antes foi montar um site. Hoje, século 21, eu escrevo para meia dúzia de sites por aí. Tenho matérias publicadas até na China e na Rússia. Cursei Fotoshop, Page Maker, Windsigner, Dream Weaver, que hoje viraram uma loucura-coisa-só, mas não sei mexer bem nessas doidices por falta de uso. Falta de interesse e de necessidade no uso, isso sim.

Corta para mim: um linguista saberia explicar porque eu resisti tanto a usar a primeira maravilha multimídia do mundo, o celular? E outros milagres que tem por aí? Vou chutar, li em psicologia: você gosta e presta atenção em algo se tiver interesse e necessidade nesse algo. Eu tinha interesse definitivo em fazer a Faculdade. Tinha era paixão. Sem computador, impossível. Reconheço a gigantesca importância, mas não tenho interesse nem necessidade nos celulares e outros milagres. A forçar a vista o tempo todo no hoje minúsculo celular, este hoje velhinho aqui de 80 anos prefere contemplar a Lua, se encantar com o céu estrelado, aspirar o cheiro de mato, jogar conversa fora com quem aparece na minha frente, olhar nos olhos, escrever crônicas que chamo de crônicas porque não sei que outra coisa chamar, respirar fundo, lembrar as 500 namoradas que passaram, ler, ler! Quero ser um humano, não um ser virtual. Com interesse e necessidade, conseguimos, às vezes até aos trancos e barrancos, como no meu caso, prestar atenção, meter na cachola o aprendizado e até sentir prazer em manejar novas ferramentas. O interesse e a necessidade pelo objeto à nossa frente nos faz prestar atenção nele e guardar na memória. Por que vocês acham que lembro o nome e o sobrenome de todas as minhas namoradas?

Autor: Apollo Natali


VOCÊ SABIA?

Lembra aquele telefonema que você deu há 5 anos, da praia, na madrugada enluarada, para tua vovozinha que fazia aniversário? A Agência de Segurança Nacional dos EUA lembra. E sabe até com quem você rolava, abraçado, e em que tipo de areia.

Com o trabalho dessa agência, NSA em inglês, os Estados Unidos interceptam, analisam e armazenam cada comunicação de um cidadão para outro, em todo o mundo, cada telefonema, cada –email, cada patacoada espalhada pelos facebook e demais redes sociais da vida. E mais ainda.

A 40 quilômetros ao norte de Washington, em Fort Meade, Maryland, 30 mil funcionários da NSA interceptam e processam um tsunami de informações captadas das redes mundiais de comunicações digitais, via satélite e de difusão em larga escala. Chama-se “O Palácio do Quebra-cabeça”. Para essa coleta de dados funcionar a NSA conta também com centenas de milhares de contratados terceirizados para funções de Segurança. Adivinhem o que acontece com a vida de um delator.

As informações constantes desse dossiê de cada ser vivente no planeta azul, cidadãos comuns, inocentes, pecadores, políticos, governantes, religiosos, são usadas contra qualquer pessoa que esteja na mira do governo por qualquer motivo, a qualquer hora. A NSA está decidida a tomar conhecimento de todas as conversas e de todas as formas de comportamento no mundo. Há no esquema um Serviço Central de Segurança, especializado na vigilância da China.

Sabe-se que é enorme o número de mortos cujos perfis continuam ativos nas redes sociais. Há uma projeção de que em 2030 haverá mais mortos do que vivos com contas no Facebook. Sosseguem, os mortos continuarão armazenados.

Para quem não leu 1984, de George Orwell, não custa lembrar. Pouco depois do fim da segunda guerra mundial Orwell profetizava que, no futuro não muito distante, um Estado paranóico, em guerra constante e dominado pela obsessão com o terrorismo, poderia recorrer a novas tecnologias para vigiar casa passo de seus súditos. Ninguém teria privacidade. Não haveria onde se esconder. Nenhum lugar para onde fugir. Nenhum lugar onde se pudesse agir naturalmente, nem mesmo uma praia para falar inocentemente com a vovozinha. Orwell nomeou esse Estado paranóico de Big Brother, O Grande Irmão.

Quando li 1984 eu era um rapazola e balancei a cabeça quando Orwell previu que um aparelho de TV do Grande Irmão estaria de olho em todas as residências. Pois a NSA faz isso com os novos aparelhos de TV com internet. Tem um olho na nossa TV nos espionando o tempo todo em nossas salas de visitas, na área de serviço, no banheiro, na cama conjugal. Não adianta desligar a TV. Como em 1984, o olho do Grande Irmão, atual NSA, acompanha também cada cidadão caminhando por uma cidade.

O revelador dessa espionagem global dos EUA, o jovem gênio da informática Edward Snowden, disse a que veio durante entrevista quando morava no aeroporto de Moscou à espera de que algum país lhe desse salvo-conduto. Está morando na Rússia com sua namorada, sempre precisando pedir prorrogação de permanência.

Entre aspas, disse: Fiz o que acreditava ser certo e comecei uma campanha para corrigir esses males. Não agi para enriquecer.  Não fiz pareceria com nenhum governo estrangeiro para garantir minha segurança. Em vez disso, levei o que sabia ao conhecimento público para que o que afeta a todos nós possa ser debatido por todos às claras e pedi justiça ao mundo. Essa decisão moral de falar ao público sobre a espionagem que afeta a todos nós teve um preço alto, mas foi a atitude certa a tomar.

Snowden levou da SNA, em pen drives, milhares de documentos ultrassecretos que revelam varreduras ativas de vigilância doméstica, mesmo em todo os EUA. São ações, as primeiras divulgadas no mundo, as mais invasivas e preocupantes que os metadados de telefonia, considerados somente uma parte ínfima da guerra da NSA contra a privacidade. Metadados: a Agência sabe quem faz cada ligação, de onde, para onde, para quem, quando. 

A aprovação da NSA pelo público americano despencou desde as revelações de Snowden. O governo e os cidadãos de outros países em sua maioria estão se afastando de empresas americanas de tecnologia. Empresas e nações européias preocupadas com a possibilidade de a normalidade corrente da “nuvem” ter sido comprometida pela NSA, estão trabalhando uma “Euronuvem”.

O objetivo da NSA vai muito, muito além dos metadados. Ela quer saber tudo de todo mundo, colher todos os fatos, todas as comunicações sobre todas as pessoas . Esse caso de amor é antigo. O programa de coleta de informações dos envelopes do serviço postal dos EUA já existe há 100 anos. Com novas tecnologias, sua operação de Rastreamento e Controle Isolado de Correspondência-MICT em inglês, hoje escaneia e armazena os 160 bilhões de itens de correspondência enviados pelos americanos a cada ano.

É bem provável que os EUA tenham tirado de circulação o livro Snowden, um herói do nosso tempo, que conta toda a história do surgimento, aventuras e o trabalho chamado de libertário por uns, de espionagem por outros, de Edward Snowden. Eu consegui um “Exemplar de Demonstração”, da editora Martins Fontes. 

É uma história em quadrinhos! Simples, de agradável leitura, recheada de revelações sobre espionagens e ações de força nos entreveros políticos americanos. O autor, Ted Rall, esteve sob vigilância por parte do Departamento de Polícia de Nova Iorque.  

Jornalista, autor de novelas gráficas, cartunista de editoriais do jornal The Los Angeles Times e do AnewDomain-net, colunista do Creators Syndicate, é autor de livros  de comentários e de jornalismo em quadrinhos e em prosa. Um deles sobre o Afeganistão e outro de crítica a Obama, que de esperança e mudança em seus discursos eleitorais, cooptou a espionagem da NSA.

Eis alguns sistemas de coleta de dados de cidadãos em todo o mundo relacionados por Ted Rall, uma fração do supra citado tsunami de informações captadas das redes mundiais de comunicações digitais, via satélite e de difusão em larga escala, a partir do “O Palácio do Quebra-cabeça” de Fort Meade:

Mystic – grava o conteúdo de áudio de chamadas telefônicas em alguns países e em 80% das ligações nos EUA

Prism – recolhe indiscriminadamente todos os dados de usuários em poder das empresas de Internet.  

Echelon – já nos anos 1980 coletava quase todas as comunicações na terra.

Smartphones – rastreia todo mundo numa cidade através dos seus smartphones e de outros dispositivos eletrônicos.   

Trailblazer – posterior ao 11 de Setembro, amealha comunicações pessoais entre americanos.

Thinthread –  programa da NSA semelhante ao Trailblazer com melhores resultados e menor custo.

Stellar Wind - coleta metadados telefônicos de todos os americanos.

Retro – permite que a NSA reproduza ligações feitas até cinco anos atrás.

