AUTORES CÉLEBRES

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

AS CARTAS TROCADAS ENTRE DRUMMOND E UM JOVEM ESCRITOR

TRÊS POEMAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE SÃO DESCOBERTOS EM SP

POEMA DE DRUMMOND SOBRE O RIO DOCE, QUE CIRCULA EM REDES SOCIAIS, NUNCA FOI PUBLICADO EM LIVRO

APELO

AMAR

SERMÃO DA PLANÍCIE

FOI-SE A COPA?

MÃOS DADAS

ACORDAR, VIVER

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

A UM AUSENTE

SENTIMENTAL

RECEITA DE ANO NOVO

CASO DO VESTIDO


AS CARTAS TROCADAS ENTRE DRUMMOND E UM JOVEM ESCRITOR

Nelson Tangerini publica correspondência inédita que guardou por mais de 30 anos

RIO - Em setembro de 1980, Nelson Marzullo Tangerini, então com 25 anos, enviou uma carta para a casa do poeta Carlos Drummond de Andrade com sonetos parnasianos do seu pai e poemas seus. Dias depois, ao abrir sua caixa postal numa agência dos Correios, no Centro do Rio, o jovem estudante foi surpreendido por uma breve resposta do escritor mineiro: “Com um abraço, meu agradecimento pela remessa de seus poemas e de alguns textos poéticos de seu pai, tão justamente lembrado pelo carinho filial. Carlos Drummond de Andrade.” Começava ali uma correspondência que, se não é tão célebre como a mantida pelo poeta com Mário de Andrade ou Manuel Bandeira, revela a sua generosidade com aqueles que o procuravam.

Trinta e cinco anos depois, Tangerini decidiu que era o momento de tornar as cartas públicas no livro “O professor e o poeta — Cartas de Carlos Drummond de Andrade a Nelson Marzullo Tangerini” (Ed. Autografia). Sem as cópias das missivas que enviou, ele optou por escrever pequenas crônicas introdutórias para contextualizar as respostas de Drummond. Hoje professor de língua portuguesa do Colégio Estadual Antônio Houaiss, no Méier, ele conta que só encontrou pessoalmente o poeta uma vez, no lançamento do livro “A paixão medida”, na Livraria José Olympio. A amizade era cultivada pelas cartas trocadas e por telefonemas.

— Guardei esse material durante muito tempo. Senti necessidade de publicar até porque o Drummond foi muito atencioso comigo. Fico emocionado, ele é um mito da literatura brasileira — diz Tangerini.

Ao longo dos seis anos em que se corresponderam, o professor ganhou do poeta um livro do surrealista português Alexandre O’Neill com dois autógrafos: um de O’Neill para Drummond e outro de Drummond para o próprio Tangerini, relíquia que guarda até hoje. O professor também recebeu o apoio do autor mineiro na luta que empreendeu para manter de pé a casa onde viveu o poeta Cruz e Sousa no Encantado. Foi lá que o simbolista, morto em 1898, escreveu o livro “Os últimos sonetos”, publicado postumamente em 1905. A luta, apesar de tudo, foi em vão, e a casa acabou derrubada.

A última carta entre os dois data de 16 de setembro de 1986. Nela, Drummond fala da doença da filha Maria Julieta. Tangerini decidiu parar de escrever para não incomodar o poeta, que morreria em agosto do ano seguinte. Para o professor, o mineiro foi “o mais universal dos modernistas”.

— Na minha concepção, ele é maior do que Mário e Oswald, apesar de eu respeitar muito os dois — afirma Tangerini, que viajou várias vezes a Itabira antes de escrever o livro.

Fonte: Jornal O Globo
Autor: Leonardo Cazes


TRÊS POEMAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE SÃO DESCOBERTOS EM SP

Textos desconhecidos foram publicados na revista “Raça”, de São Carlos, em 1929

RIO - Três poemas desconhecidos de Carlos Drummond de Andrade foram encontrados por uma aluna do curso de Letras da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior de São Paulo. Mayra Fontebasso, que está no último ano da graduação, encontrou os trabalhos do poeta mineiro ao fazer um levantamento dos textos literários de autores modernistas publicados na revista "Raça", editada em São Carlos entre 1927 e 1934, parte da sua pesquisa de iniciação científica sob orientação do professor Wilton José Marques.

