AUTORES CÉLEBRES

J. G. DE ARAÚJO JORGE

CANTO INTEGRAL DO AMOR

NOSSA CAMA

DUALIDADE

MEU MUNDO


CANTO INTEGRAL DO AMOR

Cegos os olhos, continuarias de qualquer forma,. presente,
surdos os ouvidos, e tua voz seria ainda a minha música,
e eu mudo, ainda assim, seriam tuas as minhas palavras.

Sem pés, te alcançaria a arrastar-me como as águas,
sem braços, te envolveria invisível, como a aragem,
sem sentidos, te sentiria recolhida ao coração como
o rumor do oceano nas grutas e nas conchas.

Sem coração, circularias como a cor em meu sangue,
e sem corpo, estarias nas formas do pensamento
como o perfume no ar.

E eu morto, ainda assim por certo te encontrarias
no arbusto que tivesse suas raízes em meu ser,
- e a flor que desabrochasse murmuraria teu nome.

(Poesia de JG de Araujo Jorge – extraído do livro
Os mais belos poemas que o amor inspirou- 1965)


NOSSA CAMA

Olho nossa cama. Palco vazio
sem o drama, sem a comédia,
do nosso amor.
A nossa cama branca,
branca página, em silêncio,
de onde tudo se apagou...

(Meu Deus! quem poderia ler aquelas ânsias, aquêles gemidos,
aquêles carinhos
que a mão do tempo raspou, como nos velhos
pergaminhos?...)

A nossa cama
imensa, como a tua ausência,
tão ampla, tão lisa, tão branca, tão simplesmente cama,
e era, entretanto, um mundo,
de anseios, de viagens, de prazer,
- oceano, que teve ondas e gritos encapelados,
nêle nos debatemos tanta vez como náufragos
a nadar... e a morrer...

Olho a nossa cama, palca vazio,
em nosso quarto, - teatro fechado –
que não se reabrirá nunca mais...

Nossa cama, apenas cama, nada mais que cama
alva cama, em sua solidão
em seu alvor...

Nossa cama
- campa (sem inscrição)
do nosso amor.

(Poema de JG de Araujo Jorge, do
livro – Quatro Damas – 1965)


DUALIDADE

Sei que é amor, meu amor... porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, Ter sentimento,
quando estás junto a mim, quando te vejo.

É um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que é amor, meu amor... porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as mãos, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, ( violento e terno)
em que minha vida se reparte,

- e a perceber, meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um demônio e um anjo em todo amor!

MEU MUNDO

Toda tarde digo para mim mesmo: afinal,
eis o meu mundo.

O mesmo beijo, o mesmo quarto claro, com seu assoalho brilhante
refletindo o meu passo;
as mesmas paredes brancas me envolvendo com afáveis gestos de
paz; o mesmo rádio silencioso, entre livros empilhados, a mesma
estante fechada que a um gesto meu descobre tesouros como velha
mala de pirata.

Afinal, eis o meu mundo.
A mesma insubstituível companhia,
a mesma presença até
quando longe dos olhos,
a mesma voz perguntando, a mesma voz respondendo,
o mesmo odor suave da janta, do tempero cozinhado,
a mesma impressão de quem chega de ombros nus e veste
ajudado um macio agasalho.

Afinal, eis o meu mundo.
Como o pescador solitário, diante das vagas:
- eis o meu mar.

Como o pássaro do dilúvio diante do primeiro ramo:
- afinal, eis a terra!

Autor: J. G. de Araujo Jorge


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