Blarney, Fairnew, Oakstar, Lithium, Stormbrew – interceptam e armazenam 75% de todo o tráfego na internet nos EUA, como e-mails, mensagens de texto, navegação pela Web, atividade em aplicativos, ligações pelo sistema Voip, movimentação bancária on-line, vídeos.

Autor: Apollo Natali


QUEM É ESSE PADRE?

No Brasil tudo é grande, menos os homens, disse o suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz, naturalista do século 19, em tom de queixa pelo esquecimento e pouca atenção que os compatriotas brasileiros prestavam aos prodigiosos inventos do padre gaúcho Roberto Landell de Moura. Esquecimento e pouca atenção que perduram até hoje. Landell nasceu em Porto Alegre em 1861 e morreu aos 67 anos, em 1928. Chegou a Monsenhor.

De parcos recursos, sem ajuda nem da Igreja nem do Estado nem de empresários, espremido em precários laboratórios ambulantes em suas transferências de paróquias, o padre Landell de Moura inventou o rádio e o telégrafo sem fio antes de Marconi, o telefone com fio, o telefone sem fio. Foi precursor do telex , da TV, da fibra ótica. Descobriu e fotografou a aura que envolve o corpo humano, 32 anos depois batizada pelos russos de efeito Kirlian. Vislumbrou as comunicações interplanetárias.
  
Desvendava a Criação com sua teoria sobre um fluído universal, “elemento sobre o qual atuam os agentes físicos, químicos ou biológicos, dando, sub sua ação, origem ao mineral, ao vegetal e ao animal”.

Landell registrou suas patentes nos Estados Unidos, mas delas nada desfrutou. Suas invenções foram lá surrupiadas. Disse Landell: “Os americanos, decorridos 17 anos de prazo que marca a lei das patentes, puseram em execução prática as minhas teorias”.

Sempre reconhecida no mundo científico, foi dele a primeira transmissão de rádio a longa distância. A operação foi feita de um ponto no bairro de Santana até a Avenida Paulista, em São Paulo. Landell de Moura ficou com o mérito de ter inventado o rádio, Marconi ficou com a glória, diziam os amigos. No fim da vida relutava em falar de suas invenções, ”coisas do passado” e “sobre as quais toda a gente mantém a mais absoluta ignorância”.

A história de Monsenhor Roberto Landell de Moura contada pelo jornalista Hamilton Almeida é a saga do padre gaúcho, herói entre os inventores, que não usufruiu da glória e dos ganhos de que sempre foi merecedor (Padre Landell de Moura, um herói sem glória - Editora Record).

Com pouco mais de 30 anos Landell começou entre 1893 e1894, antes de Marconi, suas experiências pioneiras de transmissão de voz a distância sem fios condutores. Suas numerosas invenções e a solitária batalha que travou para brindar a humanidade com gigantes passos rumo ao progresso nos fazem meditar que ele não é um inventor sem glória, e sim que o Brasil é um país sem glória. Uma petição corre por iniciativa de jornalistas paulistas para incluir a vida e a obra do padre gaúcho na grade curricular das escolas.Verdadeiramente sem glória são os governantes do Brasil chamado varonil, necessitados de uma petição para despertarem dessa secular e desalentadora omissão.

Não recebeu apoio nenhum do governo brasileiro. O presidente Rodrigues Alves não levou a sério sua solicitação de 1904 para uma experiência de transmissão de voz entre dois navios da Marinha, distantes um do outro a partir da Baia de Guanabara. O presidente não deu ouvidos aos sons e vozes que Landell de Moura há muito transmitia pelos ares. Preferiu importar tecnologia estrangeira, caríssima e prejudicada por falhas.

Acusado de bruxaria, foi ameaçado de excomunhão pela Igreja. Alguns consideravam seus feitos coisas do diabo. Nesse clima, uma multidão destruiu seu laboratório e seus aparelhos em Campinas, onde foi pároco. Nos Estados Unidos foi proibido de rezar missa. Declaração de Landell ao New York Herald, em 1902: “Todos os meus amigos de educação e inteligência, dentro ou fora das ordens santas, olhavam as minhas teorias como contrarias à ciência”.  
  
Em meio a um universo de descrições técnicas sobre inventos, compreensíveis aos homens de ciência, Hamilton Almeida faz correr um rio de curiosidades que podem interessar ao público em geral.

Bomba, bomba!!!

Marconi não acendeu as luzes do Cristo Redentor, em 1931. Seu gênio falhou por azares meteorológicos. Técnicos improvisaram e salvaram a festa. Página 180 do livro.

O Imperador D.Pedro II tinha telefone no seu palácio. No Brasil ainda escravagista já prosperava a telefonia!

Antes de Marconi, o padre Landell de Moura apresentou em São Paulo seus inventos ao cônsul inglês Percy Lupton. Este era o tio de Charles Miller, introdutor do futebol no Brasil em 1895 e um dos fundadores do São Paulo Athletic Club, hoje Clube Atlético São Paulo.

Landell sempre foi devoto de Nossa Senhora Aparecida, mesmo antes de ter sido proclamada a Padroeira do Brasil em 1928. Vidente, pesquisou o espiritismo, a telepatia, a visão à distância. Hipnólogo, fazia as pessoas dormir e realizava curas por meio da sugestão. Realizou longas seções de exorcismo em Mogi das Cruzes. Foi forçado a largar a paróquia porque suas ações davam credibilidade ao espiritismo.

Com pneumonia, tempo gelado, deu seu agasalho a um indigente. Também cedeu a um mendigo seus sapatos novos e voltou a calçar os velhos. Na área ao redor da igreja do Rosário, em Porto Alegre, reunia as prostituas para catequizá-las. Uma ocasião se desvencilhou da batina e saiu no soco com dois indivíduos. Dormia numa taboa tosca.  

Fazia as mulheres ficarem mais em casa do que na igreja para cuidarem melhor de seus maridos e filhos. Dizia que a Igreja tem muita coisa errada. Achava que os padres deveriam se casar, “pois são homens como os outros”. Publicou 1.000 exemplares de uma carta de sábios antigos que falava da neurose dos dirigentes, das paixões, dos estigmas e taras da família.

A respeito da mulher, poetou: “Mulher, quem és tu? És porventura, espírito ou matéria? És um anjo exaltado ou decaido? Mulher, quem tu és? És uma realidade tangível ou uma visão etérea? És a luz a quem eu busco ou as trevas das quais eu fujo? És a vida ou a morte? És a nossa consolação ou a nossa ruína e perdição no tempo e na eternidade?”.

Levava sempre consigo uma caixinha falante. A caixinha falava em italiano. Diziam que se comunicava com Marconi. Interrompeu uma missa para atender a um chamado de sua caixinha e anunciou o fato que os jornais confirmariam três dias depois: “ontem, à meia noite, estourou uma revolução na Itália de empregados que querem aumento de salários”. Os coroinhas em Mogi das Cruzes mexiam na caixinha em seu quarto e Landell explodiu: o que vocês estão reinando aí? Vocês estão falando com Marconi!  

Alguns inventos de Landell de Moura, relatadas por Hamilton Almeida:

Telauxiofono, a última palavra sobre telefonia com fio. Transmite a palavra com clareza e resolve o problema da telefonia ilimitada. Caleofono, em vez de tocar a campainha para chamar, faz ouvir som instrumental. Anematofono, telefone sem fio que torna a telefonia nítida e segura, mesmo com intempéries. Teletiton, espécie de telegrafia fonética sem fio em que os interlocutores se comunicam sem serem ouvidos por outros. Edifono, depura o som, aparelho inseparável dos músicos, compositores e oradores. Gouradphone, transmissão de voz sem fio, sem intervenção de microfone, sem aparelho de recepção, num raio em que os ouvintes são capazes de escutar a mensagem simplesmente com os seus órgãos naturais. “E qual a distância que se pode alcançar? – perguntaram-lhe. “Praticamente o infinito”.

Autor: Apollo Natali


A FLOR E O PASSARINHO

Tem uma florzinha roxinha meio azulada grudada no chão do meu portão. Chove e ela está toda encolhidinha. Assim que o Sol der uma espiadela no pedaço, ela vai se espreguiçar, sorrir, se abrir. É rasteira mas é só se achegar a um pedacinho de parede e ela se estica toda, e vai se agarrando, e vai subindo. No chão e na parede mãos invisíveis espalham tinta de cores mil e está pronta a pintura da flor que faz trepidar o coração. Ela olha para mim, olhinhos brilhantes, a menina feliz. Só falta falar.