Os poemas foram publicados originalmente em junho de 1929, no número 13 da revista, e não constam nem na "Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade (1918-1934)", de Fernando Py, nem no inventário das obras do autor da Fundação Casa de Rui Barbosa, que guarda o seu acervo. Mayra e Marques também consultaram Antônio Carlos Secchin, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), um dos maiores especialistas no poeta mineiro. Secchin examinou o material e confirmou que se tratavam de textos inéditos.

Os poemas chamam atenção pelo estilo: escritos em prosa poética, com traços simbolistas e penumbristas e marcados por um tom melancólico, características da produção do jovem Drummond. Contudo, o poeta se incorporou ao modernismo a partir de 1924, quando começou uma amizade e uma intensa correspondência com Mário de Andrade. Em 1929, sob forte influência das ideias andradianas, o autor mineiro já era um modernista convicto e no ano seguinte lançaria o livro "Alguma poesia". Segundo Mayra, o mais provável é que os textos tenham sido escritos entre 1921 e 1924.

— As revistas do interior paulista nem sempre tinham financiamento garantido, então era comum que as publicações atrasassem anos. Eles devem ter recebido os poemas muito tempo antes, mas só conseguiram publicá-los na edição de junho de 1929 - diz a pesquisadora. - Na bibliografia elaborada pelo Fernando Py, ele elenca dois poemas formalmente muito semelhantes publicados em 1921 no "Diário de Minas". Por isso localizamos os textos entre 1921 e 1924, a data limite. Neste ano, os modernistas paulistas fazem uma viagem a Belo Horizonte e Drummond entra em contato com eles.

A revista "Raça" teve 17 números, mas nem todos foram localizados em arquivos públicos e privados da região, afirma Mayra. A publicação foi dirigida pelo jornalista Orlando Damiano e teve, entre seus colaboradores, nomes como o próprio Mário de Andrade, Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia. A pesquisadora explica que a "Raça" se vinculava a uma corrente conservadora do modernismo, chamada de verde e amarela, e com conexões na oligarquia local, sua principal fonte de financiamento. A revista também publicava ensaios políticos e textos elogiosos a fazendeiros da região e seus filhos. Mayra acredita que os números perdidos podem trazer mais trabalhos desconhecidos de autores do período.

— Muitas das contribuições da revista vinham subscritas com a indicação de que eram inéditas, estavam sendo publicadas pela primeira vez. Por isso, creio que há uma boa chance de haver outros textos inéditos — afirma a pesquisadora.

O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica

Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina...

As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam...

As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada...

As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida...

Como é bela a volúpia inútil de teus dedos...

Autor: Leonardo Cazes


POEMA DE DRUMMOND SOBRE O RIO DOCE, QUE CIRCULA EM REDES SOCIAIS, NUNCA FOI PUBLICADO EM LIVRO

Publicado em 1984 no jornal Cometa Itabirano, a citação não chegou a ganhar versão em livro, o que levou alguns a duvidarem da sua autenticidade

Começou com um texto assinado pela jornalista Mariana Filgueiras no jornal O Globo deste fim de semana. Ao recuperar obras literárias e musicais que já haviam abordado a paisagem e as águas do agora destruído Rio Doce, a reportagem evocava, entre outras canções, versos e trechos de prosa, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Lira Itabirana, que logo, fotografado diretamente da edição do jornal, tornou-se viral devido ao caráter "profético" de suas palavras:

I

O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II

Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III

A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Publicado em 1984 no jornal Cometa Itabirano, o poema não chegou a ganhar versão subsequente em livro — o que levou alguns portadores de antologias de poemas do autor a, em um primeiro momento, duvidar da autenticidade da citação, mas os versos são mesmo de Drummond.
Escrito em um período em que a dívida externa era um fantasma no horizonte de qualquer tentativa de crescimento no Brasil, Lira Itabirana, com versos curtos e diretos que buscam inspiração nas quadras da poesia popular, faz a comparação entre a atividade mineradora incessante e lucrativa e a dívida "eterna" do país, pouco aplacada mesmo com as toneladas de ferro exportado.

Apesar do aparente tom antecipatório, ele apenas reitera alguns elementos com que o poeta mineiro trabalhou ao longo de toda sua carreira: crítica social e política aliada à evocação nostálgica de uma Minas Gerais que já não existia. Lira Itabirana é apenas um dos exemplos de poemas nos quais Drummond refletia, entre melancólico e alarmado, com os efeitos da mineração em seu Estado natal. Qualquer deles, agora, poderia ser relembrado com o mesmo caráter assombroso.