Mas ela fala! Está me dizendo agora mesmo que eu posso sentir Deus só de olhar para ela. Encoste em mim a palma da tua mão, numa concha, faz carinho, diz ela, gargalhando gostosamente, você vai se arrepiar com a mensagem que vem lá do céu através de mim.

Eis senão quando, caminhando sobre a flor chega um pardal, atravessa o portão e alcança a porta da frente. Percorre a sala, sobe a escada encurvada rumo aos quartos de cima, olha, espia, volta saltitando, engraçadinho, pelos degraus. Que confiança é essa, menina? Sim, porque é uma passarinha mãezinha que recolhe migalhas de pão no chão e deposita no bico do filhote. Sim, porque ela trouxe o filho para comer e passear pela minha casa. A pequenina menina e seu filhote aparecem por lá de manhã e à tarde. Quando vão embora nem olham para trás. Nem dizem até logo. Sem se despedir, me deixam o peito apertado. Mas eles voltam amanhã, eu os espero, a minha casa está aberta para eles todas as manhãs e todas as tardes.

A flor que se fecha com a chuva, se abre com o Sol, e gargalha com sua boquinha lindamente roxinha-azulada-princesinha, me diz, triste, que ela não vai estar lá por toda a vida. Suspira e profetiza que um dia qualquer aquela pintura de Deus abandona o portão, a parede velha, a flor, e vai embora para sempre. O pardal mãezinha também me avisa que a vida dos pássaros é breve e logo ela e seu filhinho não vão voltar mais.

Florzinha, pardalzinho, ouçam, eu também entro e saio da minha casa todo santo dia, e vai chegar um momento em que vou entrar e não vou voltar mais. A mando de um poder maior, chega também para mim o tempo de ir embora. Saio carregado por quatro mãos agarradas àquelas alças douradas, sagradas, que sustentam corpos sem vida
.

Mas não vai terminar nunca a festa de cores e de vida intensa na companhia desses meus amiguinhos. Quando eles voltarem amanhã e tornarem a encher de alegria meu velho coração, vou correndo fazer um pedido aos dois. Para que supliquem ao poder maior me deixar encontrar com eles no outro lado da vida, em algum portão, alguma parede velha aconchegando uma flor roxinha-azulada-princesinha , alguma escada encurvada para mamãe passarinho subir.

Autor: Apollo Natali


TRIÂNGULO

Ela é uma mulher madura, de pele fresca. Ela está amparada em você. Tem a doçura da mulher de cabelos castanhos. Você nunca a viu, mas a conhece. Ela aquece o teu coração e provoca a vertigem da paixão não correspondida. Ela está fugindo de alguém que a persegue. Ela sabe que vai ser morta. Está satisfeita com o destino. Você concorda. Você não pode parar o vento gelado e o barulho do mar nem dissipar a escuridão da madrugada, que é cúmplice dos que a perseguem.

Ela não explica, mas você entende. Ela não fala, mas você ouve. Vocês se compreendem sem trocar palavras. Ela teve um grande amor. A primeira tentativa não foi amor. Não há receita de amor para se acertar na primeira tentativa. Ninguém a condena, nem você, nem ela mesma.

Ela ergue a cabeça e apregoa o seu amor. Não é uma mulher arrependida. Você tem raiva da segunda tentativa dela, mas concorda, com ciúme, que a natureza daquela mulher não é pecaminosa. Você a vê correndo em direção ao mar, etérea, cabelos esvoaçantes. Sabe que ela vai morrer.

Você se assusta ao ver o homem e o menino surgirem à sua frente. Eles vieram correndo. Você está ajoelhado na areia e ela está em seus braços. Imóvel, rígida, fria, morta. Com o homem e o menino você não troca palavras. Só se ouve o barulho do mar. Você constata por misterioso intercâmbio de pensamento, você sente vergonha, que você foi o primeiro amor dela. A segunda tentativa é o homem à sua frente. O menino é filho deles.

Você constata que a segunda tentativa é que foi um grande amor. Você tem
ciúme. Constata que a matou. O olhar do homem é duro, o olhar do menino é duro, a praia é fria, o mar faz barulho, você quer abraçá-la, no seu peito só há paixão, você constata que a matou.

Você acorda num salto na sua cama, pedindo perdão, chorando. Você constata que um pesadelo é fonte incrível para uma historinha.

Autor: Apóllo Natali


DESAJUSTE

É preciso uma boa razão para se contar uma história. Há ocasiões em que não vejo razão nenhuma para se contar história nenhuma. Mas trata-se de um amigo. Dos melhores, mais antigos e sofridos. Trata-se de um amigo. Eis a boa razão desta história

E nem tenho muito a dizer sobre ele e sua mulher. Eles é que viveram sob o mesmo teto. Quando um casal vai dormir, fecha a porta. Só usando a imaginação posso compor esta novela. Unindo os poucos pedaços de sua vida íntima que me foram dados a conhecer posso arriscar a dizer que ele muito amou e pouco foi amado. Talvez nem tenha mesmo muito amado e pouco amado.

Ingênuo é aquele que suspira por um amor duradouro neste fim dos tempos, em que a mulher é julgada sob o ângulo absolutamente sexual, vista como um objeto de uso passageiro, usada e jogada fora. Mas vocês sabem, o amor existe, é bonito, tão bom, embora tenha alcançado tão alto índice de mortalidade. Falo a quem tem coração e sei que sou compreendido.

De mais a mais, era no tempo de São Paulo antiga, antes da chegada do total do cinismo e da perversão ao mundo. E tinha o balcão no velho sobrado, a varanda, e meu amigo usava colarinho engomado, palheta, cabelo esticado e bigode enrolado para cima. E havia os cabriolés para lá e para cá, lentos, como uma pintura de carroussel encantado, a transportar damas de bustos enormes, vestidas de negro, olhares parados. Por toda parte, corações amantes.

E ele cantava. Em festas íntimas, na rua, no trabalho. Quando me diziam que chegava do serviço à tardinha, e saltando e rindo improvisava uma rápida e movimentada serenata para a sua velha mãe à janela, permito-me acreditar que era afetuoso e sentimental e que passava pela vida manso e tímido. E ele cantava: acorda, amada minha, que o ar é doce...

O herói desta aventura era gerente de uma grande indústria. Eu, ainda criança, fui dar um recado em sua casa. Um misterioso sentido extra que tenho desde pequeno e que todo mundo tem, de sentir mentalmente os problemas alheios sem que me contem, e que me confundiu imensamente na adolescência e juventude, me revelou, quando nossas atmosferas individuais se entrecruzaram, que a vida dele era correr atrás daquela que eu tenho de chamar de heroína deste drama. Poucas vezes a via e pouco continuei a vê-la, com o passar dos anos.

Morena daquelas de se ver em antigos medalhões com correntinha, tinha densos cabelos pretos, cacheados, olhos escuros de jaboticaba, magra. Era bonita, mas preferia não tê-la achado feia. Seu rosto era uma máscara, não um semblante. Algum sentimento contrário á perfeita natureza humana a possuía. Os belos traços de seu rosto escondiam a dureza de expressão que caracteriza a raça humana. Tinha de ser uma boa moça, porque creio que o sofrimento sempre aformoseia a alma.

Ouvi dizer que nosso herói chorava, escondido. E que nossa heroína era sempre calada, tanto quando mexia o arroz, bordava ou ia ao teatro. Parecia estar sempre pronta para uma guerra. O ressentimento é um vírus de difícil destruição, uma força da natureza, atuante, com poder de destruir sorrisos. Moravam numa rua pequena, toda de sobrados dos dois lados, brancos e limpos. Quem olhasse para aqueles ninhos de amor todos iguais não diria que a felicidade é apenas uma ficção.

Nosso herói ia regularmente pescar com os amigos. Diziam que levavam mulheres para o rancho à beira do rio. Quem sabe a verdade. Ninguém consegue jamais traçar a sorte de um malvado com tanta eloqüência do que a língua do povo.

Ele se vestia impecavelmente. Era um homem formidável para as mulheres que adoram passar a vida ao lado de um boneco perfumado. Imagino mesmo que se perfumava até para ir pescar. Vejo-o de pé no barranco perto da correnteza, um gigante de bigode fino de artista, cuidando para não molhar a roupa e, assim, jogar a isca e esperar o peixe, tomado de uma imensa compaixão por aquele que mordesse o anzol. O pensamento na morena do medalhão. Na boca do povo, possuía tudo, menos um bom coração.

Regime de separação de corpos. Quando jovem, essa espécie de sentença condenatória para um pai e uma mãe, soou-me com um sortilégio em relação ao meu amigo. Quem faz, paga. Os boatos eram silenciosos. Na minha excitada imaginação juvenil, em plena idade das paixões, os dois amantes me pareciam dois prisioneiros de velha escuna, velas esfarrapadas, perdida em nevoeiro, solitária, água fria com espuma batendo no casco imundo de suas vidas. Tal era a minha imaginação.

O moço bem vestido de bigode fino nunca disse de viva voz o que o amargurava. Parecia preparar terreno para, quando chegasse a hora da verdade, dizer que aquele que dá conselhos é melhor ouvido quando pode provar que suportou mais e suportou sem se queixar. Já naquela época de compridas cartolas empinadas nas cabeças dos homens, os complexos da adolescência me faziam aceitar a filosofia do tempo das cavernas, de que a mulher que se ama, que diabo, não se pede, se toma. Um homem assim é um fraco, aprendi depois.

Cena: a morena caminha pela casa, em silêncio. Indiferente, cruza com ele. Ele a segue com o olhar, o peito fechado. Meu Deus, que momento esse. A esperança é a única amiga dos que vivem em torturas prolongadas, sem viver nem morrer. Por parte dos dois, poderia haver quem sabe, como dizia o povo, os pecadinhos cometidos às ocultas, que a moral humana admite sorrindo. Relações extraconjugais, talvez, como se diz delicadamente.

O que ouso dizer é que não existe dor que não se possa suportar e que é horrível a visão constante daqueles a quem fizemos o mal. Se o boneco chorava, lágrimas lavam faltas. Se a morena de cachos negros era ressentida digo o que ouvi dizer, que é horrível tudo se dever a quem se detesta. Eu queria ouvir de viva voz o que aquele pecador tinha a dizer. Paralizado de tristeza, porque para mim o desajuste de casais é a areia movediça da vida, falei, de modo até um pouco provocativo: o casamento e uma droga, não?

Seu sorriso me contou que ele se sentiu feliz por eu ter lhe dirigido essa pergunta. Respondeu, sério, que o casamento, entre os muitos caminhos deste mundo, é o mais iluminado. Amo minha mulher e meus filhos, disse. Caminhos escuros são ter filhos desconhecidos, abandonar as crianças, viver em promiscuidade, apanhar doença, gastar dinheiro naquilo que não é pão, usar a saúde, a energia e o amor fora de casa. O homem é mais sensível ao mal do que ao bem e isso explica minha surpresa.

O tempo passando, ele firme na gerência da grande indústria, morando na mesma rua de pequenas casas brancas iguais e de corações amantes em todos os cantos, em festas, pescando, namorando a arredia esposa. Nunca cheguei a nenhuma conclusão sobre o tipo de ligação enraizada que os unia. Principalmente quando me contam o que aconteceu no hospital quando ele foi internado.

Ele perguntou aos filhos porque ela não tinha ido vê-lo. Olhos parados, fixos no teto, disse molemente que a vida não valia a pena. Quando foi encontrado morto, sem os esparadrapos nos pulsos, os tubos de soro soltos, os medicamentos espalhados e ele no chão, a enfermeira garantiu que ninguém tinha entrado no quarto.

Esta historinha poderia muito bem terminar por aqui. Não pode. Somos todos levados a pelo menos imaginar o que aconteceu. Não temos a fórmula da verdade, mas podemos supor que no momento mais amargo do abandono, como um cão batido, sem a misericórdia da atenção de quem amava, ele tenha decidido.

O gesto, então, foi cego e brusco. Num ímpeto de dolorosa amargura, deve ter arrancado os esparadrapos e os fios de soro, espalhando os remédios loucamente. Tentando se erguer e correr, pode ter caído. Depois, esperou. A morte é pontual. Ela chegou. Como um pesadelo que dura apenas o tempo de se dar um suspiro.

Ainda a solidariedade que deve existir entre todos os seres, não permite terminar este caso aqui. Um jogral de muitas vozes se insinua a recitar versos que falam de fugidias dúvidas. À beira do túmulo, podemos supor que aquele que o povo julga malvado esteja no inferno. Não esse inferno tradicional, que tem por toda a parte caldeiras ferventes, cujas tampas disciplinados auxiliares do diabo erguem de vez em quando para gozar com as contorções dos condenados. E Deus, insensível e mudo, convivendo democraticamente  com esses engenhosos adversários divinos de curiosa profissão liberal no Universo. E ouvindo sem piedade os propalados gemidos por toda a eternidade, porque os condenados desse inferno vivem, e vivem para sempre. Não acredito num inferno como esse.

Imaginemos então que o moço abatido por uma perdida paixão esteja no inferno dos pagãos, mais racional, que reza que o homem é o filho de suas próprias obras. Trazemos dentro de nós o nosso céu e o nosso inferno. O culpado é punido pela própria falta. Somos nossos próprios juízes e é por nossa decisão que colocamos um paradeiro nas nossas torturas. O inferno é um modo de ser.  Nesse inferno, dizem, a recordação equivale à realidade. O culpado aplica o castigo a si mesmo até aprender que o céu é a indulgência em todas as ações na Terra. Os que sofrem por nossa causa vão para o céu.

A ainda não é o momento de parar de imaginar. Tudo pode acontecer no reino da imaginação. Por exemplo, conta o poeta, e faço minhas as suas palavras, que para esse inferno racional onde talvez esteja o meu amigo, foi mandado um rei, cujo tormento único era se lamentar por ter inventado cada dia novos prazeres para tornar sua vida mais deliciosa. Era, então, jovem e robusto.

Mas oh, desgraça! Embora muito ainda lhe restava para gozar sobre o trono, uma mulher que amou e que não o quis, logo lhe fez sentir que ele não era nenhum deus. Ela o envenenou. Pomposamente, suas cinzas foram guardadas numa urna dourada. Ela chora,  arrancando os cabelos. Arrependida, porque toda mulher, no fundo, no fundo, se arrepende por desprezar um grande amor, é meu modo de pensar, ameaçou se atirar nas chamas em que o incineravam, para morrer com ele. E ainda hoje é vista a  chorar aos pés da urna dourada em que lançaram suas cinzas. Ela o envenenou e hoje ele nada mais é.

Autor:  Apóllo Natali


A NOIVA

Chegue bem perto do berçário dessa maternidade. Estique a vista. É menina! A pele toda cor de rosa choque, quase vermelhinha. Lembra uma pitanga. Chamou-se Aline e agora ela já é noiva. Aluguei traje a rigor para ir ao seu casamento. Foi numa capela bem no alto da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. A uma capela se chega por uma vereda encantada e assim cheguei lá. Todos conhecem e amam o padre Navarro, da Capela Santo Cristo dos Milagres. Ele dá um banho de amor nos noivos, nos pais, nos padrinhos, nos fiéis, até chegar ao sim, aceito. Foge de aplausos, parabéns, elogios. No fim da cerimônia escapa pelos fundos. Não dá tempo de agarrá-lo para um abraço, um agradecimento. Todo mundo quer casar em sua igrejinha. Há listas de espera dos noivos e demora anos para chegar a vez.

Não encontrei um título perfeito para estes apontamentos vários que enfeixam esta historinha de amor, feita de momentos que não posso deixar de lembrar. Para quem quer um título, ele poderia ser A Noiva. Na montagem do tempo que passou, tenho comigo todos os momentos de Aline. A primeira choradeirinha. Os primeiros passos. A menininha. A mocinha. A mulher. Os olhares apaixonados trocados com o noivo que veio arrancá-la de nós. Bom menino, o Gabriel. A vida sequestra nossos filhos. Leva embora. A gente pisca e eles já estão adultos. No caso, a gente que pisca é o Dr. Gustavo, psiquiatra, pai de Gabriel, sua esposa, com um belo nome de ópera, Martha, e os pais de Aline, Elizabeth e Moacir. Há tempos mostrei ao Dr. Gustavo como fazer vinho caseiro, tinto, rosado, branco.

No convite está escrito: ao padrinho. Que sou eu! Batizei Aline na igreja São José do Maranhão, no Tatuapé, em São Paulo. O padre falou então sobre o mais antigo dos noivos, Adão e Eva. Para buscar o traje para o casamento na loja SóàRigor, caminhei seis quilômetros, três de ida, três de volta na Avenida Rebouças, trânsito parado dos dois lados. Ida e volta de São Paulo ao Rio, total de doze horas de viagem em ônibus à temperatura de 17 graus do ar condicionado. Neste nosso país tropical, 30 graus lá fora, precisei viajar com gorro de lã. Bendita viagem, bendita caminhada na Rebouças, aos 77 anos de idade. Nunca soube me vestir bem, mas agora eu vou é arrumadinho ao casamento da minha menininha pitanga. Em meio à manada louca de veículos, me ponho a rabiscar algumas lembranças de quando ela começou a engatinhar. Quero pegá-la no colo e ela foge ligeirinha, se arrasta aflitinha, de pijaminho, com gritinhos, para dentro dos móveis. Olha aquela carinha, ainda um pouco cor de rosa, no meu coração para sempre. Quando mamava, passava por cima da mãe para o lado direito, o esquerdo, para lá, para cá, o seio sempre esticado, preso à sua boquinha.