Não é de estranhar que Drummond fale da Vale em Lira Itabirana. Ambos são conterrâneos. Itabira, a cidade a 104 quilômetros de Belo Horizonte em que Drummond nasceu, em 1902, foi a mesma em que surgiu a Companhia do Vale do Rio Doce, em 1942. Antes disso, nos séculos 18 e 19, a cidade já havia passado por ciclos de mineração de ouro, em pequenas empreitadas sustentadas principalmente por mão de obra escrava. O ouro na região, contudo, era menos abundante do que em outras cidades mineiras, e por isso Itabira não experimentou grande crescimento econômico. O próprio Drummond identificava-se, na saudosa crônica Vila da Utopia, como um "filho da mineração", como todo Itabirano:

"Parecia-me que um destino mineral, de uma geometria dura e inelutável, te prendia, Itabira, ao dorso fatigado da montanha, enquanto outras alegres cidades, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer. A vida não é um prazer, mas uma pena. Foi esta segunda lição, tão exata como a primeira, que eu aprendi contigo, Itabira, e em vão meus olhos perseguem a paisagem fluvial, a paisagem marítima: eu também sou filho da mineração, e tenho os olhos vacilantes quando saio da escura galeria para o dia claro."

Essa situação mudou depois que a cidade passou a ser o ponto inicial do chamado "quadrilátero ferrífero", a região de extração do ferro que inclui também Mariana, além de Sabará e Ouro Preto, entre outras. A expansão mineradora, contudo, não era feita sem um preço a pagar, algo que Drummond já havia apontado em um poema de 1973. No seu livro Menino Antigo, o poeta exporia sua inquietação com os efeitos da retirada de minério da região, em A Montanha Pulverizada, poema no qual narra o desaparecimento do Pico do Cauê. Outrora cartão postal e marco do município de Itabina, o Pico do Cauê terminou reduzido a nada pela atividade mineradora:

Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.

(...)

Esta manhã acordo e não a encontro,
britada em bilhões de lascas,
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões,
no trem-monstro de cinco locomotivas
— trem maior do mundo, tomem nota —
foge minha serra, vai
deixando no meu corpo a paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.

Anos depois, em 1984, Drummond faria outra versão desse mesmo poema e a publicaria no jornal Cometa Itabirano — o mesmo no qual saiu também Lira Itabirana.
Em O Maior Trem do Mundo — mais tarde compilado em Poesia Errante, Drummond repete o mote do trem que leva embora não apenas a riqueza mineral extraída da terra, mas a própria terra e seu coração. O poema foi escrito em uma época em que a economia de Itabira já começava a dar mostras de colapso, sem que a cidade tivesse se beneficiado da riqueza gerada pelo empreendimento. O poema de Drummond aborda, com melancolia, a possibilidade de esgotamento dos veios minerados na cidade e seu abandono previsível quando não houver mais o que tirar do coração da terra:

O maior trem do mundo
Leva minha terra
Para a Alemanha
Leva minha terra
Para o Canadá
Leva minha terra
Para o Japão

O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo
Meu coração itabirano

Lá vai o trem maior do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo
E um dia, eu sei não voltará
Pois nem terra nem coração existem mais.

De acordo com a pesquisadora Letícia Malard, autora do livro No Vasto Mundo de Drummond (Editora UFMG, 2005), a "corrosão" é uma metáfora forte e recorrente na poesia de Drummond: "uma corrosão no sentido literal, socioeconômico — a serra sendo corroída pela retirada do minério — e uma corrosão metafórica — a alma corroída do itabirano, uma vez que procura a 'sua' serra, a qual lhe parecia eterna, e não mais a encontra."

Logo, a preocupação de Drummond com os efeitos da mineração em sua região nada tinha de profética. E se agora ela surpreende, é porque, infelizmente, ninguém estava prestando atenção.

Fonte: Zero Hora
Autor: Carlos André Moreira
Enviado por: Nilce Tacuchian


APELO

Poema escrito por Carlos Drummond de Andrade ao marechal Humberto Castelo Branco, chefe da ditadura militar no Brasil, em 1966, pedindo que o regime não prendesse a cantora Nara Leão. A irmã de Danuza Leão e musa da Bossa Nova dera entrevista para os jornais na qual fez críticas aos militares, autores do golpe de 1964, que mudou pela força o sistema político brasileiro. Temendo a prisão de Nara, o poeta fez esse primor de apelo:


“Meu honrado marechal
dirigente da nação,
venho fazer-lhe um apelo:
não prenda Nara Leão (…)
A menina disse coisas
de causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
abala a Revolução?
Narinha quis separar
o civil do capitão?
Em nossa ordem social
lançar desagregação?
Será que ela tem na fala,
mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
em vez de Nara, é leão? (…)
Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo Cão?
Que é pela paz e amor
e contra a destruição?
Deu seu palpite em política,
favorável à eleição
de um bom paisano – isso é crime,
acaso, de alta traição?
E depois, se não há preso
político, na ocasião,
por que fazer da menina
uma única exceção? (…)
Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
para a voz que, pelos ares,
espalha sua canção.
Meu ilustre marechal
dirigente da nação,
não deixe, nem de brinquedo,
que prendam Nara Leão
.”