Desfilam rumo ao altar os pais, os padrinhos, puxa a procissão a linda menininha moreninha Karen, com as alianças. Do quarteto de músicos do mesanino, ao fundo da capela, ressoam músicas medievais. Depois, a arrepiante ária da quarta corda, de Bach. E a imponente Marcha Nupcial, e lá vem ela, a Aline, entrando na igrejinha de 10 bancos de cada lado. Como uma aparição, a flutuar entre os bancos sagrados, também desfila a Aline menininha dos meus tempos, a minha Aline, meu Deus, a me sufocar naquele Alto da Boa Vista, com as lembranças das quedas no skate, na bicicleta, as idas à escolinha, a volta a pé de todo o quarteirão do Parque do Piqueri com ela no cangote. Ela no cangote na fila do cinema para assistir He Man. Quero te levar de cavalinho para o altar, brinquei. Ela falou que se eu aguentasse, pode ser. Sou velho, não sou o He Man, mas sou forte. Aguento. Não aguento, choro um choro quase soluços. E daí? Sou tio-avô da Aline. Obrigado que o tio veio ao meu casamento. Aline querida, o tio não perderia essa por nada neste mundo. Se o tio não viesse, o tio não ia respirar mais.
No cangote levei Aline passear no clube dos médicos, na Serra da Cantareira, em São Paulo. Como um anjinho, toda de branco, passa por debaixo dos enormes cavalos, que a olham enternecidamente de um lado para outro. No cangote levei Aline para ver jogo no Maracanã, assim a levava à pré-escola no Tatuapé, e para tomar injeção às vezes. Uma ocasião levei para sua casa balões coloridos de festa de aniversário. A gargalhadinha de felicidade, no meu colo, daquela bebezinha de menos de um ano de idade, da então bem pequenininha Aline, deu uma esmagadinha no meu coração, apertou. Até ela se mudar para Vitória e de lá para o Rio, aos 8 anos, eu passava pela casa dela todos os dias, a manhã inteira, rumo ao trabalho. Me esperavam, Aline e o irmãozinho Yuri. Cada dia, me recebiam como em uma festa. Levaram um pedaço de mim que nunca mais tive de volta. O perfume da dama da noite do jardim me estufa o peito a vida inteira.

Aline está entrando na capela, dia 14 de setembro de 2013. Não entendo de vestido de noiva. O dela gostei porque não tem estofamentos nem cauda exagerados. Caminha de braço com o pai, o Moacir. Entro em pânico. Falei meu Deus, me ajuda. Conversa com Deus que Ele ajuda, dizia minha mãe. O meu berreiro pertinho do altar tomara que não tenha saído nas fotos. Aline é uma noiva deslumbrante. O irmão dela, o Yuri, é aquele padrinho ao lado do altar com o rosto encharcado de lágrimas e também o menininho das fotos no final destas minhas anotações. Meu pensamento sai da capela e dispara para São Paulo. Aline e Yuri estão a passeio na minha Belina. Cruzamos a ponte sobre o rio Tietê, os dois gritando em tom de brincadeira tio-sai-do-rio, tio-sai-do-rio, tio-sai-do-rio.

Saio do rio e já estou de volta à capela. Com o padre Navarro não tem ritual. Quer, persiste, insiste, em falar para a alma dos noivos, para o coração de todos, sobre a importância do amor em nossas vidas. Segura as mãos de Aline e Gabriel, abração neles, perguntas e mais perguntas a garimpar preciosidades de sinceridade e de amor que trazem de suas vidas para aquela grandiosa união. Grande padre Navarro. Se ele unisse em sua capela todos os casais da Terra, o mundo seria melhor. Divertido, um pouco irônico e parece até que meio desconfiado, se dirige aos pais e pergunta se cuidaram mesmo dos filhos noivos, se não os abandonaram alguma vez. Percebem como ele torna emocionante um casamento?

E o teu casamento, minha Aline, que lindo! A decoradora da Lumier Eventos, Arminda Antunes, e a cerimonialista Tamis Thierry, parece que adivinham o que queremos para a tua festa. As meninas e os meninos que atendem e servem, umas jóias de simpatia e sorrisos. São como parentes dos noivos e convidados! Bravo!

Ouçam esta: no fim da cerimônia, procurei a noiva, porque quis procurar a noiva, porque eu quero abraçar a noiva, porque eu vou abraçar essa noiva agora! Eu estava nos primeiros bancos e precisei esperar a lenta saída de todos. Afundei no salão de festas, nada de noiva. Você é o tio Apóllo? Estão te chamando para tirar fotos. No espaço gramado, luzes de máquinas e filmadoras iluminam Aline e Gabriel. Parti para cima. Não pode, disse-me uma menina, acho que a gentil e prestativa cerimonialista Tamis Therry. Posso, sim, como não, disse eu, decidido. Riram. Abracei a Aline, entrei em transe de choro, consegui dizer Jesus te abençoe hoje e sempre. Fixei os olhos e o coração naquele rostinho amado que povoa meus dias na Terra. Sou um violino e a voz dela vai dedilhando as cordas do meu ser, executando melodias. Foi ela mesma, a noiva, naquele momento para mim divino, que me ofertou o grande presente da minha vida. Cochichou-me ao ouvido: meu paizão. Quem agüenta? Dá-lhe choro.

São médicos os pais de Aline, a Dra. Elizabeth e o Dr. Moacir. Sempre enfiados em hospitais, médicos têm pouco tempo para os filhos. Paizão, eu? Lembranças me fazem ver desfilar no chão colorido da capela um publicitário que, com sua propaganda do Gelol, fez mais em favor da paternidade responsável neste mundo do que todas as Bíblias juntas, todos os profetas, todos os psicólogos, todas as varas da família, todos os tribunais, todas as palestras, todos os sermões. Pais deste planeta Terra, guardem essa mágica propaganda eternamente em seus corações: Não basta ser pai, é preciso participar. (Bravo!).

Nunca tinha visto uma noiva nos brindar com tão alegre espetáculo numa festa de casamento. Como os noivos também são médicos, portanto foi uma Dra. Aline que dançou rock pesado com um Dr. Gabriel! O DJ Gabriel, como é fácil notar, tem o mesmo nome do noivo, tocou a música que fala ela não anda, ela desfila, e não é que ela desfilou mesmo? Delicadamente feminina, como uma competente modelo. Os volteios do vestido de noiva desenham figuras nunca vistas! Gabriel, o noivo, que já tinha tomado algumas, se desvencilha dos convidados, vem me abraçar, beija minha mão, fala eu sei que você é o segundo pai da Aline, eu sei.

Meu pensamento é uma peteca, para lá, para cá, veloz. Numa espalmada forte para São Paulo revi a cena dos pais dela, Elizabeth e Moacir, quando foram buscar o CRM. Aline tinha 7 meses. O leite materno vazava. Peguei a bebezinha no colo e saí da sala. Funcionárias fizeram uma roda. Aline se solta dos meus braços e sai correndo. Nossa, ela anda! – gritaram. Anda não, corre! Ela corre! Deu uma guinada no fim do corredor e desapareceu fazendo a curva saltitando só com o pezinho direito. A avó da Aline, a Ziza, andou com 6 meses. Meu pensamento de peteca está de volta para a Aline, ainda com 7 meses, vestidinho branco desarranjado pelo vento, cabelinhos loirinhos esvoaçantes, correndo entre as flores do jardim da Igreja São José do Maranhão. Que pintura de cena! Teve até público. As moças paravam para ver e rir.

Querem ver como o padre Navarro é só amor? Conclama aos casais e famílias a se amarem verdadeiramente. E se valeu das palavras do Apóstolo Paulo, o fim da picada para se saber o que é o amor verdadeiro, o amor em todas as suas manifestações, e exortou a todos a beijar cada dia de nossas vidas essa parte da Bíblia, I Corinthios, capítulo 13, versículos de 1 a 8, pelo menos na minha Bíblia traduzida pelo padre João Ferreira de Almeida. Portanto, o casamento da minha Aline com Gabriel foi abençoado com as eternas palavras de amor do Apóstolo Paulo, recitadas religiosamente pelo padre Navarro. Prestem atenção:

E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba.

Aline me pergunta: o tio vai gostar da minha filhinha como gosta de mim? Aline querida, Deus vai me dar 100 anos de vida para eu poder escrever a historinha do noivado e casamento da tua filhinha. O velho Anísio, avô do teu pai, era negro. Por causa dessa história de DNA, tua filhinha pode nascer escurinha. (Aline está cansada de ouvir de mim que a mulher da minha vida era escurinha. O padre Navarro nunca poderia nos casar, porque não deu noiva, ela não me quis). Aline, vou começar a escrever assim a história da tua filhinha: chegue bem perto do berçário dessa maternidade. Estique a vista. É menina! Toda escurinha., lembra um chocolatinho. Chamou-se Isabela. Agora ela é noiva. Vai casar na capela do Padre Navarro. A capela do Santo Cristo dos Milagres está lá, toda colorida, esperando por ela. Toda vez que eu olhar para a tua filhinha escurinha, ou não, vou chorar de tanto que a amo, como sempre chorei e ainda choro quando olho para você, de tanto que este teu tio Apóllo te ama, Aline. A mesma coisa se for menino, chocolatinho ou não.

Autor:  Apóllo Natali


ENTRE A TERRA E O CÉU

Saudade do Lenildo. Da minha mesa na redação do Jornal da Tarde eu o via de costas, encurvado sobre a velha Olivetti. Grandão, chega para o trabalho com passos curtos, lentos. Cumprimenta com a cabeça os mais próximos. Deixa o trabalho com passos lentos, curtos. Lenildo é um cara bom. Fala cordial, olhar manso. Um cara bom.

Corria como lenda: a especialidade do Lenildo era escrever sobre Vaticano e aviação. Construiu seu próprio avião. Dava carona para colegas em suas escapadas para o lar, em Pernambuco. Foi seminarista. Fazia visitas ao Vaticano. Ar de santo, imagino que nem o anunciavam para o Papa. Era chegar, girar a maçaneta, entrar no aposento do Sumo Pontífice e puxar conversa com o velho amigo.

No ano de Nosso Senhor de 1990, em junho, eu já não era jornalista do grupo Estado. Carregava a tristeza de explicar aos amigos porque me demitia, depois de mais de três décadas de trabalho somando Rádio Eldorado, Estadão, Jornal da Tarde e Agência Estado. Fui cuidar em tempo integral de meu velho pai por sete anos, até sua morte. Perdera a mobilidade e a visão. No ultimo dia na Agência Estado, a maior parte da minha vida já vivida, cruzei a catraca de saída do prédio, dor no peito, para nunca mais voltar.  Lá atrás, andar embaralhado de gente corpulenta, Lenildo grita:

- Apóllo! Pode ser uma carona até a Estação do Metrô Barra Funda?
- Meu velho Lenildo, hoje eu não vim de carro. Sinto muito.
Coração em frangalhos, parece que contraí uma dívida com ele.                     
- Não faz mal, vamos conversando no ônibus do Estadão.
Em meio aos vinte minutos até a Barra Funda, ele pergunta: você é espírita? Recebe espíritos?

Um católico bom como ele, com trânsito livre no Vaticano, bem que merecia uma resposta teológica consistente. Respondi apenas que me considero espírita porque acho que quando nosso corpo morre, nosso espírito continua vivendo em algum lugar por aí, não me pergunte onde nem como. Por que a pergunta?

- Há um capítulo sobre você no livro Além do Normal, do nosso colega Fernando Portella.

Em uma das histórias sobrenaturais de seu livro-reportagem, Portella descreve  fenômenos que acontecem comigo. Saio do meu corpo às vezes ao meio dia, às vezes à noite, no serviço ou em casa e volto em alguns segundos. Tempo suficiente, por exemplo, para sobrevoar a cidade da antiga namorada no interior, deslizar devagar pelo céu , eu lá em cima, sentado num tapete mágico invisível. O grande lago, as montanhas, lá embaixo.

Não é sonho, não é delírio, é real, é dia claro. O telhado da casa dela, contemplado lá do céu. Vista aérea da videira, cercada como numa emboscada pelos cômodos enfileirados do pátio quadrado. Sentado com as pernas cruzadas no tapete, volto rápido para o meu corpo, pelo céu.

Já em terra, sinto ainda o chuvisco que me molhou e o gostoso mormaço de lá. Ainda ouço aqui no meu quarto os estrondos dos trovões que de longe anunciaram chuva nas montanhas. Tudo em alguns segundos. Não provoco, é espontâneo, não posso resistir, inevitável, como ter de ir ao banheiro. Não fumo, não bebo, em tempo algum me droguei. Se pudesse, faria acontecer todo dia, mas não depende da minha vontade. Acontece. Não precisei de avião para ir à Itália e à Inglaterra, em alguns de meus vôos. Cada vôo, cada aterrissagem do meu espírito de volta ao meu corpo é uma história, uma revelação.

Algumas vezes um vôo é um aviso para me proteger. Numa dessas decolagens vi uma jamanta perder o controle e atravessar a Avenida Marginal na frente do meu carro. Dias depois, rumo ao Estadão, reduzi a velocidade nem sei por que, perto da ponte da Vila Maria. Uma jamanta atravessou a Marginal, o tanque de combustível vazou como uma torneira, me aproximei devagar, não bati.

Estou voando gostoso, sentado no meu tapete, dia ensolarado, sobre a estância climática da minha índia civilizada, perto de São Paulo. Vejo na beira do lago um sujeito que nunca havia conhecido em terra. Lá no ar, a descoberta de que era ele que andava com ela quando eu me ausentava.

A traição, ainda não sabia com quem, eu já havia constatado em vôo anterior. Anotei a placa do seu jipe Willys marrom, soube seu nome, no que trabalhava, marquei sua fisionomia. Era o Zé do Pó. Distribuía café em pó pela cidade. Falou que andava com ela fazia tempo, desde muito nova. Minha namorada, minha paixão, arregalou seus olhos negros com o que contei na ocasião. Descobri num vôo recente que o Zé do Pó morreu. Eu nas núvens, sentado no tapete, paradinho, lá no alto, olhando o enterro dele lá embaixo, no pequeno cemitério. Num outro vôo conversei com um policial da delegacia da cidade no banco da praça da Matriz, à noite. Ele também cobiçava minha namorada cor de bronze. Isto fiquei sabendo antes, num vôo em noite estrelada. O que esbarrei em estrelas, voando sobre aquelas montanhas. Em terra nunca conheci o policial pessoalmente. Quando eu disse o nome dele e outros pormenores, e que ele era ruivo, a índia confirmou que ele existia e passou a me estranhar de verdade. Depois de terminado o namoro conversei com ela em diversos vôos, na casa dela.  Ela dizia e repetia que não era preciso um rompimento.

Um dia fomos a Bauru, um fotógrafo, o repórter do Estadão, o motorista de um velho Fusca ano 1962 e eu, do Jornal da Tarde. Voltamos à 1h30 da madrugada depois de cobrirmos o Torneio Internacional das Estrelas de Basquete. Checoslováquia campeã. À noite durmo fácil ao volante. Quis dirigir a primeira hora. Dormimos todos.

Ar fresco da manhã, acordei com o Fusca embicado no chafariz de uma praça.  Perguntei ao caboclo sentado no degrau: que cidade é esta? Divertido, gritou: Itú, uai!  Meus colegas acordaram, num sobressalto. Dirigi todo o tempo dormindo na antiga, longa, estreita estrada de uma pista só, então sem faixas nem placas e nenhuma iluminação.  Os faróis do velho Volks 62, os antigos sabem, eram duas lamparinas. Horas de viagem na noite escura, todo mundo dormindo, dirigi dormindo de Bauru a Itu.

Para o Lenildo, fui falando no meio de um formigueiro de gente no Metrô:
- Não incorporo espíritos, não acendo velas, charutos, cachimbos, não mato as pobres das galinhas. O que acontece comigo os espíritas chamam de desdobramento. Fico voando por aí. Meu espírito sái do corpo, vejo o mundo físico como ele é, as ruas, casas, céu, montanhas, converso, sei de coisas que ainda vão acontecer. 

Já no trem, mudo de conversa: -Você gosta de Sheakespeare?  
Gira a cabeça, sorri: claro, claro.
- Então vamos ao autor de Romeu e Julieta e fechamos o assunto. Os céticos, e também você e eu, ficamos todos com o dramaturgo inglês e pronto: existe muita coisa entre o céu e a terra que a vã filosofia humana desconhece. Fim.