Enviado por: Laura Maria Lellis da Silva


AMAR

Que pode uma criatura senão,
 entre criaturas, amar?
 amar e esquecer, amar e malamar,
 amar, desamar, amar?
 sempre, e até de olhos vidrados, amar?
 Que pode, pergunto, o ser amoroso,
 sozinho, em rotação universal, senão
 rodar também, e amar?
 amar o que o mar traz à praia,
 o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
 é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
 Amar solenemente as palmas do deserto,
 o que é entrega ou adoração expectante,
 e amar o inóspito, o áspero,
 um vaso sem flor, um chão de ferro,
 e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
 e uma ave de rapina.
 Este o nosso destino: amor sem conta,
 distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
 doação ilimitada a uma completa ingratidão,
 e na concha vazia do amor à procura medrosa,
 paciente, de mais e mais amor.
 Amar a nossa falta mesma de amor,
 e na secura nossa, amar a água implícita,
 e o beijo tácito, e a sede infinita.

Enviado por: Carlos Luiz Grilo Almeida


SERMÃO DA PLANÍCIE
(para não ser escutado)

Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.

Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte.

Bem-aventurados os que não têm paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamos, ou nem isto.

Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mãos agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio.

Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia.

Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura.

Bem-aventurados os fotógrafos que trocaram a documentação do esporte pela dos desfiles de modas, pois não precisam gastar tempo infindável para fotografar o relâmpago de um gol.

Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e segundas na virilha, como os atletas e os assistentes ocasionais das peladas.

Bem-aventurados os que não conseguiram comprar televisão a cores a tempo de acompanhar a Copa do Mundo, pois, assistindo pelo aparelho do vizinho, sofrem sem pagar 20 prestações pelo sofrimento.

Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondo das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo.

Bem-aventurados os que não moram em ruas de torcida institucionalizada, ou em suas imediações, pois só recolhem 50% do barulho preparatório ou comemorativo.

Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação errada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade.

Bem-aventurados os que nasceram, viveram e se foram antes de 1863, quando se codificaram as leis do futebol, pois escaparam dos tormentos da torcida, inclusive dos ataques cardíacos infligidos tanto pela derrota como pela vitória do time bem-amado.

Bem-aventurados os que, entre a bola e botão, se contentaram com este, principalmente em camisa, pois se consolam mais facilmente de perder o botão da roupa do que o bicho da vitória.

Bem-aventurados os que, na hora da partida internacional, conseguem ouvir a sonata de Albinoni, pois destes é o reino dos céus.

Bem-aventurados os que não confundem a derrota do time da Lapônia pelo time da Terra do Fogo com a vitória nacional da Terra do Fogo sobre a Lapônia, pois a estes não visita o sentimento de guerra.

Bem aventurados os que, depois de escutar este sermão, aplicarem todo o ardor infantil no peito maduro para desejar a vitória do selecionado brasileiro nesta e em todas as futuras Copas do Mundo, como faz o velho sermoneiro desencantado, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.

Enviado por: Marly


FOI-SE A COPA?

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.

Autor: Carlos Drummond de Andrade
24/06/1978
Enviado por: Yna Beta


ACORDAR, VIVER

 Como acordar sem sofrimento?
 Recomeçar sem horror?
 O sono transportou-me
 àquele reino onde não existe vida
 e eu quedo inerte sem paixão.

 Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
 a fábula inconclusa,
 suportar a semelhança das coisas ásperas
 de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

 Como proteger-me das feridas
 que rasga em mim o acontecimento,
 qualquer acontecimento
 que lembra a Terra e sua púrpura
 demente?
 E mais aquela ferida que me inflijo
 a cada hora, algoz
 do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.


MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


A UM AUSENTE

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,

enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Enviado por: Marly


SENTIMENTAL

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."


RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido).

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior).

Novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo.
Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


CASO DO VESTIDO

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

Texto extraído do livro "Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, pág. 157.

Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br
Colaboração: Zeca Micaldas

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