Lenildo está feliz e ele próprio quer me contar uma história que começou na terra e terminou no céu. O cachorrinho de um vizinho descia a rua do Lenildo todo dia às 3 da tarde e se enroscava nas pernas de outro vizinho, aliviando-lhe as dores até as 5. Todo o santo dia. Meses depois o homem morreu, às 5 da tarde, mesmo dia e hora da morte do cachorrinho, lá na casa de seu dono.

Lenildo dá um suspiro. Na Estação Sé, desaparece na plataforma congestionada, passos curtos, lentos, costas largas. Eu sigo para a minha Vila Ré, na zona leste de São Paulo. Perto da Estação Tietê está o Campo de Marte. Giram as hélices do Lenildão de 4 poltronas. Rumo ao lar, em Pernambuco. O avião caiu e foi assim que o bom Lenildo Tabosa Pessoa morreu.

Autor:  Apóllo Natali


DELÍRIO DE HUMANIDADE

Não basta informar. É preciso comunicar. Nem tal ainda basta. É preciso comungar. 

Escrever sem emoção é escrever sem verdade. Na tarefa do repórter, equivale a humanidade.

Objetividade e imparcialidade têm pouco a ver com frieza. A emoção é própria do ser humano e, como tal, faz parte da realidade que o jornalismo pretende garimpar. A terra continua fértil em histórias humanas. O jornalismo ainda não chamou a si a competência para pautar e comunicar o que se passa à nossa volta.

A informação bem trabalhada é patrimônio da humanidade.

O lufa-lufa de uma redação ignora a matéria-prima da vida.

Esses, alguns pálidos recortes, aleatórios e entre aspas, do pensamento de Cremilda Medina,  em “A Arte de Tecer o Presente”.

Em 21 capítulos, onde se identificam crônicas, reportagens, artigos, comentários, ensaios, a coordenadora do curso de Comunicação Social da Universidade de São Paulo acredita que “a tecelagem do cotidiano se cria na penumbra do subsconsciente, na magia do inconsciente. Aí brota uma emoção solidária densa e tensa...estar afeto aos protagonistas e à cena que eles tramam demanda um exercício constante de despoluição da consciência racionalista que tudo instrumentaliza. É preciso restaurar a respiração profunda da interação social criadora...do outro lado está um leitor também autor. A busca estética se molda na comunhão poética. O que parece fragmentado pode ser retecido na comunicação social. O trabalho dos mediadores artesãos (os jornalistas) se torna autoral”.

Isso não é tudo, ou não é nada, sem um mergulho fundo em toda a densa obra da autora e especialmente no que ela entende por escrever com afeto. Descobriu Benjamin Averbuch, pequeno comerciante gaúcho que fechou a loja para se entregar à arte. E então: “Pintei essa história com as tintas mais afetivas possíveis. Devo ter intuído o que hoje entendo por afeto. Estava perfeitamente afeta ao meu personagem e essa era uma narrativa de pessoas afetas uma à outra. A cumplicidade – ou comunhão – não resultava em um relato árido de reconstituição de uma biografia, mas a aventura surpreendente de uma vida”.

A vida moderna, lamenta Cremilda, entre aspas, satura o freguês de ofertas supostamente culturais. Atualmente se tem acesso a tudo on-line. O cotidiano, repleto de nuances, se vê travestido com ares de reality show. Uma interminável encenação de performances vazias que preenche o ócio intelectual, embota a emoção e reproduz com acabamento às vezes impecável, conversas de comadres e compadres, recheadas de estereótipos e preconceitos. A informação bruta, que se verte aos borbotões em qualquer agência dos correios ou cybercafés, substitui a emoção real do contato entre humanos. E fornece ampla munição para a guerra dos pseudo-intérpretes da palavra do poder.

...A narrativa da contemporaneidade sem a ação social não passa de discurso abstrato, conceitual ou judicativo...fórmulas mecanicistas não respondem à demanda criativa da comunicação social...a alergia ao diálogo dos afetos constitui o dilema do analfabetismo emocional contemporâneo.

Na oficina de narrativas da contemporaneidade desenvolvida pela professora Cremilda Medina na Universidade de São Paulo e em cursos em outras universidades, é rara a presença de participantes -e eles são de todas as idades -que se abrem para uma leitura intimista, que se permitem a relação afetiva sujeito-sujeito. “Ou seja, o que aquele artista diz ter a ver com a própria vida”. Normalmente, segundo a professora, “há uma incidência mínima de autores com essa autonomia poética, libertos do esquematismo conceitual. A maioria se comporta dentro das expectativas ou de avaliação crítica ou de descrição partitiva dos traços de superfície.”

Os frutos se colhem com a estratégia pedagógica de Cremilda: debater textos seus, junto com os escritos pelos alunos. “A revolução ocorre quando autor e ambiente do relato, autor e protagonistas da ação social se enlaçam como sujeito-sujeito, e não sujeito-objeto. É como se revelasse, por estalo intuitivo, que pertencemos à saga do outro e o outro se movimenta na nossa própria aventura.Os resultados são surpreendentes. Brotam narrativas totalmente diversas, ou seja, histórias humanas preciosas que abandonam a obsessão dos juízos de valor ou a descrição partitiva”.

Mas a graça da arte de narrar não cai do céu.

Cremilda tem dedicado a maior parte de sua vida à pesquisa da narrativa da contemporaneidade. Em suas oficinas, ela já mapeou tendências de expressão entre alunos de Jornalismo, estudantes de pós-graduação provenientes de Comunicação Social e de outras áreas de conhecimento, professores universitários tanto da Universidade de São Paulo quanto de outras universidades brasileiras (Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Paraná, Mato Grosso, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, interior de São Paulo e Universidade Fernando Pessoa, Porto, Portugal).

Em todo esse trabalho, “a mínima parcela dos grupos se permite um vôo original que transcende o explícito e o apreensível segundo os estereótipos mentais – uma descrição estática, superficial e esquemática do acontecimento vivo. Essa minoria transnarra o objeto de observação, funde nele sua experiência, humaniza os movimentos da cena e se permite o exercício da intuição ao passar, no subtexto, os mistérios não controlados pela lógica do senso comum”.

“As cenas que compõem a dramaturgia narrativa – ensina Cremilda – nascem da percepção viva de quem foi ao mundo e não se fechou na couraça dos que não viram, não cheiraram, não tocaram, não ouviram nem degustaram – aqueles relatos preconceituosos que sabem de antemão o que vão escrever”.

Não basta informar, comunicar e comungar. É preciso delirar.

Autor:  Apóllo Natali


ABAIXO O TERROR CONTRA CRIANÇAS!

Você falaria essa palavra – matar – para sua filhinha, encolhidinha em seus braços? Como não? Falou! Foi quando contou a lenda da bruxa que queria matar Branca de Neve por envenenamento. Eu também falei e um doloroso complexo de culpa me fez mudar de assunto: não filhinha, a bruxa não vai matar. Não vai matar? – se consolou, lagriminhas a escorrer entre uma porção de solucinhos, minha sobrinha bisneta, três aninhos, inocentes olhinhos, espigados cabelos. Seres frágeis e indefesos como esse há séculos são assustados com essa palavra , morte, nas fábulas infantis e cantigas de terror para crianças. A propósito, abaixo o bicho-papão e o boi da cara preta.

A propósito do Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil, 2 de abril, listei como exemplos dez historinhas para crianças sempre presentes nas páginas dos livros, telas dos cinemas, palcos de teatros – de Branca de Neve aos Três Porquinhos, de João e Maria à Bela Adormecida. Repare que essas fábulas bombardeiam os cérebros infantis receptivos com episódios de assassinatos, canibalismo, tortura, fratricídios, infanticídios. E perseguições, sentimentos doentios de inveja, ciúmes, ódio, vingança, crueldade, abandono de incapaz, preconceitos, discriminação, saques, cárceres privados, buylling. Esses crimes todos, que vamos repassar agora, imaginados para o entretenimento de crianças pelos autores das fabulas, a maioria européias, se julgados resultariam em prisão perpétua para cada um deles. Com a invenção dos vídeos, pixotinhos e pixotinhas são hoje encafifados na poltrona de casa mesmo, não apenas por escrito, agora ao vivo, por bruxas e madrastas ameaçadoras, com seus gritos de terror, gengivas escancaradas, risos sarcásticos – a tramar assassinatos. Para a indústria cultural, o horror e a morte são apenas produtos à venda.

Aterrorizante, pois, é o buylling praticado pela espécie humana contra seus filhotes, desde que mundo é mundo. Um dos mais crueis é contar historinhas de terror para crianças sobre bruxas com tendências sempre assassinas, madrastas sempre malvadas, reis sempre besterentos. Se não vejamos. Na fábula João e Maria, há o assassinato da bruxa praticado por duas crianças, um menino e uma menina, que a jogam no forno e a queimam – e garante a historinha – queimam até o último osso. Ato contínuo, as crianças saqueiam o tesouro da velhinha-capaz-de-grandes-crimes que perpetra tentativa de canibalismo, pois quer comê-las. Como a velhinha conseguiu tanto ouro, diamantes, moedas, não importa. O que vale é que a bruxa planejava comer Mariazinha assada e Joãozinho cozido. No início da historinha, os pais cometem crime de abandono de incapaz, pois largam as crianças no mato para que morram. Tudo por incitação da madrasta malvada. Criança, não verás nenhuma fabula tão sanguinolenta como essa!
Em Cinderela, a madrasta e suas duas filhas – feias – rasgam o vestido da jovem – bonita – para ela não ir ao baile do príncipe. Obrigam-na a fazer todos os serviços domésticos e ainda a maltratam com deboches e malvadezas, o tal do crime de buylling. As despeitadas trancam a heroína no porão – crime de cárcere privado. Falar o quê?

A Bela e a Fera: as irmãs invejosas da Bela maquinam fazer a Fera ficar aborrecida com a moça. Para que? Para perder a paciência com ela e…devorá-la! A Fera, fatalmente, vira um príncipe.Trata-se de uma técnica de vendas, eufemismo, para amenizar o ruim. Vender fábulas é preciso. Em outra versão, uma fada – malvada – tentou seduzir o príncipe, se deu mal, porém seguiu tentando matar Bela e casar com seu pai. O que uma fada malvada não faz por uma mísera lua de mel. Ciúme, trama de morte, sedução, literatura para crianças.

Branca de Neve: o pai da menina, um rei, ficou viúvo e fez a asneira que todos os reis fazem nessas histórias infantis, casou com uma mulher certamente belíssima, naturalmente madrasta, comprovadamente cruel, evidentemente feiticeira. Que sempre maltratou e assustou a menina. Fábula que se preza mata gente boa. O escritor da fábula mata o rei, na sua criação literária a madrasta expulsa Branca de Neve e torna-se mandante de assassinato cruel, crime hediondo, contratando um caçador para matar a pequena e trazer o seu coração numa bandeja. Ou embrulhado num jornal, esse detalhe a historinha não explica. O caçador, único personagem bondoso que jamais aparece em fábulas de terror para crianças, entrega um coração de javali. A madrasta disfarçou-se de bruxa indefesa-feiosa-cara-torta-fingida e primeiro tentou matá-la com um pente envenenado. Depois, matou-a com maçã envenenada. Nada que um pouco de erotismo não resolva: o príncipe beijou-a e ela ressuscitou. Veneno aqui, veneno ali, morte aqui, morte ali, para crianças.

Em A Bela Adormecida o terror é semelhante ao de Cinderela. No batismo da Bela, 12 fadas boas receberam presentes, menos uma, a fada malvada, que lança na criança um feitiço cujo resultado seria a morte pelo picar do dedo num fuso ao tecer um pano ainda não especificado. A 12ª. fada, boa gente, transformou esse tipo de morte em sono profundo de apenas 100 anos. Uma pechincha. Até o dia em que o príncipe deu um beijo nela e ela acordou. A mãe do príncipe, descendente de ogres – tinha que ser! – ficou com vontade de comer os próprios netinhos, os dois filhos da Bela, agora acordada e mãe. Mandou atirar as netas – eram duas meninas – em um poço cheio de serpentes, cobras e víboras. A rainha antropófoga, canibal, tipo de gente que se alimenta de carne humana, -entenderam, crianças? – cheia de ódio, desequilibrou-se e caiu no poço, onde morreu. Bela e o príncipe foram felizes para sempre. Façam-me um favor!

Em A Cigarra e a Formiga a criançada é obrigada a acreditar que uma querida artista, todos os artistas são queridos, cujo trabalho é cantar com sua voz quente e magnética, nada mais é do que uma vagabunda, enquanto a profissão das formigas, pegar na enxada, essa sim é de honra maior. Ah, esse sistema de desenfreada produção manufatureira capitalista…Uma história de discriminação, injúria, calúnia, ofensa a uma artista digna cuja vocação produtiva é encantar o mundo com a voz. Belo e acariciante é o canto da artista cigarra em tardes silenciosas e ensolaradas: rrrrrriiiiiiiaaaaaaa!!!!

Os Três Porquinhos é uma historinha para crianças com três tentativas de assassinato. Aliás, quatro. Três tentativas por parte do lobo contra os três bichinhos e uma quarta, a de matar o lobo com fogo. Descendo pela chaminé, o lobo sente cheiro de queimado. Era sua cauda que estava sendo assada pelo porquinho dotado da prática de matar, de nome Prático, o justiceiro da turma. Beleza de práticas cruéis relatadas para crianças.

Beleza de terror é A Mula Sem Cabeça, e essa é lenda nossa, ninguém tasca. Mostra uma rainha – olha elas – comedora de cadáveres de crianças. Nossa! Você não vai contar uma historinha dessas para sua princesinha, vai? Num determinado reino, uma rainha costumava ir secretamente ao cemitério à noite. O rei seguiu-a e se deparou com a esposa comendo o cadáver de uma criança. Adulto cretino, podem estar pensando as crianças e seus responsáveis a respeito do inventor dessa lenda. Ao ser pega em flagrante pelo rei, a rainha se transformou numa mula sem cabeça e saiu galopando em direção à mata, nunca mais retornando para a corte. Ainda bem. Outra versão da lenda diz que quando uma mulher namora ou casa com um padre ela se transforma numa mula sem cabeça. Outra ainda é que isso acontece quando uma mulher perde a virgindade antes do casamento. Por acaso seriam histórias de autoria da burguesia exploradora da boa fé popular com vistas à repressão sexual? Tirem as crianças da sala.

Em A Lenda da Mãe D’Água, também fábula nossa, os irmãos da belíssima índia Iara queriam matá-la por inveja e ciúme de suas qualidades de beleza, trabalho e coragem. Rápida e guerreira, ela é que matou os irmãos, ao se defender. Como punição, o pai jogou-a no Rio Negro, e lá ela se transformou numa belíssima sereia de cabelos longos e olhos verdes, o tempo todo atraindo os homens de maneira irresistível, fazendo-os vivenciar experiências sexuais incríveis. E matando-os. A gênese de uma prostituta serial killer.

Difícil entender os enigmas de Alice no País das Maravilhas, nem saber por que ela cresce e diminui ao comer certos alimentos. Alice no país do terror enfrenta a imprescindível raínha má, que esbraveja, durante toda a historinha, sua deixa de morte: Cortem-lhe a Cabeça! Ordena, sem mais nem menos, que um gato, bichinho querido das crianças, seja decapitado, por pertencer à Duquesa, que ela odeia. Contrariada, arremessa um bebê, que cai nos braços de Alice, que corre para o mato. Infanticídio, gente!

O Patinho Feio especula emoções de tristeza nos coraçõezinhos da criançada, explorando as circunstâncias de vida de um filho adotivo à procura de sua mamãe. Até ele descobrir que não é pato e, sim, ganso, e enquanto não encontra a mãe verdadeira, sofre, eis a trama desta fábula – rejeição, solidão, buylling dos filhos da madrasta e dela mesma.

Em tempo! Em tempo! – está na hora de espalhar para a molecada do mundo inteiro a lenda real e confortadora de que a Terra está repleta de madrastas e vovozinhas amorosas, dedicadas, que criam e amam apaixonadamente os filhos alheios e os delas também. E ouçam, e leiam, brasileiros e brasileiras, e os europeus das fábulas inclusive, o mundo todo, aquelas músicas, poesias e histórias infantis que adoçam os corações de crianças e gente grande, de autoria de Villa Lobos, Toquinho, Vinícius de Morais. Há livros (Arca de Noé, Livraria José Olympio Editora, 1986, de Vinícius) e CDs (Arca de Noé 1 e 2) com historinhas infantis na base da poesia nada nada terroristas (genialmente musicadas!) do nosso poetinha e de Toquinho. Muito cansado, já perdi toda a alegria de fazer meu tic-tac dia e noite, noite e dia, orquestra ele em O relógio. O cravo desmanchou o namoro com a rosa, debaixo de uma sacada, o cravo ficou magoado e a rosa despetalada, palma, palma, palma, pé, pé, roda, roda, roda, caranguejo peixe é, compõe infantilmente Villa Lobos. Abaixo o terror!

Autor: Apollo Natali é jornalista, formado aos 71 anos, depois de 4 décadas atuando na imprensa. É colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Desabafos de um ancião”.


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